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Seja bem-vindo porque é por bem

Paulo RegoPaulo Rego*

É mais do que óbvio que a plataforma lusófona, globalmente considerada, tem uma relevância extraordinária. Por força da complementaridade dos seus mercados; pela sua diversidade cultural, dimensão económica e posicionamento estratégico nos quatro cantos do mundo – físico e virtual. Mas é também natural que Macau privilegie a sua relação com Portugal. De facto, é esse o laço histórico que é sempre superior a qualquer circunstância eventualmente adversa, como no caso dos últimos três anos de crise pandémica.


Na verdade, por mais óbvia que a questão possa parecer, é muito importante que a semiótica política a projete, a cada circunstância, revelando a consciência do atual poder político nesse desígnio estratégico. Ho Iat Seng cumpre essa missão ao escolher Lisboa como primeira porta ocidental que abre.

E, nesta altura, isso é especialmente importante para sossegar as angústias que pairam no ar sobre o compromisso com a missão de ser plataforma, uma vez que foram recentemente postos em cheque alguns dos ícones da descriminação positiva que era tradicional e justificada na relação com a comunidade portuguesa aqui residente. Como se lê na notícia que publicamos nesta edição (última página), a importância da língua e da presença portuguesa como fator de diferenciação e vantagem competitiva para Macau está no centro da mensagem que Ho Iat Seng leva a Portugal.

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E é muito importante que todos os setores de Macau; sejam eles mais ou menos nacionalistas, mais tradicionais ou mais liberais, mais públicos ou privados… percebam esse sinal. A tese é da China e é para Macau. Não é pelo bem de países estrangeiros, e muito menos deste ou daquele BIR. É para o bem de todos nós, mas também porque Pequim assim o quis e definiu há mais de três décadas.

No PLATAFORMA nunca tivémos dúvidas sobre isso. Não as tivémos há dez anos, quando demos os primeiros passos; como não tivémos na transição para o governo mais nacionalista de Ho Iat Seng; como não tivémos quando, enquanto farol bilingue desse caminho, foi preciso ser especialmente resiliente e assumir todos os riscos necessários – juntamente com a imprensa de língua portuguesa, inglesa e chinesa – durante os difíceis anos da crise pandémica. O problema maior nos últimos tempos resulta sobretudo da ausência de sinais claros – e alguns mesmo contraditórios – dados pela atual elite política de Macau.

Verdade se diga, de forma até incompreensível, quando comparados com todas as garantias sempre dadas pelos representantes do Poder Central na Região. O que hoje parece óbvio é que Ho Iat Seng reconhece esse desígnio. Se o adota por convicção pessoal, consciência estratégica, ou pressão continental, é um debate que interessa menos às pessoas, às empresas, e aos agentes da plataforma. Porque, no fundo, seja qual for a sua origem, por maioria de razão junta todos os dados da questão.

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Porque é verdade que Ho Iat Seng nunca poderia fazê-lo contra a estratégia da China, mas também não poderia deixar de o fazer, sendo esse o vento que sopra do norte. Há um dado complementar que pode parecer menor – mas não é. O Consulado de Portugal em Macau tem um novo inquilino, que acaba de ver confirmadas as suas credenciais pelo representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China na Região.

E Alexandre Leitão, que estará nesta altura a definir os eixos estratégicos do seu consulado, tem nesta missão diplomática a Lisboa um instrumento ímpar para ganhar balanço e ambição, não só no sentido de repor o eixo lusófono no seu devido lugar ; como quiçá até para encontrar novas energias que, verdade seja dita, pairam há mais de uma década por vezes mais no universo dos sentidos do que no terreno concreto da ação.

Sem qualquer reserva, porque esse é também o desígnio do PLATAFORMA, desejo a Ho Iat Seng as melhores felicidades em Lisboa; a Alexandre Leitão a maior das competências em Macau (sorte já não lhe chega), e ao poder político português uma consciência reforçada do papel que deve exercer no contexto da plataforma lusófona, e que tem sido mal percebido ao longo dos últimos anos – para ser diplomático.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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