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Infeção generalizada fragiliza sistema de saúde de Macau

Guilherme RegoGuilherme Rego

Pessoal médico cai para metade, enquanto o número de pacientes quadruplica. Funcionários do Conde São Januário e população mostram descontentamento pela forma como as autoridades lidam com a situação. Um virologista dá uma solução para a disparidade entre os casos confirmados e a realidade

Autoridades de saúde informam que o pico das infeções ainda está para vir, deixando em alerta, tanto os serviços de saúde como os residentes. Na semana passada comunicaram que 1/6 da população de Macau (110 mil) já tinha sido infetada com Covid-19 desde o relaxamento das medidas de prevenção pandémica. Contudo, os números podem não corresponder à realidade.

Ao PLATAFORMA, um residente local explica que grande parte das pessoas que conhece não publicaram o resultado positivo na declaração de saúde digital. “Simplesmente fiquei em casa. Estava apenas com sintomas leves e não achei necessário declarar o meu resultado. Grande parte das pessoas que conheço fez o mesmo”, diz. Segundo o que o jornal apurou, também vários hotéis deixaram de aceitar reservas até dia 10 de janeiro, dada a falta de recursos humanos. “Não temos capacidade para servir os clientes agora que mais de metade dos funcionários está de baixa devido à Covid-19. No meu departamento sou a única que se apresentou ao trabalho esta semana”, revela uma trabalhadora ligada a uma das concessionárias.

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No Centro Hospitalar Conde São Januário, uma enfermeira escreveu uma carta anónima na sexta-feira passada a dizer o mesmo: “Já mais de metade dos funcionários das urgências apanhou Covid-19”.

SAÚDE PRECISA DOS NÚMEROS REAIS

Um virologista contactado pelo PLATAFORMA alerta para o perigo que advém da falta de estatísticas fidedignas. “É muito importante para os serviços de saúde terem conhecimento do número real de infeções, para que possam preparar os recursos médicos”, começa por dizer Jacky Cheong. Na sua opinião, mesmo que a população não divulgue na plataforma digital que está infetada com o vírus, através do processo de amostragem o Governo pode estabelecer uma proporção.

“O Governo pode proceder à testagem dos funcionários públicos para determinar a proporção dos infetados. Hong Kong tem um processo mais avançado, pois testam a água dos edifícios e se encontrarem vestígios virais procedem a uma inspeção obrigatória. Quanto mais dados se conseguir recolher, mais precisa será a estimativa. Neste processo, é importante determinar a eficácia do modelo em si”, explica.

Hengqin hospitais

Relatos de funcionários e de residentes locais pintam um cenário negro nas urgências do São Januário, o único hospital público em Macau. Os números avançados pela TDM na segunda-feira (26) também retratam essa realidade: cerca de 1.200 pessoas têm recorrido diariamente às urgências do hospital, quadruplicando o número de pacientes nos últimos dias. Por essa mesma razão, enfermeiros reformados e médicos-estagiários começaram a ser integrados para dar resposta às necessidades da população.

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As autoridades avançaram a 23 de dezembro que 25 por cento do pessoal médico do São Januário estava com Covid-19. Mas uma carta enviada na sexta-feira por uma enfermeira à imprensa e a um deputado da Assembleia Legislativa refuta essa realidade, alegando que mais de metade dos trabalhadores nas urgências do hospital não se puderam apresentar ao serviço, devido a infeção por Covid-19.

CARTA DE UMA ENFERMEIRA

“Por favor, ajudem-nos”, começa assim, alertando para o perigo da taxa de mortalidade continuar a subir caso se ignore determinadas falhas nos processos implementados pelas autoridades. “Não nos importamos de trabalhar que nem uns cães, mas testemunhar o falecimento de pacientes é muito triste. Estamos destroçados”, lê-se.

“Espero que possam divulgar esta carta, caso contrário temo que a taxa de mortalidade continue a aumentar.” Começando pelas clínicas comunitárias, aponta as lacunas: “Se as pessoas não tiverem dificuldades em respirar, é-lhes pedido que regressem a casa, mas os pacientes só querem medicamentos para a febre e a tosse. Sem outras opções, acabam por congestionar as urgências (…) como nunca tinha sido visto”.

Um residente local queixou-se desse mesmo tratamento à Rádio Macau.

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Choi tentou marcar consulta numa clínica comunitária através do sistema online, mas quando não conseguiu, resolveu ir diretamente. Consigo trouxe o filho, que estava a tossir sangue, mas à chegada, um funcionário recusou atendê-la, dizendo que “apenas atendemos quem está em muito más condições e tem de ser carregado por outra pessoa”.

“A situação é bem diferente daquela retratada pelo Chefe do Executivo. Mesmo sem pacientes [as clínicas comunitárias] não nos ajudam”, lamentou Choi.

Na carta, a enfermeira também escreve que não há qualquer separação entre os pacientes diagnosticados com Covid-19 e aqueles que chegam com outras doenças. Por outro lado, revela que o hospital não tem recursos suficientes para lidar com a propagação do vírus. “Já mais de metade dos funcionários das urgências apanhou Covid-19 (…). E esse nem é o maior problema. O equipamento e recursos à nossa disposição simplesmente não dão conta do recado. Mesmo as coisas mais básicas não estão disponíveis, como camas, oxigénio, alimentação e fraldas”.

À Rádio Macau, Tang, uma residente, chega mesmo a descrever o ambiente das urgências no São Januário como um “inferno”, dizendo que os idosos estão simplesmente “à espera da morte” nessa ala hospitalar.

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Tang levou o seu pai às urgências e voltou para casa, para cuidar do resto da família com Covid-19. No dia seguinte, ao regressar, o cheiro era insuportável, pois as fraldas não estavam a ser trocadas.

O seu pai estava a sangrar depois de ter retirado a sua própria borboleta e não estava a receber qualquer assistência médica. “Quis chorar”, revela, acrescentando que nunca pensou que “a situação no hospital pudesse estar tão má”.

NOVAS MEDIDAS SANITÁRIAS

Entretanto, os serviços médicos não urgentes ou não essenciais foram suspensos no hospital público para que os recursos médicos pudessem ser alocados ao tratamento de casos graves de Covid-19.

Cerca de 80 médicos especialistas dos diferentes serviços foram transferidos para as enfermarias de isolamento do hospital e outros 60 médicos residentes e dos centros de saúde da cidade foram enviados para as urgências e Centro de Tratamento Comunitário da Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental de Macau para participarem na triagem dos pacientes.

Foram criados mais centros de isolamento, aumentando o número de camas disponíveis de 300 para 700.

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A vacinação no São Januário foi suspensa e a área de consulta externa de 24 horas foi transformada numa zona de transição para pacientes de emergência, onde 40 camas temporárias estão disponíveis.

Já no hospital privado Kiang Wu, 40 por cento dos trabalhadores do setor médico estão infetados. O Kiang Wu está a tratar cerca de 800 pacientes por dia e suspendeu todos os serviços não urgentes a fim de concentrar os recursos humanos nos pacientes com Covid-19, revelaram na segunda-feira.

ANO NOVO CHINÊS AUMENTARÁ CONTÁGIO

E com a chegada do Ano Novo Chinês, a 22 de janeiro, deve surgir um aumento considerável dos casos, já que a 8 de janeiro o país vai abolir a quarentena obrigatória para quem chega do estrangeiro. Jacky avisa que a época festiva vai certamente espalhar o vírus para as zonas rurais do país, trazendo novos desafios.

“Vai causar maior propagação, porque o vírus vai seguir as pessoas e vai espalhar-se nos meios de transporte. Prevemos que com o relaxamento das medidas chegue às áreas rurais do país, algumas com falta de recursos para lidar com o vírus, trazendo novos desafios”.

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Sobre a possibilidade de este fluxo turístico e relaxamento de medidas preventivas originarem novas variantes do vírus, diz que não é possível estabelecer uma relação.

“É difícil de fazer uma linha temporal para a mutação do vírus, mas sabemos que é seis vezes mais lenta que a gripe comum. A gripe muda de ano para ano, enquanto o novo coronavírus mutou várias vezes em três anos. É difícil de prever se vai mutar novamente com a chegada do Ano Novo Chinês, mas até agora não há qualquer prova científica de que haja uma relação entre ambos”.

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