Início Atualidade “Há muito tempo que o Brasil gostava de ter um representante aqui em Macau”

“Há muito tempo que o Brasil gostava de ter um representante aqui em Macau”

Carol LawCarol Law

Camila Macedo é a primeira leitora do Programa Leitorado brasileiro em Macau. A iniciativa financia académicos brasileiros para atuar em instituições de ensino superior estrangeiras e promover a língua portuguesa e a literatura brasileira. Há seis meses na Região, diz que a cidade é um foco importante para a difusão e promoção da língua no mundo, bem como um ponto estratégico para o Brasil. Numa próxima fase, pretende implementar o exame CELPE-BRAS, um certificado de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros

-É a primeira leitora do programa em Macau. Como descreve a sua experiência até agora?

Camila Macedo – A oportunidade de aprender e conhecer mais sobre o ensino de português para estrangeiros fora do Brasil está sendo incrível. Eu trabalhei no Brasil durante nove anos nos cursos de extensão do Núcleo de Ensino de Português para Estrangeiros (NEPPE) da Universidade de Brasília. Todavia, tinha alunos de diferentes nacionalidades e estava em contexto de imersão. O meu público lá era completamente diferente do que o que tenho aqui na Universidade de São José (USJ). Amo novos desafios e, consequentemente, novas aprendizagens. Posso resumir dizendo que sou muito feliz e grata por esta oportunidade.

-Porque escolheu participar no programa e, consequentemente, escolher Macau para promover a difusão da língua?

C.M. – Sempre sonhei em participar no Programa Leitorado. Está em vigor desde a década de 50 e acredito que seja um desejo de grande parte dos professores brasileiros que se dedicam ao ensino de Português como Língua Estrangeira. A minha motivação para o mestrado foi, justamente, melhorar o currículo para tentar uma vaga no Programa. Em 2019, quando o Ministério das Relações Exteriores lançou o edital com 18 países, identifiquei-me mais com as atividades de trabalho em Macau e no Peru. Os requisitos e as descrições das atividades solicitadas pela universidade eram o que eu mais gostava de fazer no Brasil: desenvolvimento de atividades linguísticas e culturais extracurriculares. Outro motivo é que a minha outra opção era o Peru, porém eu já tinha morado na Argentina e na Espanha. A Ásia era um lugar que eu ainda não conhecia eseria uma experiência completamente diferente das anteriores, além de estar numa região em que uma das línguas oficiais é o Português.

Camila Macedo, primeira leitora do Programa Leitorado brasileiro em Macau

-Porque é que o programa começou a enviar um leitor para Macau?

C.M. – Macau é um local muito importante de difusão e promoção da língua portuguesa no mundo. É um ponto estratégico para o meu país. Há muito tempo que o Brasil gostaria de ter um representante brasileiro aqui, visto que o Consulado Brasileiro está em Hong Kong.

-Qual é a relação entre o Programa Leitorado e o Instituto Guimarães Rosa?

C.M. O Instituto Guimarães Rosa (IGR) foi criado a 31 de março de 2022, justamente para ser o responsável pela promoção da língua portuguesa, difusão cultural e cooperação educacional no mundo. O Leitorado Brasileiro já existia e estava no Departamento Cultural e Educacional do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Hoje, temos o IGR para estabelecer uma marca, fortalecendo a política externa cultural e englobando tudo o que está relacionado com a área.

-Como descreve o seu trabalho em Macau?

C.M. – O meu plano de trabalho é, em primeiro lugar, o que a universidade necessitar. Tenho horas dedicas à sala de aula na USJ e outra parte do tempo é para atividades extras de promoção do Brasil e da língua. Propus alguns projetos extracurriculares aqui na USJ, como o Projeto Conexões Culturais, onde fazemos uma apresentação mensal sobre o Brasil. Outra atividade é a Monitoria Virtual, com a professora brasileira, Renata Silva, que está no Brasil, e apoia os alunos do primeiro ano do curso de Tradução Português – Chinês que nunca tiveram contacto com a língua antes de ingressarem no curso. Também promovi entrevistas com estudantes de diferentes Países de Língua Portuguesa e os meus alunos do segundo ano da disciplina Escrita em Português. Participei no webinar “Encontro com o Brasil” no X Festival da América Latina em Macau a 7 de dezembro para falar sobre o meu país. Participei também em eventos académicos, como o II Conecta Leitores, que ocorreu em Barcelona, em outubro, e o VII Encontro Pontos de Rede em Macau, organizado pelo Instituto de Português do Oriente (IPOR), em novembro deste ano.

-O Brasil está representado em Macau? A comunidade local conhece a cultura?

C.M. – Eu acreditava que o Brasil fosse representado pelos principais estereótipos: caipirinha, samba, dança, capoeira, futebol, carnaval. Descobri que os meus alunos não conheciam a capoeira como eu imaginava (risos), aprendi que pensam muito no quanto o Brasil é perigoso por causa das notícias que chegam aqui. Outra parcela não sabe muito sobre o país, nunca tinham tido um professor brasileiro. Aqui na USJ estamos com sorte, pois temos muitos alunos de países da CPLP. Em Macau há várias ações e instituições de promoção da língua portuguesa, como o Fórum de Macau, o que ajuda na divulgação do conhecimento do português além de Portugal. O português é uma língua pluricêntrica, ou seja, tem mais de um centro gestor do idioma, por isso é muito importante as ações para a mostra de outras variedades. Pretendo ajudar em mais atividades de integração entre os falantes nativos de português e os interessados no idioma.

-Macau é um lugar que normalmente usa português europeu, o que, para muitas pessoas, é muito diferente do português brasileiro. Reconhece algumas dificuldades na integração?

C.M. – No dia a dia há várias palavras que vou aprendendo com os meus colegas portugueses. Acredito que essas diferenças enriquecem ainda mais o idioma. Comecei a fazer um glossário de palavras que aprendo em Português Europeu e que não usamos no Brasil. Quando falamos em inglês, normalmente não nos focamos nas diferenças entre o americano e o britânico de forma negativa. Contudo, no português, muitas pessoas abraçam o mito de que há um mais certo ou um melhor do que o outro e isso não existe, pois são variações da mesma língua.

-Macau tem a missão de ser uma plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Na sua opinião, tem feito um bom trabalho? Como é que o programa pode facilitar esse processo?

C.M. – Participei em alguns eventos com esse objetivo e considero que são extraordinárias quaisquer ações com esse fim. Nós participamos quando somos inseridos nos eventos, por exemplo, no X Festival da América Latina em Macau apresentamos um pouquinho do Brasil. O consulado brasileiro em Hong Kong ajudou com o que foi possível e solicitado.

-Quanto tempo vai ficar em Macau?

C.M. – O meu contrato é de dois anos e já estou há seis meses, portanto ainda tenho um ano e meio. No Leitorado Brasileiro, existe a possibilidade de renovar por mais dois anos. Ou seja, um leitor pode estar no mesmo edital por um máximo de quatro anos.

-Existe um plano para o próximo passo em Macau? Como prevê o desenvolvimento deste programa?

C.M. – O próximo passo é ajudar na implementação do exame CELPE-BRAS, que é um certificado de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros. O exame era aplicado pela Universidade de Macau, porém não foi aplicado nos últimos anos. Acredito que seja muito importante voltar a aplicá-lo. Pretendo seguir fazendo as atividades culturais para os interessados na língua portuguesa e na cultura brasileira.

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