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Medicina chinesa de Macau entra no mercado brasileiro

Viviana ChanViviana Chan

Uma empresa de medicina tradicional chinesa local prepara-se para entrar no Brasil, depois de passar pelo mercado moçambicano. “Estamos conscientes da posição de Macau entre a China e os países lusófonos”, diz o diretor de Desenvolvimento Técnico, enfatizando a importância que a Zona de Cooperação em Hengqin teve na obtenção destes novos mercados

Criada em 2008, a Fábrica de Produtos Farmacêuticos Macau-União Ltd conta com mais de 600 produtos à venda em Macau. Agora, prepara-se para entrar no mercado brasileiro, tendo o processo de registo de produtos de uso externo a decorrer.

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O seu diretor de Desenvolvimento Técnico, Lao Tai Hang, diz ao PLATAFORMA que, entre 2008 e 2013, a fábrica apenas auxiliava fabricantes locais de equipamentos originais a contactar farmácias, clínicas e os hospitais de Macau. Sendo uma cidade pequena, mas com grande número de farmácias, Lao explica que cada uma quer ter a sua própria marca, para se diferenciar das restantes. E tal levou a que a fábrica decidisse desenvolver uma série de marcas e produtos.

Lao Tai Hang, diretor de Desenvolvimento Técnico da Fábrica de Produtos Farmacêuticos Macau-União Ltd.

Surge então, em 2013, a Macau Original, com registo em Macau e na China continental. Destaca-se o galo de Barcelos como símbolo, uma marca que gradualmente tem garantido o seu espaço no mercado local. Lao Tai Hang diz que a empresa fez essa escolha por querer salientar os traços característicos de Macau.

Uma escolha que diz ter sido acertada, já que a criação da Macau Original coincidiu com o florescimento da indústria turística local e tal ajudou a que a marca se destacasse dos restantes produtos de MTC procurados pelos turistas chineses.

RUMO AO BRASIL, PASSANDO EM MOÇAMBIQUE

Sendo já uma farmacêutica de longa data em Macau, Lao menciona que a internacionalização da empresa foi motivada pela Feira Internacional de Macau, realizada em outubro deste ano, tendo o Brasil como alvo“.

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Fizemos esta escolha por estarmos conscientes da posição de Macau entre a China e os países lusófonos, seja através da sua plataforma comercial ou do seu plano de diversificação com base em quatro indústrias estratégicas”, explica.

Uma expansão que passou também pelo seu registo em Moçambique, motivada pelas semelhanças legais entre o Brasil e o país africano no que respeita ao licenciamento produtos medicinais.

Lao explica que a cultura da MTC dificulta o processo de avaliação segundo as normas de medicina farmacêutica ocidental. De acordo com o representante, é extremamente difícil entrar nos mercados farmacêuticos da União Europeia, como o de Portugal, por se tratarem de dois sistemas completamente diferentes.

Contudo, neste momento, em Moçambique estão registados produtos de uso tópico à base de plantas. No país africano, aliás, Lao diz que já existem práticas medicinais semelhantes, sendo mais fácil a sua introdução.

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Após a experiência da sua promoção e registo em Moçambique, a empresa “ofereceu às agências de registo farmacêutico no Brasil a liberdade para escolher os produtos mais adequados ao seu mercado”, uma estratégia diferente da utilizada na RAEM.

“Em Macau era completamente o oposto”, afirma.

A fábrica ofereceu às agências de registo farmacêutico no Brasil a liberdade para escolher os produtos mais adequados ao seu mercado. Em Macau era completamente o oposto (…). Selecionávamos os produtos que acreditávamos serem mais comercializáveis para registo, Lao Tai Hang, Diretor de Desenvolvimento Técnico da Fábrica de Produtos Farmacêuticos Macau-União Ltd.

“Selecionávamos os produtos que acreditávamos serem mais comercializáveis para registo. Agora temos procurado seguir os conselhos das agências locais e deixamos que selecionem os produtos com maior potencial para o seu mercado”.

DE HENGQIN PARA O MUNDO

A empresa registou os seus produtos no mercado moçambicano em 2018, graças à ajuda do Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação Guangdong-Macau em Hengqin. Porém, a pandemia levou a que os acordos assinados em 2019 com vários agentes de exportação não chegassem a ser cumpridos.

Para Lao, instituições como o Parque Científico são essenciais, já que existe alguma “urgência em criar casos de sucesso”. Apesar de dizer que ainda é cedo para apelidar estas plataformas como “maduras”, admite que a indústria tem cada vez mais oportunidades.

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Numa perspetiva de internacionalização, a empresa entrou este ano no mercado da Associação de Nações do Sudeste Asiático. Lao, responsável pela sucursal da Fábrica de Produtos Farmacêuticos Macau-União Ltd no Parque Científico, diz que o interesse pela Grande Baía começou em 2014.

“Na altura tinha já sido confirmado que Hengqin seria um centro importante para a indústria de MTC de Macau. O Parque Científico foi planeado em 2015, com as medidas de infraestrutura relevantes a serem definidas em 2017, incluindo a localização em Hengqin”.

Segundo o diretor, a zona de Hengqin foi escolhida devido às vantagens que Macau tem na produção farmacêutica e posterior entrada no mercado do Interior. Um creme para massagens produzido pela fábrica é atualmente um dos medicamentos de uso externo a ser registado na China continental.

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“A expansão para o mercado internacional e para a China Interior foi impulsionada pela criação do Parque Científico, com Macau a focar-se na pesquisa, desenvolvimento e produção, mantendo o título ‘Fabricado em Macau’”.

Com o auxílio do Parque, a fábrica melhorou as suas técnicas de produção.

Apesar da província de Guangdong autorizar apenas a entrada de MTC de uso externo no Continente, Lao Tang Hai espera que, caso o produto esteja à venda em Macau há mais de 5 anos, este mecanismo possa ser alargado para incluir também produtos de ingestão.

Até maio deste ano, 220 empresas registaram-se no Parque Científico. Entre estas, 54 tiraram partido do espaço na área de MTC, suplementos nutricionais, equipamentos médicos e biomedicina – o que demonstra o efeito agregador do Parque Científico. Por outro lado, tem auxiliado uma série de empresas locais a registarem novos produtos em Moçambique.

REGISTADO EM MACAU, PRODUZIDO EM HENGQIN

Dias antes desta entrevista, a Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau publicou as “Medidas de Apoio ao Desenvolvimento de Alta Qualidade da Indústria de Saúde e Biomedicina na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”, enfatizando o auxílio prestado a vários projetos, incluindo de Macau, criados a partir da marca “registado em Macau, produzido em Hengqin”.

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Estas medidas têm produzido grande interesse na indústria. Lao explica que, tendo “tudo em consideração, estas são algumas das medidas mais favoráveis para o setor da saúde em todo o país”.

Segundo o documento, os produtos de MTC, alimentos e suplementos nutricionais aprovados e registados em Macau e produzidos na Zona de Cooperação Aprofundada estão autorizados a utilizar as etiquetas “Fabricado em Macau”, “Produzido em Macau” e “Concebido em Macau”, com um subsídio máximo de 20 milhões de renminbis (RMB) por produto. Empresas nesta Zona são ainda incentivadas a se candidatarem a certas licenças de produção e a criar produtos registados em Macau.

medicina tradicional chinesa

O subsídio máximo para cada é de 600 milhões de RMB. O objetivo é trazer projetos de investigação de nível internacional, com um subsídio de até 30 milhões de RMB, para ser utilizado no seu capital registado, aquisição de propriedades e custos de pesquisa.

Lao descreve esta política como uma medida capaz de auxiliar todo o tipo de negócios, de pequena ou grande dimensão.

“A Fábrica de Produtos Farmacêuticos Macau-União Ltd é uma PME (pequena e média empresa), sem um sistema farmacêutico completo, ao contrário de gigantes da indústria como a Guangzhou Pharmaceutical Holdings Limited, que possuem uma grande capacidade de produção, pesquisa, desenvolvimento e registo. As PME como nós não têm as mesmas vantagens e estas medidas dão-nos maior flexibilidade”.

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Segundo as novas medidas, a marca “registado em Macau, produzido em Hengqin” é diferente da atual etiqueta “Made in Macau” (Fabricado em Macau), utilizada pela fábrica.

Sobre isto, Lao afirma que a fábrica está a explorar a possibilidade de implementar o novo modelo. Para tal, levanta a possibilidade de transferir algum do processo de produção para Hengqin.

Acrescenta ainda que muitas das medidas de apoio atuais criam apenas uma estrutura, cujos detalhes de implementação demorarão a ser definidos. Todavia, alerta que este processo deve ser acelerado, pois “grandes atrasos irão afetar a confiança dos negócios envolvidos, e os mesmos poderão procurar outras opções”.

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