
A China dá à Rússia o abraço do urso. O apoio no conflito ucraniano deixa Putin dependente de uma aliança tão improvável quanto previsível – por outros motivos. Pequim ganha também estatuto de potência militar e líder global, que até era uma evidência apenas económica. Finalmente, Washington vê-se agora na contingência de concentrar forças no centro da Europa, desviando- se do foco que havia posto na Ásia/Pacífico, precisamente para conter a ambição de Pequim.
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Há um grande elefante escondido na sala: Taiwan. A Europa deu mais uma vez provas da sua inépcia, tendo o presidente francês caído no ridículo de tentar ser moço de recados entre Putin e Biden. Mas a estratégia de Putin ultrapassa em muito a questão ucraniana e a segurança europeia.
Na verdade, testa a real vontade norte-americana de reagir militar e economicamente às pretensões de um bloco oriental que faz frente ao domínio ocidental na governação global. A China, sem se envolver diretamente, mede também aqui até que ponto Biden arrisca o confronto.
O que lhe serve para redesenhar a sua estratégia de influência na Europa, África e América Latina. Se a reação contra Putin for frouxa, Pequim tirará ainda conclusões sobre Taiwan. O maior problema chinês é o da imprevisibilidade de Putin. O apoio chinês não incluía o reconhecimento das zonas independentistas na Ucrânia, muito menos o lançamento de mísseis, o que muda as regras do jogo e fragiliza Pequim. Por outro lado, a estratégia chinesa acicata o ocidente.
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Ou seja: é agora claro que a China está disposta a desafiar as regras da governação global. Cai por terra a imagem de uma potência económica, até agora firme no ‘soft power’, e que usava a tese de não interferência para se proteger a si própria, não permitindo discussões externas sobre o seu próprio regime. Quanto maior se quer ser, maior é a resistência que se enfrenta. E um líder que quer ser global, precisa de ser aceite como tal. Nesse capítulo, a China está a perder pontos.
*Diretor-Geral do PLATAFORMA