"As coisas estão diferentes, mas não estou em pânico com o futuro da língua portuguesa”

“As coisas estão diferentes, mas não estou em pânico com o futuro da língua portuguesa”

A pouco tempo de terminar o mandato, Joaquim Ramos ainda não sabe se continuará como presidente do Instituto Português do Oriente (IPOR). Num balanço dos últimos três anos à frente da entidade, garante que concretizou os objetivos, e mostra-se seguro de que o IPOR e o português irão manter um lugar privilegiado, apesar da concorrência e da ênfase das autoridades no patriotismo e Amor à Pátria.

Quando assumiu o cargo referiu que “a aproximação à rede que está ligada ao IPOR, a outros países aqui à volta” era um dos objetivos. O que foi feito?
Joaquim Ramos – A aproximação tem sido concretizada através da formação de professores, estratégia que vinha a ser seguida e que foi consolidada; e da apresentação de respostas do IPOR em colaboração com a Embaixada de Portugal em Pequim, onde temos um docente agora que tem contribuído para uma abordagem direta às necessidades, nomeadamente a preparação de alunos para o exame de certificação internacional de língua portuguesa, a oferta de cursos de língua presenciais e à distância, e participação naquilo que são as orientações estratégicas internas, acompanhando por exemplo o que as entidades associativas ou governamentais vão definindo como pontos importantes no contexto da língua portuguesa para a República Popular da China. Estamos à espera para arrancar com outros projetos, como o centro de língua em Chengdu, que estava protocolado mas ainda não foi possível inaugurar.

Na altura, também dava conta do “crescimento exponencial” do português em países como o Vietname, Tailândia, Timor-Leste, Indonésia e em universidades no interior da China. O IPOR tem correspondido à procura?
J.R. – Os objetivos que traçámos estão alcançados, embora não presencialmente no último ano e meio. Havia um projeto de formação na Índia que não se conseguiu fazer. São pontos que esperamos retomar mal a situação pandémica estabilize.

A integração no Continente, por meio do projecto da Grande Baía, é a prioridade em Macau. O plano alterou a política/estratégia de língua do Instituto Camões e do IPOR para a região?
J.R. – Não veio alterar, mas sim obrigar a uma reorganização interna e ao reforço na procura de parcerias. A estratégia mantém-se, que é a do ensino da língua portuguesa com o complemento cultural. Na tentativa de ir ao encontro da estratégia da Grande Baía, houve um reforço no apoio às instituições que ensinam português, por exemplo em Hong Kong. Outra via é a da certificação de português como língua estrangeira no contexto internacional. Temos cada vez mais formandos e interessados do Interior da China de várias áreas: investidores, pessoas com interesse cultural, quem procura seguir uma carreira de tradução.

O que tem sido feito para o IPOR se afirmar na Grande Baía?
J.R. – No caso dos investimentos – por exemplo, com os vistos gold – é exigido um nível mínimo de língua. Essa aprendizagem tem de ser certificada e o IPOR posicionou-se para o fazer nesta região. O crescimento tem sido exponencial. Fazemos cerca de 400 exames de certificação por ano, o que é muito significativo. Além disso, e através do estabelecimento de parcerias, estamos a exportar o nosso know-how – que se materializa nos manuais e guias-lexicais que elaboramos – para as escolas, como aconteceu com Hong Kong.

Mas como imagina o trabalho do IPOR quando a Grande Baía estiver em pleno funcionamento?
J.R. – Posso dizer que idealmente haveria uma circulação sem barreiras, mas isso está muito acima das nossas competências. Temos de cumprir os planos e as leis e da maneira que vão surgindo.

Há cada vez mais instituições que ensinam português, e quadros formados na língua em Macau e na China. O IPOR poderá perder relevância?
J.R. – Não creio. Em primeiro lugar, porque é uma entidade registada em Macau e portanto uma mais-valia para a região, e isso tem-me sido sempre transmitido. Por outro lado, temos de ver qual é o contexto em que o IPOR trabalha. As universidades têm um contexto académico. O IPOR trabalha essencialmente com graus não académicos e com formandos que querem complementar o currículo ou usar a língua portuguesa para prosseguir objetivos muito concretos.

Não se sente ameaçado pela concorrência?
J.R. – Os alunos do IPOR não querem fazer um curso de carácter filológico ou de especialização em tradução e interpretação, como acontece nas universidades. Não há uma ideia de concorrência, mas sim de complementaridade, e a prova está na relação de parceria que mantemos com as instituições de ensino superior de Macau. Temos muita gente que estuda Direito na Universidade de Macau e depois vem fazer complementos no IPOR, por exemplo. Mas, e mesmo que houvesse uma lógica de concorrência, temos professores altamente especializados, todos com mestrado ou com prática letiva reconhecida, e alguns com doutoramento; participam, pelo menos uma vez por ano, em acções de formação e de actualização da linguistica, pedagogia e outras valências. Temos recursos para enfrentarmos esse contexto sem problema.

Há alguns anos o discurso oficial insistia muito no objetivo de Macau se tornar um intermediário na relação sino-lusófona. Recentemente, nota-se que o destaque mudou para o projeto da Grande Baía e do Amor à China. Receia que a direção tenha repercussões em entidades como o IPOR e no interesse em aprender o português?
J.R. – Não acho que haja um problema. Estamos em Macau, que pertence à China, e o contexto de abordagem política é aquele que as autoridades entendem. O que nos resta é ir acompanhando a evolução da estratégia do Executivo e ver como podemos ser úteis na parte que nos diz respeito, que é a do ensino da língua portuguesa. Sobre os contextos que me fala – em concreto o da Grande Baía e da relação com os países de língua portuguesa – entendo que entre a aposta na primeira e na intermediação que Macau pode desenvolver na segunda, não há uma relação de conflito. Não temos de apostar numa em detrimento da outra, pode mais uma vez haver uma relação de complementaridade.

Passou a ser um fim secundário?
J.R. – Não tenho a percepção que esteja a haver um amolecimento da visão de Macau como plataforma. Pelo contrário, no que respeita ao Fórum Macau, vejo que há uma insistência nesta relação, e resultados ao nível cultural e empresarial na promoção de investimento chinês nos países lusófonos. No caso da experiência concreta do IPOR, resulta numa procura crescente de empresários que querem aprender a língua para investir em Portugal, no Brasil, em Cabo Verde e, recentemente, em Moçambique. Nos três anos que cá estou, tenho assistidos a uma evolução naquilo que é a percepção do potencial em acolher investimento nestes países. Há um interesse em manter Macau como plataforma e não vejo concorrência com a aposta na Grande Baía, muito pelo contrário, isto pode favorecer a região, nomeadamente os empresários, ajudando-os a fazer investimentos.

Face ao que passou a ser prioritário – o tal patriotismo, teme que o português perca o estatuto de língua oficial?
J.R. – A resposta honesta é não sei. O patriotismo é de facto uma política que tem sido reforçada, incluindo em Macau, mas não significa isolamento nem fechamento da sociedade numa bolha. Não vejo que o aumento do patriotismo signifique a redução do conhecimento de outras culturas. Aliás, na visão pragmática que sabemos que existe no Oriente, quanto mais culturas forem conhecidas, maior o potencial de aproveitamento das relações empresariais, políticas e culturais. Aprender línguas não é necessariamente um sinónimo, nem perto disso, de ser menos patriota, pode até ser o contrário. Pode ser um mecanismo para, tendo um canal privilegiado de contacto com outros países, neste caso com os que falam português, reforçar o posicionamento da China.

Nada de alarmes, portanto?
J.R.Não acredito que para demonstrar o amor à China, tenha que se demonstrar que não há amor a outras culturas e temos exemplos de que não é uma realidade que nos deva assustar muito. Recentemente, houve uma cerimónia de entrega de diplomas a formandos do IPOR dos cursos mais avançados e dez dos 44 diplomados eram funcionários da Administração de Macau, portanto continua a haver esta procura pela língua portuguesa por várias razões. Ressalvando que a resposta honesta é não sei se daqui a 40, 50 ou 60 anos o português vai ter mesma relevância. Sei que neste momento, pelo que me é dado ver, é uma língua importante e valorizada.

Parte então do princípio que até 2049, quando termina o período de transferência de soberania, está assegurado como língua oficial?
J.R. – Parto do princípio porque esse é o normativo de Macau e pelas orientações do Governo central, que refere que é uma língua para acarinhar. Recordo que aquando da visita a Portugal, em 2018, o presidente Xi Jinping reforçou a importância de dois aspetos culturais: o conhecimento das culturas e a promoção das línguas – do português aqui e do chinês lá. Quando o Chefe de Estado faz este tipo de abordagem, tenho que necessariamente ter uma visão optimista.

Quando esteve em Macau, o embaixador de Portugal em Pequim enfatizou que há três áreas prioritárias nas relações entre Portugal e a China, uma delas a cultura. Que papel pode ter o IPOR neste âmbito?
J.R. – O IPOR já tem um papel bastante significativo nesta área. Todos os anos temos dezenas de projetos que são apresentados à comunidade e, sempre que possível, entram em itinerância noutras zonas da China. Exemplo disso foi a participação de Portugal num festival de música clássica através do envio de partituras do compositor Rui Massena. Em Macau, acho que a atividade é visível. Temos mostrado que somos um veículo privilegiado da apresentação da cultura aqui, mas também para o estabelecimento de canais entre os artistas portugueses e chineses em Macau e noutros pontos do globo.

Também via com expectativa a colaboração na “diplomacia cultural”, aposta traçada pelo embaixador em Macau, Paulo Cunha Alves. Correspondeu?
J.R. – Acho que se está a concretizar, embora tenha sofrido com a pandemia que limitou muito a organização de eventos, sobretudo de massas. Um das atividades que a materializou é o ‘Junho, Mês de Portugal’. Sabemos que há três comunidades predominantes na cidade – a chinesa, a macaense e a portuguesa – e que não estão misturadas, Esta iniciativa tem combatido esta realidade.

No que respeita aos alunos, há mais procura?
J.R. – No ano passado tivemos uma agradável surpresa. Conseguimos concluir o ano lectivo com quatro mil e tal formandos. No ano anterior tinham sido 4900, este ano foram 4700 e muitos. O que achávamos que seria uma quebra gigantesca, acabou por ser residual. Onde temos reparado que há um aumento, que quase duplicou desde que cheguei, foi nos cursos para a infância e juventude. Tínhamos 60,70 e agora temos o dobro, e há muita gente que não consegue entrar porque não há vagas. Também temos protocolos com Universidade de Macau e com instituições para cursos específicos, como o BNU e o Banco da China. Isto também serve para fundamentar o que dizia há pouco. Sei que as coisas estão diferentes, mas não estou em pânico com o futuro da língua portuguesa porque tem valor em si mesma.

Que impacto teve a pandemia?
J.R. – Os impactos têm sido gigantescos. O maior é ao nível dos recurso humanos. Precisamos de recrutar professores e não podemos, e temos um coordenador que está a trabalhar à distância. Depois a parte financeira, que não é trágica, mas não nos permite descansar. Era muito importante irmos aos locais onde temos parcerias para reforçar laços e estamos impedidos.

Aproxima-se o fim do mandato. Vai ficar?
J.R. – Não sei. Estamos a um espaço suficientemente curto para eu estar preocupado, mas há uma série de condicionantes e por isso entendo. Imagino que haja outros problemas mais prementes, portanto não sei.

Gostava de ficar?
J.R. – Acho que quem vem para Macau acaba sempre por se apaixonar. O trabalho é muito interessante e tenho um gosto muito grande em trabalhar com esta equipa. Seria o desafio principal, além da motivação de estar no Oriente num contexto em que a língua portuguesa continua ativa. Ao longo destes três anos, penso que também se tem reforçado a relação com algumas entidades associativas, que era uma direção em que gostava de continuar a apostar.

A ficar, quais seriam as prioridades?
J.R. – É muito cedo para pensar no assunto e se ficar no cargo, não pensarei no tema até dezembro e de me dizerem que o ponto pandemia está completamente resolvido. Conceber agora um projecto de retoma do investimento na Ásia-Pacífico, de reforço na relação com as entidades governamentais para identificar públicos-alvo, antes de saber de que maneira o contexto nos vai permitir seguir não tem sentido.

Cumpriu o que se propôs fazer?
J.R. – Não gosto muito da expressão do ‘trabalho que fiz’. Houve dias em que estava com febre em casa e o IPOR não desapareceu. Isto é um trabalho de equipa mesmo. Se estou contente com o que se fez nos últimos anos? Estou. Temos um elevado número de alunos, uma boa relação com as entidades governativas, um aumento da participação das entidades empresarias no IPOR. Estou satisfeito, mas com plena consciência de que há muito mais para fazer.

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