Quase nove meses após o descarrilamento do Elevador da Glória, em Lisboa, que provocou a morte de 16 pessoas, o Ministério Público e a Polícia Judiciária avançaram esta sexta-feira com um conjunto de buscas dirigidas a responsáveis da Carris e da empresa privada que assegurava a manutenção do ascensor. A operação marca uma nova fase da investigação criminal e surge após a análise técnica dos destroços e de documentação recolhida ao longo dos últimos meses.
Segundo informação confirmada pelas autoridades, estão em causa cerca de uma dezena de diligências de busca, incluindo a postos de trabalho e residências de responsáveis ligados à operação e manutenção do Elevador da Glória. As ações foram determinadas pelo Ministério Público, titular do inquérito, e executadas com o apoio da Polícia Judiciária.
Porquê agora?
Fontes judiciais indicam que o avanço para esta fase decorre da consolidação de indícios recolhidos após as perícias técnicas realizadas aos componentes do elevador, nomeadamente aos sistemas de travagem e tração. A investigação terá entrado num momento decisivo, em que se procura cruzar conclusões periciais com registos de manutenção, relatórios internos, comunicações técnicas e decisões operacionais tomadas antes do acidente ocorrido a 3 de setembro de 2025.
O intervalo temporal de nove meses é explicado pelo volume e complexidade da análise técnica necessária num equipamento histórico e pela necessidade de validar se existiram falhas de manutenção, incumprimento de normas de segurança ou negligência na deteção de riscos.
Quem está envolvido?
As diligências visam responsáveis da Carris, empresa municipal que explora o Elevador da Glória, e da empresa Main, contratada para a manutenção do equipamento. A Carris confirmou oficialmente a realização de buscas na sua sede, em Santo Amaro, no concelho de Oeiras, garantindo estar a colaborar com as autoridades.
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Também a Procuradoria-Geral da República confirmou a realização das diligências, precisando que estas incluem, pelo menos, um posto de trabalho na Carris, no âmbito de um inquérito a correr termos no Departamento de Investigação e Ação Penal Regional de Lisboa.
Posição da Carris
Em resposta escrita, a Carris confirmou as diligências judiciais nas suas instalações e garantiu estar a colaborar com as autoridades. A empresa escusou-se, contudo, a prestar esclarecimentos adicionais sobre o teor das buscas ou sobre a documentação apreendida, invocando o respeito pelo processo judicial em curso.
O acidente do Elevador da Glória continua a gerar forte controvérsia política e institucional, com indemnizações ainda por apurar e pedidos, entretanto chumbados no Parlamento, para a criação de uma comissão eventual de inquérito. As buscas desta sexta-feira representam, ainda assim, um passo determinante na tentativa de esclarecer as causas do desastre e de apurar responsabilidades criminais.
O que está em causa
Embora as autoridades não detalhem os crimes sob investigação, o inquérito está associado a suspeitas de homicídio por negligência, ofensa à integridade física por negligência e eventual violação de regras de segurança aplicáveis a transportes públicos. A recolha de prova documental visa apurar se existiram alertas ignorados, deficiências conhecidas não corrigidas ou falhas no cumprimento dos planos de manutenção obrigatórios.
O descarrilamento do Elevador da Glória é um dos acidentes mais graves de sempre com transportes públicos em Portugal e continua a levantar questões sobre a fiscalização e conservação de infraestruturas históricas em operação.
Próximos passos
Após a análise do material apreendido, o Ministério Público decidirá se existem fundamentos para constituição de arguidos ou eventual dedução de acusação. Em paralelo, continuam por apurar várias indemnizações às famílias das vítimas, num processo que decorre em separado da investigação criminal.
A operação desta sexta-feira confirma que o caso está longe de encerrado e que a investigação entra agora numa fase em que as responsabilidades individuais e institucionais poderão começar a ser formalmente apuradas.