“Estamos novamente a passar por uma fase em que há muita gente em bicos dos pés”

“Estamos novamente a passar por uma fase em que há muita gente em bicos dos pés”

A presidente da Casa de Portugal compara o contexto corrente aos tempos de incerteza pós-transição e justifica-o com “o disparate” que se assistiu em Hong Kong. À custa disso, afirma, apareceu quem quisesse mostrar trabalho e cresceu o discurso do patriotismo, que desvaloriza e não acredita que tenha reflexo nas entidades e comunidade portuguesas. Amélia António defende que em Macau era desnecessário porque a população “ama a China” e alerta que, muitas vezes, as atitudes que as pessoas tomam nem sempre espelham o país. Em entrevista ao PLATAFORMA, depois da reeleição com 54 votos dos cerca de mil membros eleitores, a presidente mostra-se mais preocupada com o futuro da instituição, mas por outros motivos.

Como encara mais este voto de confiança depois de 16 anos à frente da Casa de Portugal?
Amélia António – Sentir-me-ia muito mais feliz se mais pessoas participassem. Quando não há uma situação de conflito, acham que não vale a pena ir votar e dá-me pena.

Continua a fazer sentido estar na liderança?
A.A. – A Casa de Portugal é talvez a associação que tem tido mais jovens nas direções. Eu sou a relíquia, que vai passando de mandato em mandato sempre na esperança que essas renovações deem garantias de continuidade. Só que a realidade não é como a teoria. De uma maneira geral, as pessoas da faixa etária dos 30 anos estão por norma em fases da vida com pouca disponibilidade por causa da carreira ou por questões familiares. É isso que de certa maneira me tem obrigado a ficar. Adorava que aparecesse alguém. Não quero virar as costas à Casa, mas gostava de ver as minhas obrigações aliviadas, sobretudo porque os anos vão passando e pesam.

Quando anunciou a recandidatura, disse que queria resolver a questão das instalações da Escola de Artes e Ofícios, a falta de apoios do Governo para as equipas desportivas e abrir o restaurante Lvsitanvs. Mantém as prioridades?
A.A. – Mantenho. A parte desportiva é um problema muito complicado. Os clubes não têm um apoio oficial porque, embora sejam associações, são considerados núcleos da entidade da respetiva modalidade, a associação que recebe os subsídios. Os clubes ou são amadores ou têm financiamentos privados. No futebol, a única modalidade que mantemos, somos a única equipa só com jogadores amadores num campeonato em que todos são profissionais. Costumo dizer que é um fenómeno.

Qual seria a solução?
A.A. – Um apoio, sobretudo para os amadores, ou um conjunto de patrocinadores. Já cortámos tudo, só damos a água. Não podemos pedir mais às pessoas.

O que está a impedir o registo da Escola de Artes e Ofícios nos Serviços de Educação?
A.A. – De acordo com a legislação não pode haver escolas em edifícios industriais, apesar de já ter explicado várias vezes que é uma escola prática que exige equipamentos – como fornos – que implicam determinadas exigências.

Qual foi a resposta do Governo?
A.A. – O anterior estava de saída e quando este entrou surgiu a pandemia. Não avançámos para chegar diretamente ao Chefe do Executivo porque tivemos consciência do momento. Estamos à espera para ver se tudo normaliza para não sermos inoportunos e o esforço ser inútil. Mas, estou convencida de que vai ser absolutamente necessário bater uma porta acima. Se o problema das instalações se resolvesse, equilibraria o orçamento de forma a evitar que os cortes caíssem noutras áreas.

Como vai resolver o problema dos cortes financeiros?
A.A. – Têm impacto sobretudo na escola. Se as despesas de funcionamento não estão cobertas, temos de arranjar maneira de continuar a funcionar. Cobrar mais pelos cursos é um exemplo, mas quando o fazemos muitos participantes desistem porque não aguentam. Por outro lado, há formadores que não são contratados a tempo-inteiro. Nestes casos, quando as inscrições não cobrem a despesa, o curso não avança. Também há a ilusão com o Programa de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Contínuo.

O que quer dizer?
A.A. – Muita gente pensa que é uma fonte de rendimento para uma escola e não é. É um apoio ao residente. Sempre demos programas nesse âmbito e sempre funcionou, mas houve muitos problemas em Macau, muita gente que se aproveitou, houve aldrabices e quiseram criar formas de controlo tão rigorosas que acabaram por tornar difícil o uso deste subsídio. O excesso de zelo acaba por levar a situações de injustiça como acontece com os requisitos para os formadores, que só podem dar aulas com formação provada nessas áreas. Ora, no caso dos tais ofícios é difícil provar. Quem é que tem um diploma em croché? Estas limitações impediram muita gente de aceder a coisas que antes acedia. Paga o justo pelo pecador. Veem-se as coisas a direito, a regra é assim e acabou.

Quanto foi o corte da Fundação Macau?
A.A. – Cerca de 30 por cento.

Não quer falar em montantes?
A.A. – Não.

Sobre o restaurante Lvsitanvs, mantém a data de abrir no fim do ano?
A.A. – Queria para muito mais cedo. O contrato era por 36 meses renováveis e os meses escoam. Quanto mais tarde abrirmos, menos tempo temos para recuperar as perdas. O concurso foi adjudicado em agosto de 2019.

Referiu também que se “estava a preparar para conseguir uma equipa mais alargada. Pode ser mais precisa?
A.A. – Estamos a falar da direção, que passou a ter nove elementos – o máximo previsto nos estatutos. Antes estava com sete.

Aquando da visita a Macau no ano passado, o embaixador português em Pequim enfatizou que a cultura é uma das três áreas prioritárias nas relações entre Portugal e a China. Que função pode ter a Casa de Portugal?
A.A. – O embaixador mostrou interesse em levar algum trabalho da escola a Pequim, mas com a pandemia passou a vontade adiada. Muita gente me pergunta sobre o futuro, mas não sei responder. A programação das atividades depende das limitações de viajar e circular, e da questão económica. Como estas limitações acabam por se repercutir na economia, não sabemos como serão os cortes a seguir. Se as coisas abrirem, temos motivos para acreditar que conseguimos manter pelo menos o mínimo deste ano. Mas se isto não melhorar, com o que é que podemos contar para o ano? Mais cortes? Se assim for, não há hipótese de manter muitas atividades.

O objetivo é manter o que tem?
A.A. – É não deixar morrer nenhuma atividade e tentar aguentar o barco, mas há riscos. O que fazemos para a comunidade que não é pago – como a animação para miúdos e a participação no Junho mês de Portugal – a certa altura tem limites.

Que lugar tem a Casa de Portugal na Macau de hoje?
A.A. – Tem um papel cada vez mais importante. É a maior associação de matriz portuguesa em Macau e a que produz mais trabalho público. Há quem se questione sobre o motivo da Escola de Artes e Ofícios. Através do ensino das artes também estamos a comunicar. Há um conhecimento que se absorve que não se passa com palestras.

Como tem sido a relação com o atual Governo?
A.A. – O Governo, a começar pelo Chefe do Executivo, é composto por pessoas de Macau que conhecem as associações e o trabalho delas. Se lhe perguntarem sobre a Casa de Portugal, saberá o que é e terá consciência do nosso trabalho. Há dez anos recebemos uma medalha de mérito cultural e estas pessoas que viveram aqui, que são daqui, sabem disto. Portanto, não tenho razões para achar que não há um espírito de reconhecimento e de abertura em relação à Casa na manutenção desta diferença que é Macau. As nossas atividades são importantes para as pessoas, mas também para a expressão de Macau como um sítio diferente, onde diversas culturas e expressões sempre conviveram. O papel da Casa é extremamente importante nessa afirmação.

Receia que o discurso do patriotismo e de amor à China, cada vez mais enfatizado, tenha repercussões em entidades de expressão portuguesa?
A.A. – Depois da transição, foram tempos de indefinições e receios. Houve muita perturbação nessa altura e um abanar na comunidade face a muitos acontecimentos. Também nessa altura emergiram vozes muito patrióticas, falsos patriotas, pessoas que se queriam pôr em bicos dos pés e mostrar que eram mais patriotas que os outros. Com o tempo, as coisas foram serenando e tudo foi tomando a sua verdadeira dimensão. Atualmente, e não sei se também porque estamos próximos de eleições, estamos a sofrer com o que aconteceu em Hong Kong.

O que quer dizer?
A.A. – Hong Kong deu vários tiros nos pés, fez asneiras profundas e estamos muito perto. Sempre se disse que quando Hong Kong espirra, Macau constipa-se. Macau sofre sempre, para o bem e para o mal, com tudo o que se passa em Hong Kong. Todo o disparate que se viveu em Hong Kong é de uma falta de sentido político e de uma ignorância muito grandes. É um absurdo pensar que as vias que estavam a ser usadas poderiam ter resultados positivos. Jamais.

Pode ser mais clara?
A.A. – Arranjaram os problemas e nós temos vindo a sofrer as consequências. Se tudo foi sempre diferente aqui, hoje continua a sê-lo. Mas há muita gente que tem medo que não seja e levanta bandeiras que não se justificam, e é pena. Mais uma vez, talvez também por estarmos próximos de eleições, assiste-se a muitos exageros. Estamos novamente a passar por uma fase em que há muita gente em bicos dos pés. As pessoas de Macau sempre respeitaram a China, amam Macau, isto é sua casa. Estou para conhecer o primeiro povo que não ponha a sua pátria acima de qualquer outra. Portanto, nenhum desses exageros era necessário ou faz sentido em Macau. Quando há gente a armar-se em patriota, desconfio porque esse é o sentimento real. Não é preciso gritar-se. A população ama a China.

O cancelamento súbito da World Press Photo foi polémico. Na altura não quis comentar o assunto e justificou com questões internas. O embaixador português em Pequim, José Augusto Duarte, referiu que “foi absolutamente assegurado que não houve interferência por parte das autoridades locais”. Continua a não querer explicar o que aconteceu?
A.A. – Mantenho exatamente o que está dito. O embaixador disse bem: Não houve interferência das autoridades locais.

Das autoridades locais, não quer dizer que não tenha havido de outras.
A.A. – Disse que era um assunto interno, que não falava mais sobre o assunto e reafirmo que o que o embaixador disse estava certo.

É uma iniciativa que gostava de manter?
A.A. – Na inauguração aproveitei para informar que era a última World Press Photo que a Casa de Portugal trazia a Macau. E a questão era simples: já sabíamos que ia haver cortes. Não menosprezando o valor da exposição, não era uma iniciativa que tivesse diretamente que ver com a cultura portuguesa. Dou graças ter feito essa afirmação antes porque senão as especulações seriam imensas.

Enquanto líder de uma associação de matriz portuguesa, acha que a comunidade continua a ser acolhida?
A.A. – Há momentos de mais tensão e de dúvidas. Às vezes acontecem coisas que criam alguma angústia relativamente ao futuro, evolução de Macau e da vivência aqui, mas eu continuo a acreditar. Se durante 500 anos houve a sabedoria da China, de Portugal, e da comunidade portuguesa para tornar possível a convivência, não acredito que um período de perturbação e de grandes dúvidas vão por isso em causa.

Está otimista, portanto?
A.A. – Passo a passo, as coisas retomam o curso normal. A comunidade tem um papel importante em Macau. É indiscutível. A Grande Baía era uma zona integrada sem diferenças e a comunidade de língua portuguesa tem uma forma de estar que é importante. Sem isso Macau era somente a cultura chinesa e não teria tido a importância que teve durante estes cinco séculos. A China é pragmática. Tem os seus objetivos. Nem sempre as entidades e pessoas que se arrogam arautos da China falam a mesma língua, ou seja, são capazes de traduzir um pensamento ou política oficial. Até agora, não temos razões para não acreditar no interesse da China de que Macau continue a ser algo diferente. A recente inclusão da gastronomia macaense e do teatro em Patuá na lista de Património Cultural Imaterial Nacional é uma pequena demonstração de que Pequim quer que Macau continue a ser o que é. É preciso ter a cabeça fria quando acontecem coisas que nos desagradam. As pessoas são pessoas. Um país é um país e muitas vezes as atitudes que as pessoas tomam nem sempre espelham o país.

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