Há brancos, pretos e amarelos maus, muito maus… - Plataforma Media

Há brancos, pretos e amarelos maus, muito maus…

O Presidente de Angola teve uma das afirmações mais revolucionárias do ponto de vista social que um estadista africano pode ter num país tão estratificado etnicamente. Fê-lo em resposta a Rosa Mendes, filha do deputado eleito pela UNITA (maior partido da oposição), David Mendes, que participou num encontro de jovens com o chefe de Estado na quinta-feira, em Luanda. “Somos escravizados pelos brancos”, acusou Rosa, membro do movimento revolucionário (‘revus’) em Angola.

João Lourenço retorquiu com esta observação bem mais radical do que a da ativista: “Não apoiamos comportamento de xenofobia e racismo de quem vem dizer que não trabalha com os brancos. Há brancos maus, mas também há pretos maus, há pretos muito maus”, frisou. E rematou com esta nota: “O que temos de combater é o mal e não a cor da pele”. Nunca um chefe de Estado africano antes enfatizara que não é preciso combater a cor da pele mas o mal.

O ódio e a segregação racial estão enraizados nas sociedades africanas que vivenciaram a colonização e a escravatura. Sociedades que já tinham um complexo sistema de segregação étnica antes de os “brancos” chegarem, através dos seus próprios regimes monárquicos e esclavagistas. O comércio de escravos está situado em África desde a Antiguidade, por volta do século II a.C e civilizações do norte de África, como a egípcia, foram erguidas nas costas de homens e mulheres acorrentados.

Ambos, antigos colonizadores e antigos colonizados, propagaram e propagandearam visões estereotipadas dos “pretos” e dos “brancos”. O que é preciso combater é realmente o mal na origem dessa propaganda. Será necessário até um combate à “banalidade do mal”, remetendo para o conceito da filósofa alemã Hannah Arendt. Porque há brancos, pretos e amarelos maus, muito maus…não são maus pela cor da pele mas porque a usam para odiar, subjugar, conquistar.

O tema do racismo já deveria estar erradicado da agenda política do século XXI. No entanto, ainda recentemente, na nação mais poderosa do mundo, os Estados Unidos da América, regressaram os confrontos de rua por causa do ódio racial como se estivéssemos nos anos 60 do século passado. A morte de George Floyd foi o rastilho para o movimento cívico “Black Lives Matter” que , dada a recorrência de casos de abuso policial sobre os negros, tem razões de sobra para existir.

O conceito de raça, suportado nos estudos de evolução biológica do século XIX, marcou a relação de superioridade e inferioridade entre colonizadores e conquistados e foi muito vincado na América do Norte, ironicamente  “land of the free and home of the brave” (a “terra dos livres e dos corajosos”).

A segregação racial terá sido o “produto” mais exportado pelo mundo ocidental e colonizador no século XIX e metade do século XX. Infelizmente, o racismo e a escravatura ou escravidão (nas suas várias formas) ainda são realidades em muitos países ocidentais, africanos e asiáticos.

Tenhamos esperança de que o combate mais profundo ao “mal” seja feito na América do Norte. E que um dia se possa fazer jus à nobre frase “land of the free” inscrita no hino norte-americano “The Star-Spangled Banner”, composto em 1814.

*Jornalista do Plataforma

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