“Quem tem cú tem medo” - Plataforma Media

“Quem tem cú tem medo”

Maços de notas nas cuecas do vice-líder do governo no Senado talvez mostrem que afirmações como “não há corrupção no meu governo” podem ser demasiado definitivas. Talvez.

“É um orgulho, é uma satisfação que eu tenho, dizer a essa imprensa maravilhosa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo.”

No meio da frase Jair Bolsonaro fez uma pequena pausa, para sorrir levemente. Meio desdém meio provocação. E prosseguiu: “Eu sei que isso não é virtude, é obrigação, mas nós fazemos um governo de peito aberto. Quando eu indico qualquer pessoa pra qualquer local, eu sei que é uma boa pessoa, tendo em vista a quantidade de críticas que ela recebe em grande parte da mídia.”

O calibrador está explicado, exposto. Já sabíamos que o homem que está Presidente do Brasil lida mal, não sabe lidar melhor dizendo, com a comunicação social, mas agora fomos informados que é ela, a comunicação social, quem avaliza o carácter das indicações presidenciais. É pobre, para um governo, mas é o que há.

Natural e previsivelmente, as declarações de Bolsonaro foram motivo de discussão na comunicação social e nas redes sociais, a grande figura da operação, o antigo ministro da Justiça do governo do atual presidente, Sérgio Moro, comentou. O que não era (ou seria?) previsível e muito menos natural era que as palavras lhe caíssem, a Bolsonaro, tão rapidamente na cabeça. O ricochete veio forte e teve epicentro em Boa Vista, Roraima.

Na quarta-feira passada, 14 de Outubro, a Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão em casa do senador Chico Rodrigues. A operação investiga um alegado esquema criminoso de desvio de dinheiro de emendas parlamentares destinadas ao combate à covid-19.

O caso seria, muito infelizmente, apenas mais um envolvendo um proeminente político brasileiro acusado de desviar dinheiro durante a pandemia. Dinheiro dos cofres públicos, destinado a salvar vidas, a ajudar quem mais precisa. Durante uma pandemia que levou mais de 154 mil vidas no Brasil, até ao momento. Mas o caso deixou de ser apenas mais um quando, para além de senador, Chico Rodrigues é, ou era, o vice-líder do governo de Jair Bolsonaro no Senado. Isso mesmo, Chico Rodrigues era, demitiu-se no dia seguinte, desde março de 2019 o principal articulador entre a ação do governo de Bolsonaro e o Senado. Se isso não fosse o suficiente, Chico Rodrigues ganhou honras de manchete jornais e abertura de telejornais porque escondeu dinheiro, mais de 30 mil reais, em notas, nas cuecas. E agora é denominado nacionalmente assim: o senador que escondeu dinheiro nas cuecas.

No relatório da Polícia Federal lê-se que um dos delegados se apercebeu, durante a operação, que “havia um grande volume, em formato retangular, na parte traseira das vestes do senador Chico Rodrigues que utilizava 1 short azul (tipo pijama) e uma camisa amarela. Considerando o volume e seu formato, o delegado Wedson suspeitou estar o senador escondendo valores ou mesmo algum aparelho celular. Ao ser perguntado sobre o que havia em suas vestes, o senador Chico Rodrigues ficou bastante assustado e disse que não havia nada.” Mas havia. Em três momentos diferentes, foram retirados maços de notas das cuecas do senador no valor de 33. 150 reais (o equivalente a cerca de 5 mil euros).

Chico Rodrigues tem uma carreira política de três décadas, com cargos como deputado federal, vice-governador e governador de Roraima e senador. Em sua defesa, logo no dia seguinte a ter escondido notas nas cuecas, garantiu que não tem qualquer ligação com atos ilícitos, que confia na Justiça, que se demitiu para preparar a sua defesa. Mais recentemente, numa nota, os advogados de defesa do senador disseram que Chico Rodrigues teve “uma reação impensada”, mas ressalvam que ela foi tomada “diante um ato de terrorismo policial”, e justificam que o dinheiro seria para pagar aos funcionários de uma empresa da família.

A discussão agora centra-se em “Chico Rodrigues deve ou não deixar de ser senador?” Para já o Presidente do Conselho de Ética do Senado, que é do mesmo partido de Chico Rodrigues, aconselhou, publicamente, o senador a pedir uma licença de 120 dias. Caso ele venha a deixar o cargo será substituído por Pedro Rodrigues. Isso mesmo, o filho, também ele do Democratas (DEM).

Felizmente para o Brasil o homem que está Presidente do país marimbou-se para a separação de poderes e decidiu acabar com a Operação Lava Jato, algo que nem sequer lhe compete, ou tem autoridade para fazer. Mais feliz ainda é o motivo: não há corrupção neste governo de Jair Bolsonaro.

Tudo está bem quando acaba bem…

*Jornalista

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