O monstro - Plataforma Media

O monstro

Diário estelar 1391.3, 1971 na Terra. Recebemos uma comunicação do Alto Comando da Aliança para nos dirigirmos ao planetóide Oakka, onde um misterioso monstro terá dizimado metade da população de colonos. Toda a gente na sala de comando da nave Intrepid viu a comunicação no ecrã que, julgo eu, deveria ser restringida aos oficiais superiores. Sou um simples segurança, estou aqui pela primeira vez, e esta política de funcionamento parece um pouco abandalhada, estilo série B.

Enfim, o nosso destemido comandante May pediu ao Sr Jackson para traçar no computador a melhor rota. O computador ocupa uma parede inteira da sala, piscando dezenas de luzes, qual máquina de flippers. Aparentemente convicto da sua acção o Sr Jackson pressionou umas teclas enormes; depois saiu de um orifício um recibo tipo multibanco, leu o que lá estava, talvez as coordenadas, e O’Neil, o piloto, introduziu-as no teclado da sua secretária. Procedimentos… Sentado no cadeirão de design Olaio, o comandante May deu a ordem, e ao som de banda sonora de western arrancámos sob velocidade warp.Chegados ao planetóide uma pequena equipa desceu a terra, e num aparelho a fazer lembrar um gameboy do Tetris verificou-se que a atmosfera era respirável.

O comandante sentenciou: “vamos formar duas equipas. Eu fico com a miss Debra, o Sr Jackson, o Dr Stein, e o O’Neil; na outra vão o Rodriguez, o Chan, o Popov e o Melo”. Ui, espera aí: conheço os elementos do outro grupo, entram em todos os episódios, os do meu grupo nunca os vi antes. Prevendo cagada retruquei: “hold your horses ó chefe, ’tá a gozar, não? Rodriguez, Chan, Popov e Melo? Isso é o quê, a brigada da carne p’ra canhão? Sabe muito bem que os Rodriguez atraem merda, ou julga que nasci ontem? Quer que lhe descreva as próximas cenas? O nosso grupo encontra o monstro, o latino começa aos gritos, em pânico desata a disparar em todas as direcções acertando no chinês que morre sem perceber o que lhe aconteceu enquanto o russo se atira estupidamente ao monstro e é desfeito em pedaços; de seguida o monstro estica o tentáculo, apanha o latino que entretanto se pirava em direcção à floresta, e abocanha-o. Eu faço o quê, digo bch bch bichano? Nã, nã, fico no grupo do comandante anglo/protestante, o Dr judeu, a mulher e o black: as recentes quotas étnicas e de género tendem a evitar que estes últimos morram cedo. Fogo, porque é que o O’Neil não troca comigo?” O comandante esbugalhou os olhos perante a minha explicação, porém acedeu. Pois diário, até parece que eu lera o guião: não é que se desenrolou tudo tal e qual afirmei? Bem, o sacana do irlandês até teve sorte, safou-se mas cheio de cicatrizes na cara e sem as pernas. Para camafeu e inapto para a dança já basta como sou.

Diário estelar 5781.9, 2020 na Terra. Acordei no meu pod de vida suspensa. Quase toda a tripulação morreu misteriosamente nos seus pods durante a hibernação. Sobrevivi eu, o comandante Jackson, o antropólogo May, a Dra Debra, o físico Stein, o tenente O’Neil e a cabo Rodriguez. A nossa missão, agora seriamente comprometida, era descobrir o que aconteceu à colónia Genesis19.24 que deixou de dar sinais de vida.

Igual ao argumento de um vídeo-jogo fomos resolvendo os problemas que iam surgindo dentro da nave, apenas para enfrentarmos outros mais graves adiante. A cada desafio, explosões, chuva de meteoros, falhas no computador, uma personagem deste grupo perecia. Após se superar um nível a tensão colectiva baixava temporariamente, dando azo a introspecções psicológicas. Dispensaria a informação, ainda assim tomei conhecimento de que o tenente tivera um caso mal resolvido com a doutora, o antropólogo era gay, o Stein no fim das contas era um robot humanóide, daí a inexplicável aversão nutrida pela Rodriguez desde o início, e o comandante Jackson tinha aceitado a missão de modo a fugir à dor causada pela morte acidental da sua família. Parecia um Big Brother: dramas pessoais, nunca fomos a lado nenhum nem sequer saímos da nave, e perto do clímax, além de mim restavam o O’Neil e a Dra Debra.

Ainda tive esperança de sobreviver, todavia numa surpreendente virada da história percebi que afinal eu sempre estivera morto sem saber. O O’Neil deu heroicamente a vida p’lo seu amor, a Dra Debra, expelida no último instante antes da explosão da nave, para ficar a vaguear sozinha no espaço à espera de ser resgatada, quiçá por uma civilização alienígena. 

Descansai em paz humor, inteligência, e aventura, ainda passámos bons momentos juntos. Hoje o mundo tem mais tempo livre do que queremos ou precisamos, e vós destes lugar à hiper sensibilidade, a um permanente medo que nos tolhe a alma, destruindo o pensamento crítico. Está tudo vulgar e correcto, substituíram-se os estereótipos, mataram-se os sonhos, não há finais felizes, somente uma vaga esperança que vacinas, o voto do público, deuses ou extra-terrestres nos salvem do pesadelo. Perdemos séculos, gastámos milhões a empreender esta imensa viagem pelo espaço para descobrir que o monstro está dentro de nós. 

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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