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Além do bem e do mal

João Melo*

A semana passada, um movimento alegadamente de “extrema direita” ameaçou várias pessoas em Portugal, entre as quais três deputadas, incitando-as a abandonarem o país. Detestaria fazer a figura do maluquinho da aldeia mas esta talvez seja a única maneira de o dizer: o racismo não é um problema, é um sintoma. Os outros “ismos” perniciosos serão igualmente sintomas de um problema, cefaleias que sinalizam um cancro.

A esquerda e a direita não “existem”, são a representação concreta de uma ambiguidade abstracta, símbolos cujo significado se convencionou e se difundiu amplamente, servindo para caracterizar uma dualidade de visões políticas. Quanto mais nos distanciamos da matriz simbólica mais perdemos a noção do significado, e o uso recorrente de estereótipos vai-nos transformando em maluquinhos da aldeia global.

Na novela distópica “1984”, o número de palavras disponíveis era reduzido ano após ano. A premissa é que quantas menos palavras estivessem disponíveis, menos eficientemente conseguiríamos articular os nossos pontos de vista; além disso, limitar a linguagem disponível ou substituí-la por emojis também diminui a capacidade de pensar livremente. Será coincidência o Twitter, condicionado a 280 caracteres, tornar-se no meio favorito da comunicação política, o veículo ideal para transmitir slogans ou mensagens superficiais? Ao fazer um estudo sobre redes sociais, a cientista de computação Jennifer Goldbeck descobriu nesta rede 150 000 bots (perfis falsos) com origem na Rússia que influenciaram a decisão do Brexit. Questionada sobre o seu objectivo, teve uma saída tão singela quanto profunda: “-não acho que serviram para apoiar um lado ou o outro mas sim para nos deixarem zangados”… Ora bem, há entidades a cozinhar em lume brando ambientes de tensão que a nossa dinâmica previamente dividida irá reforçar. Quase todos os envolvidos na propagação nem sabem para o que contribuem, é aliás recomendável que assim seja; cada um fará o seu trabalho manifestando a sua opinião, engajado naquilo em que acredita, lutando contra a facção oposta. Durante o processo andamos permanentemente zangados, com medo de tudo e de nada, a lidar com problemas criados artificialmente, para quando o caldo entornar nos serem apresentadas as soluções ou escolhas, geralmente inevitáveis.

“No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.” 1 João 4:18. Eu até sou irreligioso, mas o pressuposto é válido para qualquer um: “Se alguém disser – eu amo a Deus – e odiar o seu irmão, é um mentiroso. Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” 1 João 4:20.

O respeito pela natureza, outras raças, nacionalidades, sexos, opções de vida, resulta do amor. O amor advém de uma consciência holística, e esta ou outra consciência são faculdades do neocórtex, dispensá-lo é um lastimável desperdício de propósito humano. A consciência holística transmite a impressão de se ser parte de um todo maior que o eu, logo as questões do ego tendem a diluir-se. Ganha-se genuína tolerância pelo que nos rodeia, contrariamente a uma atitude postiça, fracturável perante o primeiro desafio. Se me amar respeitar-me-ei, evito expor o meu corpo e espírito ao nocivo. Se amar a minha mulher, os meus filhos, os meus amigos, os estranhos, a natureza, irei respeitá-los, independentemente dos meus próprios gostos ou vontades. Muitos confundem isto com submissão, reverência ou paternalismo, mas essa é uma opinião de quem não sabe amar, tem medo, sente-se atacado, ocupa-se exclusivamente em sobreviver. Quem se encontra em modo de sobrevivência dificilmente terá respeito ou recebê-lo-á. Os animais não têm respeito ou deixam de ter, seguem a sua natureza. Um humano desrespeitoso exibe um dos comportamentos mais degradantes de assistir porque alegadamente possui consciência mas age como um animal, deixa-se levar por instintos. O amor é a razão do respeito, o resto são consequências, sintomas da sua presença ou inexistência. Preocupa-me a falta de respeito generalizada, porém entedia-me participar em discussões centradas nos sintomas que se pretendem arrogar em doença. Hoje o meu tempo e paciência são escassos para me entreter a desviar do foco. Os sintomas negativos potenciam-se através da pobreza e ignorância, mas no cerne reside sempre a incapacidade de amar. De que forma as pessoas irão entender isto?

Consta que o João autor da epístola bíblica supra citada foi o mesmo do Apocalipse. Suspeito encaminharmo-nos para esse desfecho, é evidente a perigosa falta de amor. Para tomarmos consciência da solução necessitaríamos de uma alteração radical no mindset, no coração; implementá-la seria complicadíssimo, há demasiadas camadas de ressentimento sobrepostas, e de qualquer maneira ninguém acredita: por ser o mais simples o amor é o conceito mais difícil de aceitar. Habituámo-nos à noosfera onde vivemos, mudar assusta, e o medo de perder inibe a vontade de ganhar. Se pensava que a pandemia nos modificaria um pouco, acabou a acentuar os “ismos” extremistas, significando que este não foi “O” cataclismo. O insuportável estado do mundo actual parece a antecâmara de um misericordioso alívio, aquele que o “castigo” irá proporcionar, e secretamente já muita gente anseia.

*Músico e Embaixador do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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