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Iolanda não sabe ficar

Paulo Rego*

Iolanda não gosta de si mesma; dói-lhe ser chamada a existir. Mulher bonita, forte na sedução, farta no amor, rica por herança e casamento… carrega na alma o peso de ser quem é. Arrasta um andar lento e soturno; bamboleia tristeza no olhar, que não deixa ninguém mirar. Mira Pedro – não sabe ficar.

A morte de Pedro Lima abala-a. Gostava dele, no ecrã; gosta mais dele na cova. Tem-lhe respeito, entende-o; sabe que ninguém o percebe. Lê: 800 mil suicídios por ano, uma vítima a cada 40 segundos no mundo – por cada acto consumado, mais 20 tentativas. Vai piorar, conclui Iolanda. Crise, desemprego, violência doméstica, solidão, luto… Muita tensão no ar; gente irritada, perdida… É difícil sonhar.

Sonha poder sonhar. Nem sabe com o quê; com o que não tem, não sente nem vê. Passeia a vida nesse vazio. Por vezes enchem-lhe o sono; espíritos de outro mundo pintam este de negro. Nunca os entende; sente-os, mas não lhes toca. Não são amigos. Assustam-na, prenunciam dor e desgraça. Não é sonho – é pesadelo.

Fixa a realidade. A Organização Mundial de Saúde fala em estado de completo bem-estar físico, mental e social – não apenas na ausência de doença ou enfermidade”. Iolanda busca… há mais doenças para além da Covid. Lê na Folha de São Paulo: no Brasil, só em maio deste ano, contam-se 103.923 menções ao suicídio nas redes sociais; a Lancet Psychiatric alerta para o aumento de casos. Foi assim nos Estados Unidos, durante a Influenza, nas primeiras décadas do século XX. Foi assim também entre a os mais idosos em Hong Kong, em 2003, durante a SARS.

Tivesses as minhas preocupações e não pensavas nisso, atira-lhe o marido. Não resiste à carne de Iolanda – enche-o de energia, ego e paciência. Paga tudo, lava assim a consciência; acha que a tem porque a merece. Enche o peito nas conversas de amigo: tenho-a; é minha. Mas gosta mesmo é da amante, cabeça mais fácil – não complica. Sente-se venerado, recebe mais do que dá, tem sexo e sente poder.

Portugal é o quinto país da OCDE que mais consome ansiolíticos e antidepressivos – cinco milhões de embalagens em três meses.

Iolanda é um ser difícil; não consegue ser feliz. Fala por gestos, na sombra; é holística; guarda intuições; tem medo da partilha – sobretudo, da percepção. O médico avia-lhe receitas, enche-a de pílulas de descanso. Não é caso único. Portugal é o quinto país da OCDE que mais consome ansiolíticos e antidepressivos – cinco milhões de embalagens em três meses.

A vizinha não gosta de brancos, diz-lhe para trocar de homem, agarrar um negro retinto; filhos não tem, não podem ajudá-la. Houve em tempos amigos, estão no álbum a cores; vê notícias, papa telejornais… aguçam-lhe mais a angústia. Lê compulsivamente: crise económica, crime e castigo, desigualdades de todos os géneros, raças e outros ismos, buraco do ozono, o mundo a acabar… Destroca Covid-19 como o marido grita o Benfica. Dois treinadores de bancada; juntos, de costas voltadas.

Está só – como sempre. Mira novamente o póster de Pedro. Porque desiste um sorriso feliz da sua alma penada? Porque a dor é maior… Porque razão um corpo encantado não salva os outros da dor? Porque esse beco não tem saída. Sonha acordada: sente que vai partir. Está farta de estar farta. Olha para a rua, da vertigem do oitavo andar. Pode ser assim, pensa.

Diz a psiquiatria: há uma distância enorme entre pensar nisso e fazê-lo. Mas ela vê, nesse primeiro passo, a cor abismo. Iolanda devora letras no telemóvel: o Brasil consterna-se com o suicídio de outro ator, Flávio Migliaccio. Percorre um debate entre jornalistas: o suicídio não é notícia. Por respeito, direito ao recato, medo da tentação…

Contudo, não é possível calar. Os Media perderam o controlo do espaço público; e o tabu nada resolve. Suicídio não é doença com nome próprio; muito menos é inevitável, dizem os especialistas. Mas é pressionado por patologias, contextos e circunstâncias. E o mundo não está fácil… está muita coisa estranha a acontecer. É preciso falar sobre isso; olhar para o lado, ver o outro; agir, proteger… pensa Iolanda.

Mas já não quer – não sabe ficar. Quis muita coisa; lutou… lembra-se, vagamente, de enfrentar tudo – contra si mesma. Há muito tempo… não sabe bem quando. Falta-lhe agora energia, a força de ter vontade. Tentou um amante, dois… três ao mesmo tempo. Lembra-se dos nomes; não sabe já deles – nem quer. 

Olha o infinito; não está cá. Ouve a campainha – cai na real; sobressalta-se. Abre a porta, apressada, sem perguntar quem é. Não quer saber. Uma miúda raquítica, gorro na cara, faca na liga, arranca-lhe a vida ao estômago. Vem à procura de comida, telemóveis, jóias… o que houver. Iolanda sangra, devagar; ouve as vozes que a assaltam no sono. Lança um último olhar ao vulto homicida; vagueia em busca de nada. Sorri… Já não tem de voar para rua.

*Jornalista do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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