A moda das fake news - Plataforma Media

A moda das fake news

Cordas e mais cordas. Do ombro à barriga, o corpo em cordas. Todas as noites, o Velho das Cordas assomava à porta da minha avó, certo de um prato de comida e de um copo de vinho. As cordas pesavam-lhe o passo, vestiam o tronco.  Comia em silêncio e desaparecia na escuridão. Há quanto traria o futuro enforcado? Ninguém sabia quem era, de onde vinha. Tão-pouco quantos anos somava. A identidade apaga-se mais depressa do que se imagina. Era o Velho das Cordas, pedinte nas ruas da vila. Uma noite, o prato arrefeceu à sua espera. Pela primeira vez, em mais de uma década, o Velho das Cordas não apareceu para jantar. Na noite seguinte, a mesma ausência. Aos poucos, a vila alarmou-se com o desaparecimento. Estaria morto. Só podia ter morrido. Tomara que de doença, maldade não merecia. Procurou-se nas valetas, mas nem corpo nem cordas. Ao cabo de umas semanas, decretou-se o óbito. A última esmola, uma missa pela sua alma. “Eterno descanso”, Velho das Cordas.

Voaram os meses, chegou o Natal. Abóboras de faca cravada, óleo ao lume. A cozinha cheia de mulheres à volta de rabanadas e filhós. Duas miúdas a brincarem, escada acima e escada abaixo. Lembro-me como se fosse hoje. De repente, o impensável: “Ó rapariga, aí a tua avó?” Antes da voz, o som. Aquele som de passos na terra. Estava igual, o corpo envolto em cordas. Quase parecia vivo. O susto fez-se grito, o espanto empurrou-nos escadas abaixo. Nunca antes tínhamos visto um morto-vivo. Entrámos na cozinha aos gritos: “Está ali o Velho das Cordas!” Os pulmões com força de ardina, mas as mulheres não queriam saber da verdade. Enxotaram-nos zangadas, calar o mensageiro é o mais fácil. Mas a verdade vinha a caminho. De repente, o impensável à vista de todos. O Velho das Cordas à porta da cozinha. Voaram alguidares, gritos e travessas. A sinfonia do pânico. Teria ressuscitado? Alma-penada não era certamente. Só podia estar vivo. Foi há quase 40 anos, mas não me sai da ideia. A morte do Velho das Cordas é a primeira notícia falsa da minha memória. Estava longe de imaginar quanto as fake news mereceriam o nosso alarme.

Às vezes, é preciso meter a mão no bolso de alguns para evitar joelhos em cima do pescoço de outros

Nos últimos dias, várias multinacionais têm anunciado a retirada de investimento publicitário de redes sociais como o Facebook. Fazem-no na sequência da campanha #stophateforprofit, que ergue a voz contra a disseminação do discurso de ódio e de notícias falsas, patrocinada pela empresa de Zuckerberg. O posicionamento das marcas já fez o Facebook perder milhões de dólares e o seu responsável prometer maior cuidado. Às vezes, é preciso meter a mão no bolso de alguns para evitar joelhos em cima do pescoço de outros.

Mas a guerra às fake news tem de ser diária e tem de ser de todos nós. Esta é a  luta pela democracia. Pela nossa sobrevivência. Num momento em que a desinformação nos atira areia para os olhos, o jornalismo é mais importante do que nunca. A informação que perpassa as redes sociais é cozinhada para os cliques e, por isso, tem de incendiar a multidão. A informação servida não é igual para todos, aquilo que vemos é filtrado por algoritmos programados para irem ao encontro dos nossos gostos. Quem se alimenta da desinformação, sabe bem que uma mentira mil vezes repetida passa a dar ares de verdade e que há quem prefira ver as suas convicções aplaudidas do que confrontadas pela chata da verdade. Quem se interessa por crime, é bombardeado por “notícias” – muitas manipuladas – sobre roubos e mortes. Tantas, que não acredita nem quer saber dos estudos que indicam Portugal como um dos pontos cardeais mais seguros. Em países como o Brasil ou os Estados Unidos, as fake news ganharam eleições. O resultado está à vista. E não é bonito de ver. Antes alguidares, gritos e travessas pelo ar. O Velho das Cordas vivo. 

*Jornalista

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