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Cabo Delgado é como Timor

Paulo Rego*

Portugal perde face nos massacres em Cabo Delgado. Em declarações ao PLATAFORMA, o Ministério dos Negócios Estrangeiros resume a incapacidade de liderar, numa causa incontornável: a vida. Mantém “contactos estreitos com as autoridades moçambicanas, com os seus parceiros europeus e representantes das Nações Unidas”. Cabo Delgado é como Timor. E ali… foi tempo demais. Até que os Média e a sociedade civil viram o massacre de Santa Cruz. É preciso assumir o debate, forçar a União Europeia e a ONU a agirem. Crianças escondidas no mato; famílias que enterram corpos sem cabeça, portugueses que lá vivem… e a História de Portugal; exigem muito mais.

Ouçam o Bispo de Pemba, D. Luíz Fernando Lisboa, na entrevista ao PLATAFORMA: “Queimam as casas, matam pessoas, cortam cabeças”. Dois anos e meio depois do massacre, urge por-lhe fim. Em Timor era o petróleo – em Cabo Delgado o gás natural – mas também conflitos étnicos, ameaça islâmica – usada por Kissinger para a luz verde à invasão indonésia – e uma panóplia de interesses económicos e geo-estratégicos vindos de todo o lado.

“O problema não é só nosso”, avisa D. Luíz, que a sofrer no teatro de guerra pede ajuda internacional. Afinal, depois de 1.100 mortos, e 200 mil deslocados, de que serve “acompanhar a situação”?

Portugal portou-se bem em Timor – mas tarde. Agora, abra os olhos mais cedo. O Brasil tem investimentos em Cabo Delgado; e Angola sabe que “a instabilidade em Cabo Delgado é a instabilidade na região”, como resume ao PLATAFORMA Adriano Nuvunga, que aponta o dedo a Portugal e a Guterres, secretário-geral da ONU – e português.

“O problema não é só nosso”, avisa D. Luíz, que a sofrer no teatro de guerra pede ajuda internacional. Afinal, depois de 1.100 mortos, e 200 mil deslocados, de que serve “acompanhar a situação”? O mundo real é madrasto. Foi assim no Ruanda, nos Balcãs; é assim na Síria… e com os desgraçados que enfrentam a morte no Mediterrâneo – a nado, se pudessem.

Portugal não tem força para mudar o mundo; mas tem humanismo que chegue para se indignar, falar alto, dar o ar da sua identidade. Sobretudo num mundo que, não sendo já seu – e ainda bem – é da sua História, da sua alma, e do seu interesse estratégico. Portugal perde face. António Costa sabe gritar com Bruxelas quando lhe falta dinheiro para o combate à pandemia; está na hora de abrir a boca contra a letargia. Cabo Delgado precisa de ajuda – não de “contactos” e “acompanhamento”.

*Paulo Rego, Diretor-geral do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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