O Homem do Ano 2020: o telemóvel - Plataforma Media

O Homem do Ano 2020: o telemóvel

Os telemóveis foram inventados em 1947 e tornaram-se úteis e populares a partir da década de 1980, com os de primeira geração (1G), e daí até à atual quarta geração (4G). E em 2020 os telemóveis acabam de fazer a sua primeira revolução (1R): até hoje, nunca o racismo tinha levado tanta tareia! Como disse tão bem Will Smith, um tipo inteligente (e mais conhecido por ser simpático nos filmes Men in Black I, II e III): “Não há mais racismo, acontece agora é que ele está a ser filmado”.

Não se pode dizer que o telemóvel inventou o racismo. O racismo existe pelo menos desde que um Homo sapiens caçou um mamute, teve de ir à caverna e quando regressou viu um vizinho Homo sapiens a banquetear-se com a carcaça. Chamou-lhe “atrasado” e palavra puxa palavra o outro chamou-lhe “racista”. Isso foi há 300 mil anos e estava inventado o racismo.

Um bom bocado depois, em 1959, um jornalista americano, o branco John Howard Griffin, andou pelo Mississippi e pela Lousiana, estados do sul da América, com a cara escurecida por uns medicamentos que tomou de propósito para passar por negro. Escreveu um livro, Na Pele De Um Negro, e o mundo descobriu que um camponês vestido de jardineira podia assobiar a uma mulher branca com uma bela saia plissada. Afinal, o sul da América já via filmes de Hollywood e era bastante mais moderno que os Pilgrims Fathers, os intolerantes calvinistas que tinham desembarcado três séculos e meio antes… Mas se o camponês de jardineira fosse um negro, era capaz de acabar pendurado e a balouçar no ramo de uma árvore. Billie Holiday canta um Blue sobre isso: “Strange Fruit”, frutos estranhos. Lá está, racismo outra vez.

Mas reparem nos dois exemplos que dei sobre racismos: um, demasiado antigo; o outro, demasiado literário. Eram para acabar esquecidos. Da notícia do diferendo entre dois especimen  de Homo sapiens até sabermos dela já tinha acontecido a invasão do Átila, a guilhotina da Revolução Francesa e a febre espanhola – tanta morte.  Porque haveríamos de nos preocupar com uma discussão entre vizinhos à volta de uma carcaça? O outro era um livro já muito mais recente, mas sempre um livro, com a secura do papel e a falta de imagens vivas, e ainda por cima há muito que as saias plissadas saíram de moda… Enfim, aqueles racismos não empolgavam.

Como tão bem disse Will Smith, o racismo existiu e continua a existir. E como ainda muito melhor ele disse, o que há de novo é que agora acontecido, sei lá, numa cidade que nunca pensámos merecer uma visita nossa, por exemplo, Minneapolis, o racismo arrisca-se a entrar nas nossas casas com o pormenor de vermos um joelho de polícia a repousar no pescoço de um homem com a cara despejada no asfalto.

O racismo existe pelo menos desde que um Homo sapiens caçou um mamute, teve de ir à caverna e quando regressou viu um vizinho Homo sapiens a banquetear-se com a carcaça

O novo é que agora podemos parar a imagem no pormenor do polícia ter uma mão no bolso, com a tranquilidade de quem sabe que tem todo o tempo do mundo. E podemos retomar o movimento da imagem para lhe ouvir o som: “Mãe… Mãe…” Voltar atrás e confirmar: aquela bisarma de homem humilhado disse “mãe”. E duas vezes. “Por favor, man…” É, é verdade, um homem com a cara no asfalto chamou a outro homem que lhe tinha o joelho no pescoço: “man”, homem! Extraordinária ironia de uma realidade inquestionável, os que está ali são, de facto, dois homens, dois iguais – e como isso, no entanto, é tão, tão não verdade. E podemos aumentar e diminuir o tamanho do que vemos, caçar os pormenores, em grande plano ou pequeno, e darmo-nos conta de que temos na nossa mão uma enormidade.

E podemos passar as imagens e o som as vezes que quisermos. E, num momento, parecer-nos que o telemóvel parou a imagem. E darmos conta a seguir que não foi um tecla do telemóvel que mandou, nem nós teclámos sem querer: foi um homem que deixou de respirar. Eu nunca tinha dado conta da liberdade do respirar. Eu, tu, nós nunca mais podemos esquecer, como aconteceu no Homo sapiens inicial, nem com o testemunho do branco John Howard Griffin pelo Mississippi abaixo. Nem temos a sorte dos alemães vizinhos dos campos de concentração, não nos podemos desculpar: “Não vimos…”

Vimos. Estávamos, estamos, com as imagens, as cores e o som na mão. Se quisermos perceber as grandes manifestações pelo mundo a favor de George Floyd, sobretudo as da América, é altura de varrer o sentimento do costume: é sempre assim, depois esquecemos… Desta vez o racismo tem contra ele uma app justiceira e poderosa: o telemóvel. O J’Accuse já não precisa de Zola para denunciar, qualquer cidadão tem o talento suficiente. E é por isso que eu tenho uma sugestão, já em Junho, para a revista Time. Já pode proclamar quem é o Homem do Ano 2020: o telemóvel. Os homens e as mulheres de todas as cores agradecem.

*Jornalista

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