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Uma bela ideia merece outra paixão

Há cerca de década e meia li nas Linhas de Ação Governativa a projeção de Macau com plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Edmund Ho reinava então a cavalo da liberalização do jogo, mas adotou a narrativa lusófona. Teve ordens de Pequim, base histórica e narrativa bilingue; apontou à diversificação económica e à afirmação internacional do Segundo Sistema. Poucos acreditaram, muitos preferiram enriquecer nas salas VIP e na especulação imobiliária; tantos e tantos resistiram, dizendo que sim… fazendo que não. Vinte anos depois da transição de poderes, o discurso recentra-se na integração regional. Até por isso, o projeto sino-lusófono é mais necessário, num Segundo Sistema que aceite o Primeiro, mas seja diferente, contribuindo para abrir a China ao mundo e para o palco global da Grande Baía.

Há, contudo, três problemas que urge resolver: 

– Primeiro, a contradição entre uma autonomia acanhada, que teme incomodar Pequim, e a dimensão internacional da missão sino-lusófona. Circunstância à qual acresce outro nó-górdio: o projeto está nas mãos do Ministério do Comércio da China, desconexo do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau. É preciso trabalhar mais e melhor com Pequim, alinhar estratégias, resolver bloqueios e atuar em conjunto, de forma consistente e efetiva. Há uma dimensão externa que Macau tem de assumir e uma componente geoestratégica que permite a Pequim intervir. Não é um tema autonómico – é muito maior que isso.

– Segundo, a escassez de massa crítica, numa terra viciada nas receitas do jogo e negócios com a Administração. É longo o debate sobre a Educação, como é profunda a resistência à importação de mão-de-obra. Nos sectores público e privado são precisos quadros qualificados, vindos da China, como de várias partes do mundo – incluindo dos países de língua portuguesa – para uma sociedade de serviços competitiva, que diversifique a economia e as redes externas. O trading, a logística e os transportes, os serviços jurídicos, económicos e financeiros, a comunicação… não substituem a receita dos casinos; mas valem dezenas de milhar de postos de trabalho, alterando o perfil do emprego e o cruzamento entre a integração regional e internacionalização.

– Por último, o mercado reduzido e o perfil do empresário local não atraem economias de escala. É mais fácil encontrar na Grande Baía interesse em Angola e no Brasil; como tem outro potencial projetar no mundo lusófono a Grande Baía – 80 milhões de habitantes, 14 por cento do PIB chinês. No aniversário dos 20 anos da Região Autónoma Especial de Macau fala-se de um novo ciclo, mais próximo da Mãe Pátria e de uma relação entre o Primeiro e o Segundo Sistemas. Se há temas em que isso pode ser negativo, aqui está um em que isso faz sentido. Uma bela ideia, que é da China, merece outra paixão e compromisso de todos.  

Paulo Rego 19.12.2019

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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