Empresas norte-americanas mais receptivas a “Uma Faixa, Uma Rota” - Plataforma Media

Empresas norte-americanas mais receptivas a “Uma Faixa, Uma Rota”

O investigador associado do Instituto de Chongyang de Estudos Financeiros da Universidade de Renmin da China defende que a indústria norte-americana está a mudar de atitude em relação à inciativa chinesa “Uma Faixa, Uma Rota”. Guan Zhaoyu diz que há várias empresas americanas de diferentes áreas envolvidas. O académico recorda no entanto que os Estados Unidos da América (EUA), como nação, continuam a recusar juntar-se ao Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas.

– Durante a palestra que deu em Macau, salientou que os EUA nos últimos anos têm mostrado uma mudança de atitude em relação à Iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. Que mudança é essa?

Guan Zhaoyu – Depois de a China ter lançado esta iniciativa em 2013, os EUA mostraram oposição, tanto ao nível do Governo como do setor privado. Viam-na como uma forma de combater a Parceria Transpacífico e a hegemonia global norte-americana. Os EUA tinham um conhecimento muito superficial da iniciativa. Isso mudou em 2017, quando a política atingiu o ponto mais alto. Os EUA acabaram por se aperceber de que a iniciativa é diferente do que assumiram inicialmente, como algo agressivo ao país. 

– Diferente de que forma?

G.Z. – Em primeiro lugar, a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” é um conceito ligado ao desenvolvimento que se foca em colaborações económicas. Não é uma estratégia política. Em segundo lugar, a indústria americana, incluindo algumas grandes empresas como a General Electric (GE), já estavam envolvidas nesta iniciativa e já estavam a receber benefícios com a sua participação. A indústria americana pôde assim gozar um pouco das vantagens deste projeto, estando pronta para abandonar o seu preconceito inicial e julgar a Iniciativa pelo que ela realmente é. Depois do pico da Iniciativa em 2017, a China chegou até a discutir com os EUA o assunto, e convidou várias empresas americanas a conhecerem melhor o projeto. Ao fim de algum tempo, os EUA mostraram apreço pela iniciativa. Donald Trump chegou a dizer que tem interesse em participar, quando a oportunidade e a altura certa chegarem. 

– Ou seja, a atitude norte-americana em relação à “Uma Faixa, Uma Rota” sofreu uma ligeira mudança, mas não mudou drasticamente.

G.Z. – Se tivesse de apontar onde se notou uma mudança, diria que foi claramente no setor privado. 

– Acredita que os EUA poderão aderir ao Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas?

G.Z. – Para já ainda se opõem. As opiniões do Governo, académicos e setor privado em relação ao Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas divergem. O Governo está contra. Já o setor privado prefere esperar para ver o que sucede. Porque preferem esperar? Para compreender de facto em que tipos de projetos o Banco está envolvido e se existe a possibilidade de lucrar com os mesmos. Diria que a curto prazo, os Estados Unidos não irão participar no Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas. Se nos próximos anos, o Banco tiver sucesso com os projetos, acredito que a indústria americana estará mais receptiva a participar.

– Fora o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, que outras formas existem para os EUA participarem na “Uma Faixa, Uma Rota”?

G.Z. – Usando como exemplo a americana GE, se analisarmos as cooperações levadas a cabo com empresas chinesas (privadas e públicas), veremos que as mesmas desenvolveram entre si uma relação interdependente na cadeia de valor. Como resultado, quando empresas chinesas têm trabalho fora do país, levam a GE com elas. Quando têm lucro, a GE também sai beneficiada. Se houver prejuízo, a GE poderá também sofrer alguma perda. Por isso, podemos dizer que a indústria americana já está envolvida na inciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. 

– Mas não há noção de um envolvimento evidente das empresas norte-americanas?

G.Z. – Não podemos dizer que não é evidente, apenas que algumas áreas ainda são desconhecidas do público.

– A promoção da Iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” é essencial para a internacionalização da moeda chinesa. Mas, se empresas americanas estiverem também envolvidas, irão continuar a apoiar a hegemonia do dólar americano. Esta situação não será problemática para o objetivo de internacionalização da moeda chinesa?

G.Z. Em primeiro lugar, aquilo de que tenho completa certeza é que a “Uma Faixa, Uma Rota” irá ser vantajosa para a internacionalização da moeda chinesa. Agora, irá a entrada dos EUA criar alguns obstáculos? Não nos devemos preocupar demasiado com este assunto. Se uma moeda entra no mercado e competição internacionais, significa que tem já um nível alto de competitividade. Se estivermos preocupados com o poder do dólar, e de que forma poderá afetar o RMB, significa que não vemos um nível de competitividade alto na moeda chinesa, e nesse caso, como é possível internacionalizar uma moeda na qual não se acredita?

– Qual papel poderá Macau assumir nas relações sino-americanas?

G.Z. – Segundo o meu entendimento, Macau é uma cidade com muitos meios de comunicação. Mas, ainda há espaço para crescer ao nível da inovação. Desde o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, especialmente depois da terceira sessão plenária, o Continente tem enfatizado a importância das novas ideias e inovação. Porquê dar tanta importância a este aspeto? Porque hoje em dia, especialmente a nível internacional, são precisos grupos inovadores para representar a China. Se os grupos inovadores do Continente representam a China, então grupos correspondentes em Macau devem representar a cidade, certo? Claro que os órgãos de comunicação são uma ótima plataforma, mas muitas vezes é necessário mais conteúdo académico. As pessoas de Macau precisam de partilhar histórias de Macau, histórias sobre este encontro entre a China e o Ocidente. Por isso espero que Macau no futuro desenvolva mais esta área, podendo não só ligar a China e o mundo através dos media, como também partilhar a verdadeira voz de Macau. A inovação pode ajudar neste objetivo. 

Perfil

Guan Zhaoyu é investigador convidado no Centro de Investigação das Nações Unidas e Outras Organizações Internacionais, e na Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim. Participou também no estudo “A posição americana na Iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”: Um caso de estudo e um plano de ação”, publicado no ano passado. Estudou no Japão e nos EUA, e trabalhou no Centro de Comércio Estrangeiro Chinês, no Ministério de Comércio.

Davis Ip  29.06.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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