Na “gruta” do Poeta - Plataforma Media

Na “gruta” do Poeta

Estava eu lindamente posto em sossego, do meu descanso colhendo doce fruto , naquele engano de alma ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito, quando me apareceram os meus estimados amigos José Carlos Matias e Paulo Rego a proporem um teste aos meus parcos dons para a escrita.

Deu-me logo uma branca. Aceitei e agora vou escrever o quê? 

Bem, no meu vagueio pedestre pelas ruas de Macau nas zonas “não Las Vegas”, dei por mim no jardim de Camões , em frente à dita Gruta do Poeta. 

As minhas memórias viajaram nostálgicas até os meus belos tempos do Liceu Nacional Infante D. Henrique , onde me vi de camisa verde escura, calça caqui , bivaque e cinto com a incontornável fivela “S”, em formatura para militar comemorando o 10 de Junho, precisamente em frente daquele busto protegido por três pedras que nunca percebi porque chamado de “gruta”… 

Fizesse sol ou chuva torrencial, fizesse calor tórrido ou calor tórrido e lá estávamos nós, estoicos. 10 de Junho, Dia de Camões, Dia das Comunidades Portuguesas, nomes herdados de outros tempos onde era o Dia da Raça, termo entretanto descativado com o Abril de 1974.

O meu pensamento regressou subitamente ao Jardim, em Macau de 2018, e achei engraçado constatar que quase 20 anos após a reintegração de Macau na China , temos aqui no país de Confúcio , um jardim “de” Camões , com versos esculpidos em língua portuguesa, bem presentes , circundados por uma presença quase exclusiva de chineses a fazer ginástica , jogar xadrez ou a passear os seus passarinhos.

A par do inglês em Hong Kong, as duas únicas línguas estrangeiras com estatuto de língua oficial em pleno território chinês.

Língua portuguesa, a terceira língua europeia mais falada no mundo diz por si só da sua importância. Não necessariamente apenas pelo número de falantes porque basta olhar para a China e constatar que há mais pessoas no mundo a falar chinês do que qualquer outra língua.

Acho que a característica que confere à língua portuguesa um toque especial, é o facto de ser falada em cinco continentes e por povos e países de culturas diferentes e que em português se entendem.

Esta é a característica que faz da língua portuguesa um veículo de ligação, um instrumento fundamental da primeira grande globalização pré internet.

Cantando espalharei por toda a parte, enquanto a gesta dos Descobrimentos foi espalhando a fé e a colonização pelo mundo fora.

Mas lembro aqui as palavras de um grande líder africano, Amílcar Cabral, herói da luta de libertação quando disse, “a língua portuguesa é a maior herança que o colonialismo deixa aos nossos povos” 

O meu devaneio voltou a aterrar no jardim em frente à alegada… gruta ! E a língua portuguesa por estas bandas, que futuro? Na China julgo saber que a procura de alunos a aprenderem o português, tem sido crescente significativamente. O mesmo a verificar-se em Macau. Mas, infelizmente não me parece que seja para ou por Macau. A procura deve-se a um interesse por outros mercados na África, Brasil, etc.

Em Macau e paradoxalmente onde é também língua oficial, sinto que se vai esvaindo. Sim no hospital onde trabalho, nos elevadores, nos corredores as indicações são bilingues. Tal como nas ruas . Na Assembleia Legislativa bem como noutros eventos oficiais existe tradução simultânea sempre. Um reflexo de que nas altas esferas, existe a consciência do que diferencia Macau da sua vizinhança. A resultante de um convívio de cinco séculos.

Mas infelizmente no meu entender, essa mensagem ou desígnio , não desliza com a necessária fluidez. O dia-a-dia vem sendo cada vez mais “unilingue” com as notas internas, ofícios, alimentando o receio de que a segunda língua oficial caminhe para um mero marco decorativo.

Mas, vem aí o 10 de Junho de 2018. O meu amigo Eduardo Ribeiro garante-me que o Poeta esteve cá . Muito provavelmente debaixo destas três pedras na minha frente, que não sei porquê chamam de “Gruta”. 

Mário Évora  08.06.2018

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