Ainda... - Plataforma Media

Ainda…

Há uma expressão em Angola com graça: ainda. Como “ainda sim” não se usa; basta dizer “ainda”, pressupondo o “não”.  O “ainda”, lento e dolente, tem estados de alma. Não nega; não atrasa nem apressa. Espera. Vai haver, mas não se deu. Macau vive esse tempo: angústia, expectativa, esperança. Não há decisão; se há, não é certa e sabida. Ainda.

Não há chefe nem governo. Ainda cá está, mas não faz o futuro; arrasta o presente. O próximo adivinha-se, especula-se… não se anuncia. Nas transições dóceis, conhecidas e antecipadas, quem está sabe quem vem, antecipa o melhor e o pior. Desta vez há diversidade; pior seria um só candidato, voz sem alternativa. Ho Iat Seng era seguro; afinal parece que não. Lionel Leong cresce como alternativa; porta-se como tal, tem o apoio forte de Ho. Está na corrida; não sabe se ganha. Wong Sio Chak, esse, terá recuado. O “grupo dos oito” está fora de tempo. O nacionalismo radical e a menorização do Segundo Sistema não interessa a Pequim. Ainda…

Neste contexto, há sinais que relançam Alexis Tam. É bilingue, liberal; anos a fio em Pequim ao lado de Chui Sai On. Ouviu o que ninguém sabe e sabe que Pequim gosta de funcionários públicos. E sabe que não se sabe quem é… Donald Tsang foi escolhido em Hong Kong em circunstâncias análogas, após o falhanço da elite empresarial. Falhou, mas o seu perfil lembra o de Tam, incluindo a cultura mista e a proximidade à comunidade britânica; como Tam faz com a portuguesa. A maior parte dos analistas eliminam-no. Mas é curioso lembrar que os ataques a Alexis Tam vêm de muito longe. “Foi queimado” assim que chegou ao Palácio; com liberais e conservadores a denunciarem-no como concorrente do chefe. Sempre achei que era candidato; não tanto pelo que diz e faz, mas porque tantos o querem desfazer e desdizer. E se não há decisão, o óbvio deixa de o ser. A alternativa aguarda. Ainda. 

Paulo Rego  27.04.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter