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O culto do imperador

Xi Jinping chegou há cinco anos ao poder, fechando um ciclo de alianças e equilíbrios internos construídos ao longo de décadas. O mundo pós-crise 2008, concentrado na liquidez e no capital – não nos direitos humanos e políticos-, acolheu com pragmatismo a nova cara do PIB chinês. Chegou ao trono conciliando tendências, negociando alianças, unindo poderes tradicionais e emergentes, conciliando discursos diferentes: um para dentro; outro para fora… Mas o vento mudou. Xi Jinping cavalga uma verdadeira tempestade política, aperta as rédeas no combate à corrupção, mas também na censura e na gestão dos poderes oficiais e fáticos; anula qualquer visão alternativa. O culto da personalidade coloca-o ao nível de Mao Tsé-tung – revolução armada – e Deng Xiaoping – abertura económica e enriquecimento do país e da elite partidária.

Ninguém sabe se o imperador quer eternizar o poder formal, se lhe basta a influência póstuma. Mas é já evidente que converteu o trono comunista numa cadeira pessoal e inegociável. O pensamento político ocidental tende a criticar o culto da personalidade, sobretudo em regimes de partido único. Mas nem aí Xi Jinping enfrenta real resistência. Trump, arrogante e desbocado, trata-o com deferência, arrastando o Japão para esse pragmatismo; Vietname e Filipinas diluem a tensão no Mar da China; a Europa quer menos Estados Unidos e mais China; até São Tomé – um dos poucos aliados de Taiwan – já migrou para Pequim. Os astros iluminam Xi Jinping, com autoridade interna e vénia internacional. O maior imperador da era moderna governa sem ventos contrários.

Moral e ideologia à parte, este é o tempo de Xi Jinping e do culto da sua personalidade. Para o bem e para o mal, é essa a nova realidade da China, com óbvias consequências em Macau e Hong Kong – como nas relações internacionais. Resta uma contradição: a “democracia” que Pequim exige na governação global, onde potências emergentes como a China, a Índia ou a Rússia, continuam sub-representadas em relação ao seu poder comparado. O mundo mudou, mas quem tem o poder não o partilha de boa vontade. Aliás, usa a imagem do poder imperial para explicar ao eleitorado ocidental que é bom ganhar dinheiro na China, mas nunca deixá-la à solta na governação global. Ao contrário do que se pensa, nem no jogo de sombras da perceção ocidental Xi Jinping está fora de jogo. Já fez o suficiente para voltar a surpreender. Mais importante ainda – ou mais grave – é que nesta altura nem sequer está muito preocupado com isso.  

Paulo Rego

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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