A restauração da glória e do militarismo do Japão

por Arsenio Reis

O governo de Shinzo Abe no Japão está a aproveitar-se da questão nuclear da península Coreana com o objetivo de conseguir uma oportunidade de mobilização das suas tropas no estrangeiro, e essa oportunidade finalmente chegou. Depois do porta-aviões norte-americano USS Carl Vinson chegar à península pelo oriente e aí realizar exercícios militares para colocar pressão sobre a Coreia do Norte, o Japão enviou imediatamente a mais recente corveta Izumo para acompanhar o porta-aviões norte-americano, tornando-se este o primeiro serviço do navio japonês no estrangeiro. Esta é também a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que o Japão envia um navio de guerra para possíveis operações militares no estrangeiro. Embora esta atividade de escolta ao USS Carl Vinson possa talvez ter agradado aos Estados Unidos, a Coreia do Sul e muitos outros países da Ásia-Pacífico não partilham o mesmo sentimento.

Depois da sua reeleição como primeiro ministro, Abe manifestou continuamente a intenção de restaurar a glória que o Japão possuía antes da Segunda Guerra Mundial — glória essa que todos sabemos tratar-se do poderio militar da época. A busca de Abe é uma tentativa de restaurar o militarismo, e, sobretudo nos últimos dois anos, o seu governo de direita transitou de uma promoção sub reptícia do militarismo para uma promoção aberta e audaz, sendo também cada vez mais evidentes as ideologias e conceitos do fascismo de direita. Estudos académicos revelam que a proporção de ideologias e conceitos de direita presentes em materiais escolares do ensino secundário do Japão aumentaram de quatro para seis por cento, e manifestam uma tendência de crescimento. Isto revela que Abe pretende liderar o Japão pelo diapasão do seu anterior trajeto militarista, não só ao nível de ações internacionais mas também ao nível ideológico.

Recentemente, Shinzo Abe esteve na origem de vários incidentes a este respeito, tentando incutir o espírito militarista entre as gerações mais jovens. Em primeiro lugar, numa reunião do Gabinete do Japão (o conselho de ministros do país) foi aprovado o “Decreto da Ordem Imperial da Educação”, introduzindo novamente como material didático a Ordem Imperial da Educação de influências direitistas que promove a extrema veneração e lealdade ao Imperador. De seguida, lançou-se um grande conjunto de orientações que introduzem a baioneta nas aulas de educação física. A baioneta foi usada na invasão japonesa da China e na Guerra do Pacífico para matar inúmeros civis e crianças inocentes. Não só na China mas também em países e regiões como a Coreia do Sul, a Península Coreana, as Filipinas, a Malásia e Singapura, muitos civis foram vítimas mortais desta arma. Segundo descrito por um ex-soldado da força expedicionária da China que combateu o exército japonês no Mianmar: “As baionetas japonesas eram devastadoras, muitos de nós não lhes conseguíamos fazer frente”.

Com a introdução da baioneta para servir de material didático nas aulas de educação física, Abe pretende oferecer aos alunos do ensino secundário um treino militarista. Este tipo de ações por parte do primeiro ministro são muitas vezes executadas de forma calma e discreta, mas ,recentemente, Abe tem demonstrado a sua posição de direita de forma aparatosa, tendo até introduzido o Mein Kampf de Adolf Hitler como material didático. Este livro, proibido durante 70 anos, apenas foi reautorizado em 2016 na Alemanha, não tendo sido incluido como material didático nesse país. Shinzo Abe, contudo, criou um precedente ao nível internacional, introduzindo a bíblia do fascismo, o Mein Kampf, na lista de materiais didáticos do Japão, e fazendo abertamente de Hitler um mentor nacional.

As medidas militaristas do governo de direita de Shinzo Abe já passaram de pequenas ações para medidas abertas e significativas. Este governo já não tem em consideração as experiências sofridas pelos países que foram vítimas do seu militarismo, sendo um exemplo disso a visita ao santuário Yasukuni no dia 25 de abril por parte de um grupo de 95 membros do governo japonês de vários partidos. 

‭ ‬DAVID Chan 

Pode também interessar

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!