O poder e o monstro

por Arsenio Reis

O poder tem horror ao vazio. Todo ele: grande, médio ou pequeno. Quanto maior for o poder mais gente o quer; mais fortes são as redes que se movem para ocupá-lo. O cadeirão da Casa Branca perde sedução planetária. Foi tomado por um radical que, sendo extremista, não merece consenso. Outros disputarão esse palco.

A agenda ecológica, o multiculturalismo, o comércio livre, a regulação financeira… precisam de paladinos e negociadores reconhecidos pelos seus pares. Trump não é um tonto descontrolado; é um populista, nacionalista de extrema direita, que trucida direitos cívicos, sociais e laborais, com um protecionismo que beneficia as elites militares e financeiras. Não tarda vai à guerra, passo natural da dinâmica que adota. Tem de ser combatido.

Trump safa-se, no curto prazo, se criar empregos nos subúrbios do interior do país. Mas falha, a médio prazo, porque o conflito com as forças de bloqueio vai comer-lhe os ossos. Entretanto, desperdiça décadas de influência planetária, construída com poder e dinheiro, mas também com valores individuais e coletivos. Esse pacote, mais sedutor, não é universal, mas domina a ocidente e influencia o Oriente. Trump tem base de apoio, mas alimenta em demasia a energia da reação. Quanto mais radical é agora, mais violento será o efeito de bumerangue.

Xi Jinping mostrou em Davos que percebe a oportunidade, projetando no teatro internacional um discurso conciliador e clarividente. Washington reage mal; tenta inventar um monstro para ganhar aliados contra o perigo amarelo. Mas com isso engrossa também a fileira dos amigos da China. Todos os que são afetados por Trump, mais os que simplesmente rejeitam o mundo que ele apregoa.  

O discurso de Pequim é hoje bem mais interessante que o de Washington. Mas Xi Jinping não toma a cadeira de mão beijada. É certo que ganha terreno, conquista aliados, multiplica parcerias… mas o conflito nos Mares do Sul, ou os direitos humanos e políticos – internamente – são muros difíceis de derrubar. Para seduzir o resto do mundo, para ter real poder global, Pequim tem de sinalizar a sua própria evolução. O Partido Comunista não cede; fará o que entender. Agora, se perceber como isso lhe interessa… Trump cria um monstro maior do que imagina. 

Paulo Rego 

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