Ponte sem estratégia

por Arsenio Reis

A ponte que liga Hong Kong, Zhuhai e Macau deverá estar pronta no fim deste ano. No território, esperam-se, depois da abertura, vários benefícios, que atravessam os vários setores da economia. Ainda assim, os analistas contatados pelo PLATAFORMA asseguram que esta terá de ser acompanhada de uma ação certeira por parte do Governo.

É a obra mais esperada, uma vez que corresponde a mais de 48,89 quilómetros do Delta do Rio das Pérolas, ligando Zhuhai, Macau e Hong Kong. A ponte que liga as três cidades deverá estar concluída no fim deste ano, lançando-se agora o debate sobre o impacto económico que terá no território. Ao PLATAFORMA, alguns analistas afirmaram que os benefícios são por si evidentes, dado que resolve o problema da falta de acessibilidades, mas, conforme adianta Glenn McCartney, de nada serve se não for acompanhada de uma determinada estratégia por parte do executivo.

A revelação veio do secretário para os Transportes e Habitação de Hong Kong, Anthony Cheung Bing-Leung, depois de uma inspeção ao projeto. “Agora, quer seja a ponte principal nas águas da China Continental ou os trabalhos do lado de Hong Kong, bem como os trabalhos dos lados de Macau e Zhuhai, o objetivo é completar os trabalhos até ao fim do ano,” afirmou à TDM.

A professora da Universidade de Macau Rose Lai afirma que é difícil prever o impacto que terá no mercado imobiliário do território. “Por um lado, as pessoas irão pensar que os preços vão aumentar porque haverá mais pessoas a chegar, que talvez trabalhem em Hong Kong e vivam em Macau”, diz ao PLATAFORMA, por e-mail. “Por outro lado, fazer o transporte por uma ponte não significa necessariamente que se leva menos tempo. E a ideia de uma ponte é mais para transporte de carga e mercadorias”, acrescenta.

Além disso, os compradores de frações em Macau já tiveram em conta o efeito da ponte nos valores dos imóveis, tal como “os preços das ações são expectativas de ganhos no futuro”. Dito isto, a analista diz que não vê “razão forte para que o preço de mercado se altere apenas em função da ponte, a não ser que haja fatores psicológicos junto dos investidores que levem o mercado a subir, a curto prazo”. E conclui: “A estabilidade dos preços de mercado depende de uma procura elevada à qual corresponde uma oferta suficiente, e não devido a mais uma ponte que liga Macau a Hong Kong.”

No geral, Rose Lai acredita que o impacto desta obra já está incluído nos atuais preços. “Por exemplo, o preço dos apartamentos perto da ponte do lado de Macau já cresceu, assim que se falou nesta infraestrutura”, acrescenta.

Um relatório preparado pela consultora imobiliária CBRE dá conta de que os novos projetos de infraestruturas no Delta do Rio das Pérolas deverão trazer “um grande número de benefícios” para a região, “ajudando a distribuir melhor os recursos, atenuando a falta de espaço e recursos em Hong Kong e Macau”. 

No caso específico do território, o relatório aponta ainda que, concluída a ponte que liga Hong Kong, Macau e Zhuhai, “o futuro das indústrias do retalho e turismo permanece positivo”, e salienta que nos próximos dois anos haverá mais 2,460 mesas de jogo e 9,940 quartos de hotel no território, reforçando a “capacidade da cidade em lidar” com este influxo de visitantes.

O documento conclui ainda que as novas infraestruturas do Delta das Pérolas irão ajudar a uma maior ligação entre Hong Kong e Macau, “acelerando o crescimento da população e melhorando a sua produtividade”.

A necessidade de uma estratégia

O professor de Jogo e Gestão de Turismo da Universidade de Macau, Glenn McCartney, defende que Macau “deve posicionar-se”. Salientando que, no geral, uma infraestrutura desta envergadura é sempre “uma coisa positiva” por assegurar “uma maior acessibilidade” a Macau, declara, porém, que cabe agora à Direção dos Serviços de Turismo (DST) saber comunicar com as audiências, de forma a que elas se apercebam do que significa. “Uma infraestrutura não tem significado se não soubermos ‘vendê-la’”, destaca.

Assim, defende que é “preciso planear antecipadamente”, e que o Governo deve centrar a sua mensagem “na facilidade de ligação”, uma vez que se “trata de um dos cinco principais fatores que levam os turistas a escolher um dado destino”.

Por outro lado, refere Glenn McCartney, dado que três jurisdições irão partilhar uma ponte, cabe saber que tipo de colaboração existirá entre elas. “Como é que partilhamos e tornamos isso significativo?”

Em teoria, esta infraestrutura deverá trazer alguns benefícios, entre os quais não se encontra necessariamente o aumento do número de turistas. “Há potencial para as famílias ficarem três dias em Macau, ou para surgirem turistas de maior capacidade financeira”, declara, esclarecendo que a ligação ao Aeroporto Internacional de Hong Kong pode “trazer pessoas que ficam mais tempo”. Isto, adianta o analista, se for acompanhado da estratégia de marketing certa por parte do Governo. 

No que toca ao setor do jogo, quando há “uma maior conectividade entre um grande centro metropolitano e um destino de jogo”, é “positivo” para as receitas, diz, por e-mail, o sócio da consultora norte-americana Global Market Advisors, Steven Gallaway. Porém, dada a “abundância de ligações marítimas a um preço razoável”, não deverá “haver um impacto para a maioria dos visitantes”. Mas a ponte poderá “trazer um número maior de jogadores através de autocarros, o que custa menos que os barcos”. Assumindo que isto ocorre, então deverá “haver um crescimento no número de jogadores do setor de massas”.

Já o professor associado do Centro Pedagógico e Científico na Área do Jogo do Instituto Politécnico de Macau, Carlos Siu Lam, afirma que a abertura da ponte deverá ter algum impacto positivo “por se tornar bastante mais fácil a viagem para Macau”, devendo atrair pessoas das regiões vizinhas e trazendo benefícios para o setor de massas. 

Por outro lado, com a conclusão da ponte, “Macau precisa de infraestruturas de transportes excelentes”, devendo o território “perceber como pode fazer com que a ponte funcione melhor para Macau”. Isto significa que o território terá de “trabalhar muito para facilitar o tráfego entre fronteiras, criando uma experiência turística conveniente”.

Os trabalhos para a ponte iniciaram-se em Dezembro de 2009. A data inicial de conclusão seria no fim do ano passado, mas o Governo de Hong Kong revelou que os atrasos deveram-se a falta de recursos humanos e constrangimentos no que toca à proteção ambiental. 

Ficou ainda a saber-se que Hong Kong terá de gastar mais dinheiro do que o inicialmente estimado, por o custo de construção do tabuleiro principal ter excedido o orçamento, conforme admitiu o secretário para os Transportes e Habitação de Hong Kong, citado pelo South China Morning Post. Anthony Cheung Bing-leung não especificou a diferença, mas salientou que os três governos terão de avançar com mais dinheiro, que será determinado em função do seu peso no projeto. 

O custo de construção do tabuleiro principal atingiu 15,73 mil milhões de renminbi (o equivalente a 17,83 mil milhões de patacas), e Hong Kong contribuiu com 43 por cento ou 6,75 mil milhões de renminbi. 

Luciana Leitão

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