Durante ano novo do calendário lunar, muitos chefes de estado ou líderes de países ocidentais enviam votos de feliz ano novo aos chineses que celebram esta ocasião (embora os coreanos e vietnamitas também festejem o Ano Novo Chinês, os destinatários destas mensagens costumam ser os chineses). Na União Europeia, o presidente francês François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e a primeira-ministra britânica Theresa May emitiram comunicados nos quais transmitiram aos chineses os seus votos de ano novo. Nos Estados Unidos, anteriores presidentes como Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama tinham o hábito de todos os anos enviar uma mensagem festiva no ano novo lunar. O recém-eleito presidente Trump, porém, quebrou esta tradição, cancelando as mensagens de ano novo e não tendo até agora feito qualquer declaração sobre o assunto. Esta atitude talvez seja intencional, com o intuito de demonstrar à China uma postura severa, ou talvez seja para mostrar a todos que a sua posição relativamente à China se mantém inalterada. Ainda assim, Ivanka Trump, a estimada filha mais velha de Donald Trump, deslocou-se à embaixada da China nos Estados Unidos no quinto dia do primeiro mês do calendário lunar, levando consigo a sua filha Arabella, onde participou nas atividades festivas e desejou aos chineses um feliz ano novo. Naturalmente, numa altura tão delicada para as relações sino-americanas, a visita de Ivanka, sem interveniência de Trump, não é algo fácil. Para além disso, no dia seguinte, Ivanka publicou no Twitter a seguinte mensagem: “A Arabella a cantar uma canção que aprendeu para o Ano Novo Chinês, desejando a todos um fantástico anos durante estes dias de celebração. Xin nian kuai le!”
Podemos imaginar que Trump programou a visita de Ivanka e Arabella à embaixada, assim como a subsequente mensagem e vídeo, como forma de manifestar a sua intenção de ser um presidente imponente. Para um presidente que pode ameaçar os países islâmicos e o México, que pode aproveitar-se do Japão e da Alemanha e é ainda capaz de interromper furiosamente um telefonema para a Austrália, não desejar um Feliz Ano Novo Chinês é algo insignificante.
A mensagem que Trump transmite é a de que, por enquanto, não tenciona abordar a China. Nestes últimos dez dias na Casa Branca o presidente já ofendeu vários países vizinhos: primeiro os países islâmicos com a sua proibição de entrada no país, depois o México com a parede que fez regredir várias dezenas de anos as suas relações, temos a ainda a Europa, com a qual mantém uma “parceria dividida”, e a Austrália, com a qual é capaz de interromper telefonemas e causar tensões que acredito serem difíceis de atenuar a curto prazo. Neste contexto, um envolvimento com a China poderá dar origem a uma desavença. Por isso, medindo os prós e contras, Trump talvez ache que por enquanto é melhor manter uma situação estável com o país, deixando para depois o ajuste de contas, e enviar Ivanka Trump para lidar com os chineses talvez não seja má ideia. Para todos os efeitos, a visita de Ivanka à embaixada é a primeira ação diplomática de Trump relativamente à China.
Contudo, esta instância de “diplomacia de princesas” revelou ainda que, no futuro, a família de Trump irá ocupar um lugar fixo nos assuntos diplomáticos. Logo, a filha mais velha de Trump, Ivanka, irá certamente no futuro substituir frequentemente a primeira-dama, e o seu marido, Jared Kushner, é ainda o braço direito do presidente, tornando-se no mais poderoso genro de um presidente americano.
Na primeira vez que Shinzo Abe se encontrou com Trump, Ivanka e o seu marido estiveram sempre presentes.
De facto, esta “diplomacia de princesas” transmitiu ainda uma outra mensagem: o Trump conhece bem a China. Desde os numerosos membros do seu governo com uma atitude beligerante em relação à China até à visita da sua filha à embaixada, acompanhada pela neta que estuda chinês, vestindo roupas vermelhas e desejando um feliz ano novo, é possível perceber que Trump conhece bem a China e a sua cultura. Esta escolha de enviar a sua filha e neta para transmitir votos de feliz ano novo não afeta a sua imagem imponente e permite ganhar face com a China, deixando ambas as partes satisfeitas. Tal como disse Jack Ma, que se encontrou anteriormente com Trump, “O Trump é extremamente inteligente, não devemos de forma alguma subestimá-lo.”
Trump quebrou a tradição, não enviou votos de bom Ano Novo Chinês aos cidadãos sino-americanos, coreano-americanos, vietnamito-americanos e chineses. Crê-se que esta posição tenha provocado uma disputa entre a sua equipa de Administração, considerando-se desnecessária a falta de gentileza com a China numa altura em que ainda não passou um mês da tomada de posse na Casa Branca. A China não mostrou qualquer reacção à visita de filha e neta de Donald Trump à embaixada do país. É incerto se a visita surtiu efeito, mas Donald Trump procurou redimir-se da imagem de hostilidade em relação à China, enviando uma mensagem de felicitações de Ano Novo Chinês no passado dia 8. Pediu assim um lai si à Pequim, mas o valor da lai si não será o que o Trump quer.
DAVID Chan