Na tarde do passado sábado, a Associação para Protecção do Património Histórico e Cultural de Macau e a Associação de História de Macau realizaram uma conferência intitulada “Lembrando os 50 anos do Motim 1,2,3”.
O presidente do conselho da Associação para Protecção do Património Histórico e Cultural de Macau, Cheang Kok Keong, descreveu em primeiro lugar o contexto e desenvolvimento do incidente “1,2,3”, dizendo: “Macau nos anos 60 encontrava-se em situação de recessão económica, e o governo português tratava muitas vezes os chineses de forma considerada opressiva. Tendo o início da Revolução Cultural como pano de fundo, o incidente deu o tom de combate à repressão.”
Chan Su Weng, presidente do conselho da Associação de História de Macau, referiu: “As informações sobre o motim 1,2,3 são poucas, incluindo as internas. Wong Man Fong, na altura o diretor do departamento de Hong Kong da Agência Xinhua, já pediu a sua divulgação, mas recebeu sempre uma recusa do lado da China. Tais informações não foram publicadas na altura do 30º aniversário, e até hoje continuam por publicar.”
Vários participantes na conferência partilharam pequenos episódios do incidente provenientes da sua experiência pessoal.
Houve quem fosse da opinião de que o incidente não pode ser exagerado. O regime de Salazar e o governo pós-25 de Abril são extremamente díspares e têm ser vistos de forma distinta, não devendo este motim ser causa para xenofobia.
Houve também um participante, de apelido Ieong, que afirmou ter tomado parte numa manifestação no Leal Senado, tendo partilhado a sua opinião: o incidente surgiu de uma indignação justificada dos chineses, não foi uma insurreição ou algo de premeditado.
Neste incidente de há meio século atrás, eu fui apenas um espectador e não um interveniente. Nessa noite, por volta das 11 horas, estava com Chio U Nang, jornalista do Jornal Va Kio (ele era na verdade o filho do diretor, Chio Pan Lan, e desempenhava um cargo de fotojornalista), na zona atrás do Palácio da Praia Grande e perto da Imprensa Oficial, pretendendo ir recolher um artigo a casa de Wan Pak Chun, agente da Reuters em Macau. Já tinha sido aplicado o recolher obrigatório, e a polícia que patrulhava aquela zona pediu-nos para parar, tendo questionado a razão de estarmos na rua e pedido que regressássemos o mais rápido possível aos escritórios do jornal. Pouco antes de ser imposta a lei marcial, às seis horas da tarde, estava com outros colegas, incluindo o diretor de entrevistas Chan Chung e os repórteres Wu Iong Pok e Chan Iong Kuong, num restaurante entre a Rua do Bocage e a Travessa da Louça, e quando regressava ao jornal para uma noite de trabalho deparei-me com um grupo de jovens chineses que impedi que perseguissem e agredissem um macaense português.
Durante o incidente “1,2,3”, embora ele tenha sido influenciado pela Revolução Cultural, os cidadãos macaenses, portugueses e luso-macaenses puderam coexistir de forma pacífica. Mesmo durante a altura dos “Três Nãos”, as comunidades portuguesas e macaenses receberam apoio por parte dos vizinhos chineses, não tendo sofrido grandes ofensas.
Chan Su Weng criticou a escassez de informações públicas sobre o “Motim 1,2,3”, assim como a recusa da China em divulgar tais informações, e tem toda a razão de o fazer. Já se passaram 50 anos desde o incidente. Sendo a situação atual tão diferente, porquê continuar esta obstrução?
Tal como referido no final da conferência: as lições do passado orientam o futuro. Macau de hoje é um fruto das sementes de ontem, e Macau de amanhã também terá em si os genes da história e uma genealogia cujas raízes passam pelos dias de hoje. O “Motim 1,2,3” aconteceu há já meio século atrás, é preciso dar como terminado este capítulo da história. Para aqueles da minha geração que testemunharam o período pré-transferência, existe a confiança de um amanhã melhor. Contudo, o que é incontestável é que nesse amanhã seremos mais velhos, e enquanto a memória ainda não nos falha, vale a pena recordar este acontecimento profundamente influente na história das RAE.
DAVID Chan