Bomba relógio - Plataforma Media

Bomba relógio

Afinal, pode bem nos acontecer; a todos e a cada um: jornalistas, editores, causídicos, ativistas… e a todos quantos caiam na lista maldita da secreta chinesa. Os raptos – não há outro termo – dos editores de Hong Kong; sejam os perpetrados na China, na Tailândia, ou na própria RAEHK, deitam por terra o mito da autonomia até agora dado como adquirido também em Macau.

A Lei Básica diz que não há delito de opinião, muito menos perigo físico para quem critique o status quo. Afinal, não é bem assim… A China dá provas de estar disposta a uma espécie de terrorismo de Estado, sempre que entenda, prescindindo da Lei e impondo uma ordem, a todos os títulos, ilegítima. Não se percebe que informação tão sensível terão os editores em causa para tamanho tiro no pé em relação aos interesses da própria China, que assim vira costas a promessas supostamente intocáveis por 50 anos. Certo é que este episódio prejudica a imagem internacional da China, dá armas a quem luta pela democracia em Hong Kong, assusta quem em Macau defende a integração regional – como este jornal – e faz perder anos de vida no jogo de sedução a Taiwan.

Comentando a ascensão meteórica de Xi Jinping, e o poder que assume nos centros de poder do Partido Comunista Chinês, Barack Obama alertou recentemente para os perigos de atropelo aos direitos humanos, apontando sinais de abusos por parte das autoridades e dos tribunais. Se era uma suspeita, no contexto da campanha contra a corrupção, é uma certeza neste caso que põe Hong Kong em polvorosa. Ao sancionar estes raptos, o regime prescinde de ser virtuoso; no fundo, rejeita os seus próprios padrões de legitimidade.

Depois do Occupy Central e dos guarda-chuvas amarelos, que pintaram de negro a imagem da China no ocidente, há uma nova bomba relógio em Hong Kong, pronta para explodir a qualquer momento. Há por isso nesta estória uma inépcia política que não faz sentido e uma displicência autoritária que não bate certo com o projeto chinês de afirmação regional e internacional. Alguém ganha alguma coisa com isso, mas não é certamente a parte da China que pretende ser respeitada como um dos líderes da nova ordem mundial.

Paulo Rego 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter