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Capital europeu resiste no sul do país

As empresas da Europa com investimento na China estão mais pessimistas do que nunca, com um décimo a preparar a saída do país. Mas as operações nas regiões do sul mostram maior resistência ao abrandamento.

O pessimismo entre empresas europeias na China está em máximos históricos, com um décimo a preparar a retirada dos investimentos do país. A Câmara de Comércio da União Europeia na China fala de um clima hostil, que alia o abrandamento económico à falta de progresso nas reformas de mercado prometidas por Pequim. Mas o sul da China ainda marca a diferença, com os negócios europeus a encontrarem estratégias para resistir.

Os dados do último inquérito sobre a confiança das empresas europeias com operações no continente chinês mostram um agravamento geral do sentimento. A publicação, divulgada este mês pela câmara que representa os negócios do continente vizinho, indica que mais de metade das empresas, 56 por cento, considera que está mais difícil ter operações na China. No ano passado o sentimento era partilhado por apenas 51 por cento das empresas.

Aumentou também o pessimismo quanto à capacidade de expansão e geração de lucros. Em 2016, 15 por cento das empresas falam na dificuldade de expandir operações, contra apenas oito por cento no ano anterior. O pessimismo quanto aos lucros dos respectivos negócios também subiu de 23 por cento para 33 por cento. Entretanto, 55 por cento das empresas ouvidas no inquérito acreditam que a era dourada das multinacionais na China acabou.

O sul da China, porém, é ainda a zona do país que concentra maiores níveis de optimismo relativo. Se no cômputo nacional, 11 das empresas europeias estão este ano a mover operações para outros países e 41 por cento pretendem cortar custos – nomeadamente, com despedimentos –, os negócios que se concentram em províncias como Guangdong dizem estar a reter investimento, mas ainda assim a adaptar-se com algum sucesso ao chamado novo normal. 

“Há o abrandamento económico e as reformas estão num impasse. Os constrangimentos de acesso ao mercado colocam efetivamente sérios desafios aos negócios europeus na China”, admite Alberto Vettoretti, presidente da delegação regional do sul da Câmara de Comércio da União Europeia na China. Mas, ainda assim, há 53 por cento das empresas que a sul do país mantêm o optimismo, contra 9 por cento que manifestam pessimismo e 37 por cento com uma posição neutral.

O responsável da organização que atua como lobby junto do Ministério do Comércio chinês e outras autoridades centrais explica que a estratégia dos negócios europeus no sul do país tem assentado numa adaptação aos sectores promovidos no quadro do novo modelo de crescimento nacional, sem uma clara retração das atividades.

“Há mais companhias que se mostram indecisas, a ver como cortar custos e aumentar a eficiência, ao mesmo tempo que mantêm as principais atividades de expansão e de investigação e desenvolvimento. Apesar disso, estes negócios têm-se adaptado ao ambiente mais desafiante com uma mudança de prioridades para que aumentem a quota de mercado na China onde existem serviços e produção localizados”, explica Vettoretti.

Os sectores de aposta são aqueles que estão identificados nos planos nacionais como sendo condutores no novo modelo de crescimento procurado, mais assente no mercado doméstico, procura interna e serviços. 

“As empresas europeias no sul da China estão a manter-se firmes graças à força de clusters bem desenvolvidos e localizados e a uma eficiência na cadeia de criação de valor que atravessa vários setores, incluindo a eletrónica, a produção automóvel e de componentes, a alta tecnologia, as tecnologias ambientais, os aparelhos médicos, a logística de comércio eletrónico e os serviços em geral, que estão ainda a prosperar na região”, descreve o representante. “É a lei do mais forte a concorrência local é feroz”, admite Vettoretti, mas os lucros da região mantêm-se acima da média nacional.

Os resultados do inquérito da câmara mostram que um quinto das empresas europeias com operações no sul do país viram os seus resultados antes de impostos e pagamento de juros crescer substancialmente, situação que não se verifica entre as empresas europeias com atividade noutras regiões. Na média nacional, apenas 11 por cento dos negócios reportam estes resultados, contra os 21 por cento das empresas europeias que atuam em províncias como Guangdong. 

Do mesmo modo, enquanto no sul da China as empresas de capital europeu falam em aumentar o investimento com a instalação de centros de investigação e desenvolvimento, é oposta a tendência para a generalidade dos negócios com a mesma origem.

Os dados do inquérito da câmara europeia evidenciam obstáculos, com as empresas a criticarem a obrigatoriedade de transferência de tecnologia para parceiros chineses, as restrições no acesso à Internet, e uma série de legislação que invoca a segurança nacional em setores sensíveis para o investimento, como a de ciber-segurança. Atualmente, apenas 28 por cento dos negócios europeus na China mantém centros de investigação – e, em 43 por cento dos casos, os centros existentes servem apenas a adaptação das caraterísticas de produto ao mercado local. Há 45 por cento dos inquiridos para os quais o ambiente de investigação chinês é menos favorável do que em outros locais do mundo.

Uma das principais queixas das empresas, e o aspecto onde mais se agravaram as perspetivas, é precisamente o acesso Web, do qual está dependente boa parte das atividades de investigação e desenvolvimento de produtos e serviços. Em 2016, 58 por cento das empresas reportam o efeito negativo da censura chinesa nas suas operações, contra apenas 41 por cento em 2015.

O estudo da Câmara de Comércio foi realizado entre os meses de Fevereiro e Março a partir de respostas dadas por 506 empresas europeias com atividade na China. O inquérito é publicado anualmente e afere tendências de investimento no país. 

Maria Caetano 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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