Início » Timor Telecom fica em mãos timorenses

Timor Telecom fica em mãos timorenses

Depois de um longo período de incerteza o futuro da Timor Telecom, a maior e mais antiga operadora de telecomunicações de Timor-Leste parece finalmente desenhar-se. E com uma certeza inesperada há poucos meses: a de que o capital principal vai ficar nas mãos de empresários timorenses.

Nilton Gusmão, um dos mais poderosos empresários do país – responsável do grupo ETO, está a fechar as negociações com a brasileira Oi para comprar o seu capital (maioritário) na operadora timorense.

Uma notícia positiva poucas semanas depois de vários responsáveis e funcionários da Timor Telecom terem escrito ao chefe do Governo timorense a manifestar dúvidas e receios depois da decisão definitiva do executivo de não ampliar o seu capital na empresa.

Com a Oi, que controla a maioria do capital, a continuar vendedora, e perante notícias de vários eventuais compradores internacionais interessados, a empresa que há poucos anos tinha o monopólio das telecomunicações em Timor-Leste pode deixar de ser ‘timorense’ muito em breve.

Algo impensável há poucos anos, especialmente antes de um processo de liberalização do setor que viu a entrada de dois operadores, a indonésia Telkomcel e a vietnamita Telemor (ambas estatais). Mais irónico ainda porque se não tivesse levado a cabo a liberalização, o Estado timorense passaria em 2017 a controlar o capital da operadora, mediante o acordo inicial para a sua formação.

Para muitos em Timor-Leste a única ‘esperança’ é de uma possível operação de compra levada a cabo por empresários timorenses, alguns já com dimensão para assumir o controlo da operadora, especialmente se houver parcerias na operação.

Note-se que no final do ano passado, a PT Participações estimava que o valor total da TT rondava os 150 milhões de dólares pelo que a sua participação indireta (41,12%) e direta (3,05%) rondaria os 66,26 milhões de dólares.

Um valor ajustado, tendo em conta a dívida líquida de 59,47 milhões de dólares, a que se soma um empréstimo com a PT Finance de cerca de 24,68 milhões de dólares.

Controlada maioritariamente e numa primeira fase pela PT e, depois da operação da Oi, por esta operadora brasileira, a Timor Telecom vive há mais de 18 meses na incerteza sobre o seu futuro, com um longo debate a concluir-se em meados de junho com a decisão que os trabalhadores não queriam: o Governo não vai ampliar o seu capital.

Em causa está a maior fatia de capital da TT (54,01%), controlada pela sociedade Telecomunicações Públicas de Timor (TPT) onde, por sua vez, a Oi controla 76% do capital, a que se soma uma participação direta da PT Participações SGPS de 3,05%.

Os restantes acionistas da TPT são a Fundação Harii – Sociedade para o Desenvolvimento de Timor-Leste (ligada à diocese de Baucau), que controla 18%, e pela Fundação Oriente (6%).

Na TT, o capital está dividido entre a TPT (54,01%), o Estado timorense (20,59%), a empresa com sede em Macau VDT Operator Holdings (17,86%), o empresário timorense Julio Alfaro (4,49%) e a PT Participações SGPS (3,05%).

Para o primeiro-ministro timorense, Rui Araújo, a decisão do Governo de não ampliar os 20% que já controla deve-se a uma questão de “consistência nas opções políticas”. Reconhece a preocupação que a decisão possa ter causado, mas explica que se o Governo decidiu liberalizar o setor, “não faz sentido agora que decida ser o maior acionista” e reduzir a margem de concorrência.

As palavras de Rui Araújo não mostram, porém as grandes divisões internas dentro do executivo que o assunto sempre causou, com opiniões contrárias entre os dois ministérios – Obras Públicas, Transportes e Telecomunicações, de um lado, e Finanças, do outro – que foram encarregues de estudar a eventual compra.

Por várias vezes membros do Governo admitiram em público e em privado que o negócio estava fechado, chegando a informar ter sido tomada uma decisão nesse sentido em Conselho de Ministros. A decisão final, porém, acabou por ser contrária ao que muitos dentro e fora da Timor Telecom esperavam.

“O Estado timorense tem de fazer tudo o possível para comprar o capital da Oi na Timor Telecom”, dizia a 13 de maio, Inácio Moreira, vice-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

“Como timorense e como membro deste Governo, não vou deixar a TT ficar nas mãos de uma empresa qualquer a operar aqui, a não ser que o Estado tenha uma maioria de capital para controlar e gerir a empresa”, afirmou na altura.

“Estamos a falar de um negócio e um negócio deve falar-se sempre em questões económicas. Mas, para o Estado, o mais importante nesta questão, o fundamental, é a segurança da comunicação do Estado. Espero que outros colegas também compreendam esta questão”, afirmou.

O objetivo de quem defendia a operação era que o Estado comprasse o capital da Oi, ficando apenas depois com uma maioria de 50% do capital da TT e alienando o resto aos outros acionistas ou a outros investidores.

A decisão, porém, e como explicou o vice-ministro das Finanças, Hélder Lopes, acabou por ser outra, motivada por “uma análise comercial, financeira e económica levada a cabo pelo Governo”.

Questionado sobre o facto de a decisão deixar na mão de operadores estrangeiros os três operadores de telecomunicações no país, Hélder Lopes explicou que o Governo considerou que deveria “ser coerente” com a sua política nesta matéria.

Inácio Moreira  e outros no Governo e na própria TT, questionam porém alguns dos fundamentos e argumentos dos pareceres solicitados pelo Governo e que davam nota negativa à opção de compra.

Uma dessas análises, a que a Lusa teve acesso, foi preparada em abril de 2016 por Sam Porter, assessor do ministro de Estado Coordenador dos Assuntos Económicos (MECAE), e considerava “não haver nenhuma razão financeira ou económica convincente para o Governo comprar ações adicionais”.

No entanto, o mesmo texto nota que a receita por utilizador dos serviços de telecomunicações em Timor-Leste “não é a mais baixa da Ásia” pelo que o país é “um mercado algo atrativo para investidores no setor de telecomunicações”.

Esta análise defende que o Estado deve investir numa ligação de fibra ótica submarina e noutras infraestruturas, questiona a falta de capacidade técnica do Estado para gerir a empresa e considera que a participação pública criaria confusão entre o papel de “regulador e operador”.

Especialistas do setor em Timor-Leste, porém, admitem que parte da decisão se pode dever ao ‘caderno de encargos’ que seria necessário ao Estado assumir para tornar viável e positiva a operação de compra.

Numa primeira fase, resolver a questão das dívidas em atraso do Estado à Timor Telecom (TT), que segundo a operadora ultrapassam os 9,5 milhões de dólares, mas que como explicou Hélder Lopes estão ainda a ser verificadas.

Igualmente complexo é melhorar e fortalecer o atual regulador, a Autoridade Nacional de Comunicações (ANC), que continua a permitir que os outros dois operadores no terreno, a indonésia Telkomcel e a vietnamita Telemor, pratiquem tarifas abaixo do preço de custo.

O regulador tem ainda de fazer cumprir a lei, obrigando as operadoras a registar os cartões de telemóvel e a terem de apresentar contas delegadas à ANC e ao Ministério das Finanças, algo que atualmente não ocorre.

Mais importante porém, o futuro de qualquer operadora em Timor-Leste dependerá do acesso a fibra ótica, com a opção mais viável a ser, eventualmente, a ligação à fibra da Telkom Indonésia, que já existe até à fronteira entre Timor-Leste e Timor indonésio, com um preço de mercado internacional e largura de banda sem limitações.

Tudo fica, para já, na incerteza, até que a Oi confirme quem é comprador da sua fatia da TT. 

Antonio Sampaio – Exclusivo Lusa/Plataforma

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website