De que é que os traficantes gostam? - Plataforma Media

De que é que os traficantes gostam?

À Polícia Judiciária de Bissau cabe a ingrata tarefa de tentar apanhar traficantes de droga sem armas, sem dinheiro para pôr combustível nos carros (nos poucos que ainda andam) ou recarregar os telemóveis. Para agravar o cenário, boa parte do tráfico é feito na região insular do país, o arquipélago dos Bijagós, com 80 ilhas e ilhéus – e também não há barcos para capturar ninguém. Um paraíso para o crime.

Estamos em 2016 e o maior desafio das autoridades para enfrentar o narcotráfico na Guiné-Bissau continua a ser o mesmo de há uma década: “falta de capacidade para se fazerem investigações profundas e complexas”, refere uma fonte do Escritório das Nações Unidas para a Droga e Crime Organizado (UNODC) em Bissau, numa alusão à incapacidade das polícias. O problema é um denominador comum nos relatórios sobre o tráfico de cocaína oriunda da América do Sul e que desde 2006 faz da África Ocidental o trampolim para o resto do mundo.

Já em abril de 2009, numa das épocas altas do tráfico, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau, Zamora Induta, apontava as ilhas de Bubaque, Orango e João Vieira, no arquipélago dos Bijagós, como locais de aterragem de aviões suspeitos. “Isto tudo acontece por falta de autoridade do Estado nessas ilhas”, dizia. E neste aspeto, apesar de haver uma nova vontade política desde as eleições de 2014, no terreno, pouco mudou.

Hoje, os agentes continuam sem equipamento que lhes dê a confiança necessária para enfrentar “pessoas altamente perigosas”. “Por mais que se queira, não se arriscam vidas sem ter a certeza que uma operação estará à altura de os enfrentar”, queixa-se fonte da PJ. E os suspeitos andam pelo país: no primeiro trimestre de 2016, um grupo de agentes da Judiciária guineense seguiu os passos de diversas pessoas indiciadas a nível internacional por tráfico de droga.

“Em fevereiro houve um forte seguimento de pessoas que chegaram ao país e desencadearam diversas atividades. Não fotografámos estupefacientes, mas o que constatámos deixa-nos 90% certos de que estavam a preparar algo ligado ao tráfico”, descreveu um dos agentes envolvidos na operação.

Entre setembro e outubro de 2015, no mesmo período em que o Presidente da República demitiu o Governo e houve uma situação de turbulência política, registou-se na Guiné-Bissau o “mais intenso movimento” de sul-americanos ligados ao tráfico de droga. “Tudo por causa da indefinição no poder. Eles aproveitam a instabilidade como distração”, acrescentou. E este é o país em que um governo nunca chegou ao fim do mandato.

Segundo refere a mesma fonte, continua a haver cumplicidade “de alguns militares” guineenses no tráfico de cocaína, mas “por iniciativa pessoal: são ligações que ficaram com os traficantes” e não um envolvimento por indicação superior da hierarquia militar, “como antes acontecia”.

A elite que dá esperança

Nos próximos meses, a Unidade de Combate ao Crime Transnacional da Guiné-Bissau vai receber novas instalações e equipamentos, financiados pela União Europeia. A unidade é uma iniciativa do Escritório das Nações Unidas para a Droga e Crime Organizado (UNODC) e junta elementos de elite de cada força de segurança. Polícia Judiciária, Polícia de Ordem Pública, Guarda Nacional, serviços de Imigração e Alfândegas contribuem com os agentes mais bem preparados para formar uma equipa de 20 operacionais que serão chamados sempre que necessário para investigar crimes transnacionais – todos os tipos de tráfico (drogas armas, seres humanos), terrorismo ou outros. Ao contrário do que acontece noutras forças de segurança guineenses que enfrentam falta de verbas, a unidade tem garantido o fornecimento de combustível e o funcionamento de um sistema de comunicações, graças ao apoio internacional.

O tráfico de estupefacientes tem sido o crime mais investigado pela unidade “Os elementos distinguem-se pela formação que já receberam em diferentes países e contextos” e por já terem sido “escrutinados” contra eventuais tentativas de corrupção, o que lhes permite lidar com crime organizado complexo e transnacional, refere fonte da UNODC em Bissau. São a esperança de que os traficantes passem a detestar a Guiné.

Ninguém “presta atenção”  ao resto da droga

“A comunidade internacional está muito centrada no tráfico internacional de cocaína” e “ninguém presta atenção à liamba que circula em todo o país”, lamenta Domingos Tê, 67 anos, pastor evangélico que abraçou a missão de apoiar todos quantos se afundam no consumo de drogas. Tem o único espaço de recuperação de toxicodependentes da Guiné-Bissau. São instalações precárias, mas não há outras.

Os consumidores de ‘crack’ (cocaína cristalizada que se fuma em cachimbos improvisados) e de cannabis são os principais utentes. “O negócio da ‘liamba’ tem grandes proporções. É uma droga que leva a distúrbios diversos” e o problema, diz o pastor, é que “já não há apreensões como em anos anteriores. Há silêncio há muito tempo”, refere Domingos Tê, que receia que as autoridades centrem o combate aos estupefacientes no tráfico transnacional de cocaína e que o resto da droga lhes passe por baixo do nariz.

Por exemplo, no que diz respeito à cannabis, há plantações no país que fornecem a capital. Quem nos explica o percurso é um traficante do bairro de Nova Sintra, no centro de Bissau. A droga vem de São Domingos, norte da Guiné-Bissau, e é transportada de carro até Safim, uma localidade à entrada da capital. Ali passa para carrinhos de mão e continua por caminhos no meio do mato para contornar o posto policial. Chega ao Bairro Militar, em Bissau, depois de empurrado pela força de mãos, por entre campos de arroz, ao longo de sete quilómetros. “E se a polícia aparecer”, perguntamos. “Às vezes estão aí. Mas damos-lhes qualquer coisa e vão embora”, responde o traficante.

A ‘cannabis’ e ‘crack’ são as drogas mais baratas e mais consumidas na Guiné-Bissau. Uma pedra de ‘quisa’ (outro nome do ‘crack’) custa 4 dólares e a ‘liamba’ pode ser comprada a partir de alguns cêntimos de dólar. Os dados foram recolhidos num dos raros estudos sobre toxicodependência na Guiné-Bissau, feito por Abílio Aleluia, sociólogo guineense do Instituto Nacional de Saúde Pública (INASA).

“Ouvi relatos de alguns toxicodependentes que começaram a consumir de forma precoce, como uma brincadeira entre amigos, aos 10 anos de idade, num ambiente familiar permissivo”. As relações “não ficaram muito afetadas quando os pais e encarregados de educação descobriram o consumo de drogas” porque “as contribuições financeiras do tráfico” ajudam a sustentar os agregados familiares. Se entrar dinheiro, o consumo é menosprezado.

Abílio Aleluia está a tentar angariar patrocínios para colocar em funcionamento o Observatório Guineense da Droga e da Toxicodependência, que registou no notariado em abril. Existe no papel, mas falta passar à prática para trabalhar na prevenção, junto das escolas, e na recolha de dados. “É importante que a Guiné-Bissau passe a ter uma estratégia” para enfrentar o consumo de drogas. O país que já é conhecido no mundo pelo tráfico, não quer entrar no mapa do consumo.

Luís Fonseca

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