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Quebra no investimento

É grande o grau de incerteza sobre o impacto da transformação do modelo económico chinês no comércio global, defendem economistas do FMI.

A redução do ritmo de investimento chinês é o principal fator para o acentuado abrandamento das importações do país ao exterior, conclui um estudo produzido por economistas do Fundo Monetário Internacional. A quebra de exportações da China, em resultado do fortalecimento do renminbi nos últimos anos, tem a segunda maior contribuição ao refletir uma diminuição das compras de matérias-primas ao exterior para posterior transformação e reexportação. Mas é ainda difícil avaliar o peso que a tendência de substituição de importações por produção doméstica, dentro dos objetivos da política central, terá no comércio global a prazo.

Em “Importações Chinesas: O que está por trás do abrandamento?”, Joong Shik Kang e Wei Liao, autores, consideram que a atual transformação do modelo de crescimento chinês para uma economia mais orientada para o consumo, e onde a cadeia de criação de valor esteja mais ancorada no mercado doméstico, tem tido uma contribuição constante para o comportamento da balança comercial, mas a incerteza é ainda grande para que se avalie a extensão do seu impacto nos principais parceiros comerciais do país. 

“A contribuição da China para o abrandamento global do comércio (medida pelo volume de importação de bens) foi invulgarmente grande em 2015, num acentuado contraste face ao impacto positivo no volume de comércio após a crise financeira global de 2008-2009, levantando preocupações quanto a uma dinâmica abaixo das expectativas na China”, afirmam os autores, lembrando que entre os ano de 2000 e 2014 o país foi responsável por um terço do crescimento do volume de trocas comerciais mundiais. 

Atualmente, a China é parceira das restantes economias emergentes do mundo em mais de um quarto das trocas comerciais destas. O país está também entre os principais parceiros comerciais de mais de 100 economias do mundo, que juntas representam 80 por cento do PIB mundial. 

Os efeitos de contágio do atual momento de abrandamento chinês têm vindo a ser alvo de diferentes estudos por parte do Fundo Monetário Internacional. Esta última publicação procura, através de cálculos sobre a evolução da procura interna, determinar quais os principais fatores a contribuírem para uma diminuição de compras por parte da China ao exterior. A conclusão é a de que entre 40 a 50 por cento do abrandamento de importações verificado ao longo dos últimos dois anos se fica a dever a uma redução do investimento pelos agentes económicos chineses.

Por outro lado, pesa o facto de ao longo das últimas décadas a China ter ocupado o lugar de chamada fábrica do mundo, importando matérias-primas ao exterior para transformação dentro das fronteiras do país e posterior reexportação. Assim, o facto de também as exportações chinesas estarem em queda é visto como sendo responsável por 40 por cento da atual queda de importações. Por trás da descida de exportações, defendem os economistas do FMI, está a liberalização da taxa de câmbio da moeda chinesa a partir de 2005, com um progressivo fortalecimento do renminbi contra o dólar norte-americano. 

Por enquanto, porém, os autores encontram dificuldades em identificar uma tendência e a contribuição efetiva do objetivo de política macroeconómica do chamado ‘onshoring’ – isto é, a substituição de bens importados por outros produzidos no país para o consumo no mercado doméstico. 

Este processo, afirmam, não parece ter um peso significativo nas alterações da balança comercial, ainda que tenha evoluído de forma constante para uma contribuição negativa nas importações. Segundo os autores, a redução de compras ao exterior em favor de equivalentes domésticos – uma tendência identificável desde o início dos anos 2000 – será responsável apenas, a cada ano, por uma proporção de 1 a 1.75 pontos percentuais na percentagem total de descida das importações.

“Há um alto grau de incerteza sobre o impacto do [processo de] reequilíbrio no abrandamento das importações”, defendem os autores, que arriscam ainda assim que o processo de transformação do modelo de economia possa estar na base dos comportamentos no investimento e trocas comerciais. “A nossa avaliação preliminar, com base em diferentes trajetórias para o reequilíbrio, sugere que cerca de metade do abrandamento das importações possa ser atribuído à corrente transformação da economia chinesa [de um modelo assente] em investimento e exportações para [um de] maior consumo”, concluem.

Em 2015, o volume de trocas comerciais entre a China e o resto do mundo sofreu uma redução de oito por cento. Os últimos dados da balança comercial do país, relativos ao mês de Abril, indicam uma contração continuada. Segundo as informações das Alfândegas chinesas, as exportações chinesas caíram 1,8 por cento em Abril, com as importações a sofrerem um redução de 10,9 por cento por comparação com o mesmo mês do ano passado. 

Maria Caetano 

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