“A pressão de chegar ao fim está sempre lá” - Plataforma Media

“A pressão de chegar ao fim está sempre lá”

“O Grande Prémio de Macau, ao longo dos anos, tem sido um evento que tem crescido bastante em termos de infraestruturas, mas também em termos de corrida. Internacionalmente, acho que o engenheiro Costa Antunes tem feito um trabalho muito bom”, elogia Rodolfo Ávila, que apenas lamenta a pressão sobre os pilotos locais, por terem de acabar as corridas se querem receber o subsídio. Com outra estratégia, “podíamos criar mais pilotos para correrem lá fora”, conclui o piloto de Macau.

Rodolfo Ávila correu este ano na prova em estreia no Grande Prémio de Macau, os TCR, mas confessa ao Jornal Plataforma que prefere os formatos GT. O piloto local de 28 anos lamenta a pressão de ter que acabar as provas para receber o subsídio, uma vez que isso lhe garante poder correr fora do território, mas acredita que podia fazer bem melhor quando vem correr na sua cidade. Sobre o futuro, espera que o Instituto do Desporto continue o bom trabalho até agora liderado por Costa Antunes, mas considera que vai ser a nova geração que vier a tomar conta dos destinos do desporto automóvel em Macau que pode vir a mudar alguma coisa e a apostar mais na formação de pilotos locais.

– A participação deste ano foi na prova de TCR, uma prova nova, como correu, ficaste satisfeito?

Rodolfo Ávila – Satisfeito não diria, porque no andamento para a qualificação ainda estava um bocado longe dos Seat mais rápidos, de competidores que tinham carros iguais ao meu, por isso, não tiro um balanço muito positivo, mas também não foi negativo. Tive alguma sorte nas corridas. Houve vários acidentes e não fui apanhado em nenhum deles. Tive sorte porque, ainda por cima, para nós pilotos de Macau, o mais importante é acabar, e no género desta corrida, de TCR, a primeira volta é sempre bastante complicada. Acho que tive sorte e no final acabámos em quinto e isso é que interessa e é importante.

 

– Essa questão de terminar a prova, os pilotos de Macau convivem todos os anos com essa angústia de ter que fazer um resultado que lhes permita, garantir o subsídio. Tens sido crítico desta regra, continuas a ver da mesma forma?

RA – Já venho criticando há muitos anos, mas acho que já não vale a pena estar a criticar, porque não há maneira de dar a volta à situação. Falo por mim, mas acho que também os outros pilotos com a mesma situação, têm a mesma opinião, que o importante é assegurar o subsídio. O subsídio ajuda-nos a correr no estrangeiro, ajuda-nos a fazer mais corridas do que o Grande Prémio de Macau e claro que é muito importante. Se temos essa obrigação de acabar para receber o subsídio, acho que qualquer piloto que precise de fundos para planear o ano seguinte, irá sempre pensar dessa maneira e terá mais cautela em Macau, o que não nos ajuda a mostrar o nosso verdadeiro valor.

 

– Falaste dos acidentes, este Grande Prémio teve alguns. Tiveste dificuldades nesse aspecto ou já houve anos piores?

RA – Acho que já houve anos piores. Houve um ano, em 1993 ou 1994, que na Fórmula 3, depois do Hotel Lisboa, na subida para a Guia houve um acidente em que ficaram cerca de 15 carros. Acho que é típico de Macau. Há anos com mais , outros com menos, mas existem sempre porque é próprio do circuito, que é um circuito citadino, rápido, e podemos dizer que é complicado em que qualquer erro acaba em acidente. Todos os anos existem, mas também é isso que faz da corrida especial.

 

– A corrida em que participaste, de TCR, teve umas picardias com muitos toques entre o Stefano Comini e os irmãos Oriola. Como vês estas situações? Como piloto, aprecias este tipo de disputa?

RA – Acho que em Macau talvez tenha sido demais. Porque eles tiveram vários incidentes, andaram sempre aos toques, o que se torna perigoso. Mas, apesar disso, acaba por ser natural nestas corridas de turismo e GT’s, há sempre muito contacto entre os pilotos. Apesar disso, devemos respeitar-nos e também é para isso que existem os comissários de pista que atribuem penalidades a quem se porta mal na pista. Mas desta vez, penso que foi demais até que um deles apanhou um ‘drive-through’ [penalidade em que o piloto é obrigado a dirigir-se ao pit lane a uma velocidade muito inferior à da corrida]. É normal nas corridas, para mais, quando se disputa o campeonato o ano inteiro e se vem a Macau para a última corrida, que é tão especial e tão difícil ultrapassar. Acaba por ser normal que os pilotos estejam um pouco inquietos e essas coisas aconteçam.

 

– Gostaste de correr em TCR? Vais continuar a correr neste formato?

RA – Por agora é difícil dizer. Temos que esperar pelo ano que vem e não temos nada em concreto, nada está decidido. Estamos ainda em negociações, para ver o que se pode fazer, mas claro que foi uma experiência, um novo passo que dei, nunca tinha guiado estes carros, por isso, uma experiência importante e nunca sabemos, poderá ser o futuro. Acho que o TCR em Macau será sempre uma das corridas grandes do calendário do Grande Prémio, por isso, creio que a corrida vai crescer ainda mais e se torne ainda mais competitiva. Tivemos uma grelha com muitos bons pilotos e para o ano espera-se uma grelha com um nível ainda maior.

 

– Ainda não está definido o futuro, mas gostarias de continuar neste formato?

RA – Por mim, gosto mais de guiar os GT’s, gosto mais de carros de tração traseira, que faço há bastantes anos e é o que me dá gozo, mas o que for terá que ser. Mas por agora, gostava de continuar a guiar GT’s.

 

– O Grande Prémio deste ano terminou também com o fim da ligação de Costa Antunes ao evento, é agora o Instituto do Desporto que vai assumir a coordenação. Como vês esta mudança e quais as expectativas?

RA – O Grande Prémio de Macau, ao longo dos anos, tem sido um evento que tem crescido bastante em termos de infraestruturas, mas também em termos de corrida, internacionalmente, acho que o engenheiro Costa Antunes tem feito um trabalho muito bom. Parece bonito, mas estas coisas são muito difíceis de organizar e o estatuto a que o Grande Prémio de Macau chegou deve-se ao trabalho de toda a comissão que foi chefiada pelo engenheiro Costa Antunes. É difícil saber o que vem a seguir, só no próximo ano é que podemos ter uma ideia, mas espero que o Instituto de Desporto continue a fazer um bom trabalho à frente do Grande Prémio. Acredito que possa continuar a realizar esse bom trabalho.

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– O Grande Prémio tem as grandes corridas, a prova rainha de Fórmula 3, outras provas importantes como a que participaste, mas depois há várias corridas de suporte. Consideras que estas corridas se justificam em número, quase só disputadas por pilotos locais ou da região. Na tua opinião, há demasiadas corridas deste género?

RA – Já muitas pessoas criticaram o tipo de corridas que existem no Grande Prémio nos dias de hoje. Temos a corrida das celebridades, o Road Sport que apesar de ter muitos adeptos, mas também não ajudam a uma tão boa imagem, em especial, para as pessoas que vêm de fora. Olham para as corridas quase como corridas do “Mickey Mouse”, que se integram no evento de grande nome, mas em certos aspectos, mais valia não as termos, porque originam muitas bandeiras vermelhas, há muitos acidentes, interrupções, que faz atrasar depois os horários das corridas. Mas acho que temos que olhar para o lado financeiro, que é aí que o Grande Prémio vai buscar algum do dinheiro necessário. Essas corridas, como a das celebridades, são corridas pagas e os promotores vêm a Macau para usar essas corridas e é importante que Macau as tenha para ajudar a pagar as despesas. Mas podiam ser melhor escolhidas e dar lugar a corridas de mais alto gabarito.

 

– Ainda tens algum sonho neste Grande Premio, algo que te falte conquistar?

RA – Para mim, não é que seja muito velho, tenho 28 anos, mas no desporto automóvel, com esta idade, já começa a ser complicado. Gostaria de continuar a conduzir em Macau, mas que nos deixassem conduzir sem termos este tipo de regras e não termos que acabar as corridas, porque isso não nos deixa dar o nosso melhor. Claro que gosto de guiar em Macau, mas quando chego ao Grande Prémio há sempre aquele nervoso dentro de nós que diz “tem cuidado, vai mais devagar, não andes tão rápido”, porque a pressão de chegar ao fim está sempre lá.

 

– Conseguias fazer melhores resultados se não fosse essa pressão?

RA – Claro que sim. Isto é um desporto não só físico, mas também muito mental. Uns pilotos são mais afectados do que os outros mentalmente, e a mim afectame bastante este facto de ter que chegar ao fim para receber o subsídio. Se não houvesse esta regra, talvez as coisas fossem diferentes não me preocupasse tanto, Mas à medida que a idade começa a passar é mais difícil arranjar lugar em campeonatos, ano após ano, e começa a pesar cada vez mais. Todos os anos sinto bastante isso, mas tentamos dar à volta. Outra coisa que tenho pena é que não temos uma nova geração.

 

– Depois do André Couto e de ti, não se vê muitas caras novas com potencial para as grandes corridas.

RA – É uma cidade que tem uma prova no calendário mundial e se as coisas fossem bem feitas, com a ajuda necessária, podíamos criar mais pilotos para correr lá fora. No final das contas, Macau é conhecido internacionalmente, mas não temos muitos pilotos.

 

– O que sugerias para mudar isso e termos mais pilotos locais?

RA – Também é preciso tempo para que a nova geração tome conta do Grande Prémio de Macau e da Associação de Desporto Automóvel. Talvez essa geração tenha um olhar diferente e consiga perceber para o bem de todos, e do nosso Grande Prémio, que é preciso que se façam programas para jovens e não é só construir infraestruturas e depois nada se segue. Temos uma pista de kart que é conhecida internacionalmente, mas não temos escolas, treinadores. É um desporto caro, não é fácil e torna-se difícil aos pais conseguires dar essa oportunidade aos filhos. Mas também poderia ser investido algum dinheiro para formar um ou dois pilotos de Macau. Isso já foi falado há alguns anos, mas não passou da sala de reuniões. Ficamos tristes porque não vemos seguimento ao trabalho que tentamos fazer. Trabalho fora de Macau a formar pilotos e vejo que isso s faz lá fora, mas aqui não.

 

Sandra Lobo Pimentel

27 de novembro 2015

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