Michele Geraci * - QUAL A MAIOR ECONOMIA GLOBAL? UM DEBATE SEM SENTIDO - Plataforma Media

Michele Geraci * – QUAL A MAIOR ECONOMIA GLOBAL? UM DEBATE SEM SENTIDO

 

A China está preparada para ultrapassar os Estados Unidos e tornar-se a maior economia mundial em 2024, devido principalmente ao crescimento do consumo no país, revela um novo relatório da empresa de análise de dados e informação industrial IHS Inc.

 

Enquanto a taxa de crescimento do PIB da China, apesar de estar a entrar numa “nova normalidade”, continua a exceder a dos Estados Unidos, o país aproxima-se da sua mais antecipada meta. Dependendo da maneira de medir o PIB e dos ajustes que são feitos, alguns estudos preveem que a China se irá tornar na maior economia mundial em alguns anos, enquanto outros, usando medidas ajustadas à paridade do poder de compra (PPC), afirmam que ela já é a maior economia do mundo.

Considerando o PIB per capita, a China situa-se nos 6.500$, comparativamente aos 45.000$ dos Estados Unidos, ou seja, é sete vezes inferior. Se usarmos o método ajustado ao PPC, então o PIB da China torna-se quatro vezes inferior ao dos Estados Unidos. É aqui que a proporção da população chinesa em relação à dos Estados Unidos (4,2 vezes maior) entra em ação e faz com que a economia chinesa pareça maior.

Mas esta lógica tem alguns problemas. Os dados do PIB ajustados ao PPC per capita servem para tentar comparar a qualidade de vida dos cidadãos de cada país, em vez de usar números totais ao nível nacional. Logo, a conclusão de que a China é agora a maior economia mundial, com base no método do PPC, faz pouco sentido. Seria melhor dizer que “o poder de compra económico do cidadão americano é quatro vezes maior do que o do cidadão chinês”, pois isso representa melhor a diferença económica que ainda existe entre os dois países.

Vejamos a questão de uma perspetiva histórica. Nos anos 50, o PIB per capita dos Estados Unidos era pouco mais de quatro vezes superior ao do Japão, e isto sem fazer o ajuste com o PPC. Por outras palavras, o atual nível de desenvolvimento da China é equivalente, na melhor das hipóteses, ao do Japão há mais de meio século atrás, e a China ainda é, e provavelmente continuará a ser a médio prazo, um país em vias de desenvolvimento.

Mesmo os principais líderes da China têm repetido que um dos principais objetivos do desenvolvimento económico é fazer da China uma sociedade moderadamente próspera. Este é um objetivo muito razoável e alcançável, estando muito longe dos slogans e políticas excessivamente otimistas e contraproducentes do final dos anos 50.

Mesmo assim, a China tornou-se numa grande potência mundial, um resultado direto da sua enorme população que multiplica todas as estatísticas 1,3 mil milhões de vezes. Um dos números representativos dos últimos 35 anos de reformas são as reservas de divisas do país (3,88 biliões de dólares em outubro de 2014). Para por isto em perspetiva, quando Deng Xiaoping visitou os Estados Unidos em 1979, consta que as reservas continham apenas o suficiente para pagar os seus custos de viagem e os da sua delegação.

Mas ao contrário de outras conquistas de que a China se orgulhou no passado, desta vez os papéis foram invertidos. É o ocidente que continuamente fala sobre a China se tornar a maior economia do mundo, enquanto a liderança chinesa dá menos valor a essa questão. As principais preocupações da liderança são outras: o baixo rendimento per capita, a grande parte da população que ainda é rural, o baixo nível médio de escolaridade, os sérios danos ambientais, a corrupção, os grupos de interesse, a falta de indústrias realmente inovadoras (com algumas exceções), e ainda a forma de conseguir estimular o consumo interno, que o governo tem tentado repetidamente sem resultados.

Para além disso, ser uma potência mundial também significa assumir responsabilidades a nível internacional, como a de reduzir as emissões de dióxido de carbono, desempenhar um papel mais ativo na resolução de problemas no Médio Oriente e África, lutar contra o terrorismo, ajudar a resolver a crise económica da União Europeia e manter uma atmosfera pacífica com os países vizinhos. Com todos estes, e talvez outros, problemas em mente, não é de surpreender que o debate sobre que país é realmente a maior economia do mundo não ocupe as mentes do povo chinês.

 

*Michele Geraci é diretor do Programa de Política Económica da China da Nottingham University Business School, no campus de Ningbo, na China, e no Global Policy Institute, em Londres.

 

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