Tomé Saldanha Quadros * - IDENTIDADE, LUGAR E CULTURA - Plataforma Media

Tomé Saldanha Quadros * – IDENTIDADE, LUGAR E CULTURA

 

Desde o final do século XIX, o advento do cinema tem encontrado paralelismo com o desenvolvimento das cidades a diferentes níveis. Desde a sua génese que o cinema revela fascínio na forma como ao longo dos tempos observa e representa a mutação da paisagem urbana e da sociedade que a encerra. Nomeadamente, irmãos Lumière, Dziga Vertov, Fritz Lang, Ridley Scott, John Woo e Jia Zhang-ke, integram uma vasta lista de realizadores que, ao longo da história do cinema, muito tem contribuído para a construção da cidade através da imagem em movimento. Por um lado Walter Benjamin posiciona o cinema numa perspetiva de confronto com a ideia de modernidade, por outro Jean Baudrillard questiona o efeito de hipnotismo que o cinema provoca num contexto de pós-modernidade. Isto é, ambos os pensadores observam que esta relação que se estabelece entre a representação e o objeto, o cinema e a cidade, é passível de ser traduzida por uma correlação curiosa entre a mobilidade de sensações visuais e auditivas da cidade e, por seu turno, da mobilidade de sensações visuais e auditivas que o cinema provoca.

Nas últimas três décadas, a transformação da paisagem urbana na China prende-se essencialmente com o paradigma de mudança e crescimento económico. A este propósito, a representação da realidade no complexo fabril 420, retratado em “24 City” de Jia Zhang-ke, conduz o espetador a um vis-a-vis de dois mundos distintos que fazem parte da realidade, na qual se encerra, e da incerteza do quotidiano. Em “24 City”, tradição pressupõe um papel social e representa em certa medida uma memória coletiva. Coexistindo, lado a lado, a perspetiva intramuros da fábrica, o seu universo e os trabalhadores que a habitam; por outro lado Chengdu cidade invisível que desconhecem porque nunca tiveram possibilidade de testemunhar o seu crescimento ao fim de cinco décadas. A ideia de modernidade viabiliza uma análise ao nível do psicológico em detrimento do indivíduo e do presente que ambiciona um futuro próspero. “24 City” pressupõe uma consciente preocupação cívica presente que coloca a narrativa, entre a ficção e o real, ou o documentário de cariz social e a realidade ficcional. “24 City” debruça-se sobre o conceito de memória coletiva que tende a desaparecer, e ao mesmo tempo preconiza uma reflexão sobre identidade e modernidade, tendo a cidade de Chengdu como cenário real e representativo da prosperidade vivenciada, fruto das reformas económicas que tiveram início no final da década de 1970. O complexo fabril 420, também ele, ícone destas reformas económicas, hoje dá lugar a um complexo de apartamentos, de nome 24 City que, por sua vez, dá nome ao referido filme. No que concerne à narrativa de “24 City”, o elemento fílmico que estabelece pontes entre os diferentes testemunhos de vida que a compõe, tem a ver precisamente com uma tensão emocional que é transmitida ao público, em virtude do que é vivido e ou experienciado pelos personagens ao longo do filme, que são os trabalhadores eles mesmos. Isto é, as memórias guardadas, com especial afeto pelos trabalhadores que ali trabalharam, contrasta com a mudança da localização geográfica da fábrica. “24 City” de Jia Zhang-ke espelha um sentimento, profundamente contraditório, porque os trabalhadores não têm uma palavra a dizer sobre o seu destino e futuro. A cidade e as suas comunidades representam uma memória que espelha este legado histórico, intangível e intercultural. Ao mesmo tempo, representa uma identidade singular que tende a diluir-se gradualmente. Assim, torna-se crucial corporizar um sentimento entusiasta, no sentido de manter esta memória viva. Ou seja, através de uma narrativa que contemple a memória dos dias de hoje e a perspectiva de uma visão futura, presente e moderna da cidade.

A metáfora da cidade invisível representa, em certa medida, a identidade que se desvanece, ou, por outro lado, que preconiza uma nova identidade, e consequentemente a construção de uma nova paisagem urbana, na qual se inicia uma nova narrativa. Apesar de tudo, este legado histórico da cidade tende a desaparecer gradualmente, caso a memória não seja celebrada, como uma referência, para a construção de um futuro que hoje acontece. Modernidade, no cinema, tem a responsabilidade de transmitir ao público a ideia de pretença, em relação a uma determinada comunidade ou lugar, no sentido de ter presente as comunidades tradicionais, que ali se encontravam, e tendem a desaparecer ao longo do espaço e do tempo. Tal compromisso pode ter lugar episodicamente, mas, em todo o caso, não é possível evitar o passado, quando se menciona ou se reflecte sobre modernidade. O cinema contemporâneo chinês, no qual se inclui Hong Kong, Macau e Taiwan, dá a possibilidade ao seu próprio público de se rever e projectar a sua própria memória e identidade. Num contexto global e, cada vez mais híbrido, este caminho que percorre a categorização emergente do cinema transnacional chinês, questiona o paradigma até então vigente – identidade, lugar e cultura.

 

*Colaboração da Universidade de São José

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