EDP E CHINA THREE GORGES VÃO ASSINAR ACORDO PARA PARCERIA GLOBAL - Plataforma Media

EDP E CHINA THREE GORGES VÃO ASSINAR ACORDO PARA PARCERIA GLOBAL

 

O presidente da China Three Gorges, Lu Chun, lidera uma delegação chinesa a Portugal, no fim do mês. Em entrevista ao Plataforma Macau o vogal do conselho de administração executivo da EDP, João Marques da Cruz, adiantou que estão agendados encontros com o Presidente da República e o Governo português e a assinatura de um acordo com a EDP para investimentos conjuntos em barragens e parques eólicos em várias geografias, da América a África e Ásia.

 

PLATAFORMA MACAU – Quase todas as grandes empresas portuguesas já saíram de Macau. A EDP está para ficar?

JOÃO MARQUES DA CRUZ – Sim, totalmente para ficar e para expandir, porque, por um lado, achamos que esta área do mundo é uma área de futuro em termos dos nossos negócios, o que está associado obviamente a termos um acionista chinês. Se provavelmente as outras grandes empresas que estiveram cá e saíram tivessem empresas chinesas nas suas estruturas acionistas, não teriam saído.

 

P.M. – Como é que a EDP olha hoje para Macau e que projetos têm em carteira?

J.M.C. – A EDP olha para Macau como um mercado em que pode ter projetos adicionais, especialmente na área da eficiência energética, energia solar, são áreas em que Macau pode investir e se essas oportunidades acontecerem, nós queremos estar presentes.

 

P.M. –  O investimento em renováveis é necessário em Macau?

J.M.C. – Há três tipos de energias renováveis: hídrica, impossível em Macau, porque não há espaço para fazer nenhuma barragem; eólica, também não há espaço físico; e energia solar, o que faz sentido, porque podem ser colocados painéis em telhados de edifícios e o nível de exposição solar com os equipamentos mais modernos que existem adapta-se a Macau.

Necessário do ponto de vista absoluto não o é, porque essa energia renovável possível, que é a solar, nunca será muito relevante no contexto da produção de Macau. Agora é necessário no sentido do contributo da sociedade de Macau para uma forma limpa de produção de energia limpa.

Cabe agora ao Governo definir as regras. Obviamente que já houve conversas sobre esses assuntos, mas as regras ainda não estão definidas. Teremos depois de ver se é possível ao operador de rede, que é a CEM, também participar nesse negócio ou não.

 

P.M. – A China Three Gorges anunciou recentemente uma aposta no nuclear. A EDP vai participar em algum projeto destes?

J.M.C. – Não investimos em energia nuclear, porque as empresas devem investir onde têm know-how. Nós temos grande know-how em construir barragens, estamos a terminar o maior projeto de barragens da Europa em Portugal, estamos a fazer barragens no Brasil – acabámos de inaugurar uma em Jari, estão duas em curso, Cachoeira do Caldeirão e São Manuel, todas com a China Three Gorges, dona de cinco das dez maiores barragens do mundo, incluindo a maior –, parques eólicos em várias partes do mundo, especialmente América do Sul, América do Norte e Europa, logo o que queremos é continuar a investir onde temos know-how.

 

P.M. – Quanto à EDP Energy Solutions, que projetos estão a desenvolver?

J.M.C. – Essa empresa terá a muito curto prazo, com empresas portuguesas, projetos em associação com a China Three Gorges em que o foco é usar Macau para transferência de tecnologia e prestação de serviços de consultadoria a projetos de parques eólicos offshores e smart grids na China. Espero a muito curto prazo, antes do fim do ano, haver anúncio público destes projetos.

 

P.M. – Stanley Ho ainda tem uma participação nesta empresa?

J.M.C. – Não. Já teve, mas depois as partes concordaram que era melhor e a EDP ficou com a totalidade do capital.

 

À CONQUISTA DO MUNDO

P.M. – Na Ásia, a EDP tem algum projeto em vista?

J.M.C. – A EDP tem conjuntamente com a China Three Gorges projetos em vista. O presidente da China Three Gorges, o senhor Lu, vai com uma importante delegação a Portugal na última semana de outubro. Irá ter encontros com o Presidente da República, com o Governo português, com o primeiro-ministro e a EDP vai assinar um acordo que inclui várias componentes com a China Three Gorges. Mas nesse acordo, não entrando em detalhes, ver-se-á que a EDP e a China Three Gorges vão estar unidas para investir conjuntamente em várias áreas, sempre de energias renováveis, água ou vento, em várias partes do mundo.

 

P.M. – A Ásia é uma delas?

J.M.C. – É, mas não quero entrar em detalhes. Pretendemos estar unidos nos vários continentes onde temos investido e não é segredo que a nossa aposta de investimento tem sido na Europa, em termos de energias eólicas, na América do Sul hídrica e eólica, em África – na verdade ainda não investimos nada, mas estamos a tentar – energia hídrica e também na Ásia energia hídrica. Obviamente que ainda há muito trabalho a ser feito.

P.M. – Este acordo abrange países de língua portuguesa?

J.M.C. – É verdade que os países de língua portuguesa, quer o Brasil, quer os países africanos, quer Timor-Leste são países que a China Three Gorges tem interesse. Deste conjunto todo, houve três contratos já assinados, que foram três barragens no Brasil. É verdade que queremos alargar a mais projetos e o acordo toca esses assuntos.

 

P.M. – Que interesse é que estes países têm gerado na China?

J.M.C. – O Brasil é um grande mercado com o qual a China quer ter grandes relações por muitas razões, é um país muito rico em matérias-primas e faz parte de um dos BRICS. Quando o Presidente Xi visitou o Brasil recentemente, o presidente da China Three Gorges foi na delegação e a EDP assinou com ele um entendimento que cobria estes projetos que falámos.

Quanto aos países africanos e Timor, há ideias, ainda não assinámos nada, mas estamos interessados e a falar com muita gente para que estas ideias se concretizem.

A EDP, sendo uma empresa cotada, tem um business plan, que cumprimos religiosamente. No nosso plano trianual, até 2017, há várias promessas ao nível dos resultados líquidos, dos dividendos, da dívida e do investimento. E todos estes investimentos e acordos têm de estar dentro dos limites contratualizados. Não vamos fazer mais do que prometemos, porque os mercados financeiros no momento atual gostam é de cumprimento de promessas, não gostam de oscilações.

 

P.M. – Quais as prioridades?

J.M.C. – Energia hídrica (barragens) e eólica (parques eólicos) são a nossa prioridade de investimento. É verdade que a EDP tem expertise também em áreas como a distribuição e energia térmica usando gás natural. Temos centrais a gás natural em Portugal e em Espanha. E Macau tem condições de ter uma central a gás natural, obviamente havendo gás a preços razoáveis.

Esta possibilidade deveria ser considerada, naturalmente em Coloane e obviamente para substituir a que lá está. Primeiro para reduzir emissões, porque Macau enquanto local turístico deve ter uma produção de energia das melhores práticas e temos ainda um caminho a percorrer. Segundo, porque sendo óbvia a grande importância da interconexão da rede de Macau com a da província de Guangdong – não faz sentido em Macau falar de autonomia energética, é um erro técnico – tem lógica, mesmo neste contexto, que haja capacidade de produção local, usando as melhores práticas em termos ambientais, que, no caso de Macau, não sendo possível construir uma barragem ou centrais eólicas ou mesmo centrais solares concentradas, a energia usando gás natural em ciclo combinado é a mais eficiente economica e ambientalmente.

 

P.M. – E a CEM está a olhar para essa possibilidade?

J.M.C. – A CEM muito gostaria, a EDP tem know-how e acho que isto estará na agenda dos próximos anos, espero que dos anos mais próximos. Obviamente que é um assunto para decisão do Governo de Macau.

 

P.M. – Moçambique é um dos principais mercados-alvo da EDP e da China Three Gorges…

J.M.C. – São todos, não queria destacar Moçambique. É evidente que Moçambique é um país rico em recursos hídricos e também é um facto que África do Sul tem necessidade de energia e que há uma ligação de redes entre eles. Em Moçambique e noutros países de língua portuguesa temos projetos que estamos a analisar, só o Brasil é que é diferente, porque além disso já temos contratos e obras feitas. Em África são fundamentalmente barragens.

 

P.M. – O acordo que vão assinar no fim do mês vai centrar-se especialmente nos países de língua portuguesa?

J.M.C. – A nossa relação com a China Three Gorges não é preferencialmente só com os países de língua portuguesa. Pretendemos ter investimentos conjuntos em várias geografias. A China Three Gorges olha para a EDP numa dupla perspetiva. Por um lado, é um investimento que tem de fazer sentido do ponto de vista económico, e a EDP faz sempre questão de cumprir aquilo que promete entregar aos acionistas que é o dividendo, e depois olha para nós não como os tradutores de chinês para português, não como aqueles que são somente úteis para investir no Brasil, Moçambique, Angola ou Timor-Leste, mas como uma empresa que tem know-how de fazer operações do mercado e de ganhar concursos que pode ser em países de língua portuguesa ou noutros.

 

P.M. – Qual a importância deste acordo?

J.M.C. – Este acordo revela que a China Three Gorges fez promessas ao Governo português de determinado nível de coinvestimento com a EDP aquando da privatização e que está a cumpri-las. Segundo, porque a experiência tem sido boa, a EDP e a China Three Gorges querem conjuntamente dar um passo em frente e fazer outras coisas mais, mas quanto aos detalhes temos de esperar até ao fim do mês.

 

PORTUGAL MAIS CHINÊS

P.M. – Prevê um reforço das relações entre a China e a lusofonia?

J.M.C. – Penso que as empresas chinesas são extremamente relevantes para negócios em países africanos, porque há a questão do financiamento. O financiamento para negócios em África é essencial, mas claramente que as empresas portuguesas acrescentam valor e não é meramente pela questão da tradução, mas porque conhecem a realidade e falando com dirigentes de países africanos, aliás conversas que tive recentemente, esses dirigentes valorizam as duas coisas, a força e o dinheiro chinês e a capacidade e o know-how das empresas portuguesas.

 

P.M. – E como analisa a entrada de capital chinês em várias empresas em Portugal?

J.M.C. – Acho que é muito positivo. Nos últimos dias a Fosun, através da Fidelidade, comprou a ES Saúde. Acho que há variadíssimas áreas, quer de natureza industrial, quer no turismo, na agroindústria – admito que estas sejam as mais relevantes. Como presidente da Câmara de Comércio Luso-Chinesa, desejo que isso aconteça, já houve muito, mas ainda haverá muito mais.

 

P.M. – Em que projetos é que Portugal e a China poderão ser parceiros na lusofonia?

J.M.C. – A maneira como vejo isso é sempre a entrada de capital chinês em empresas portuguesas e depois essas empresas têm músculo financeiro para investir e fazer negócios em África.

 

P.M. – Prevê, portanto, a entrada de capital chinês em mais empresas portuguesas futuramente?

J.M.C. – Sim, não tenha dúvidas, vai acontecer.

 

P.M. – O que é que a Câmara de Comércio Luso-Chinesa tem feito?

J.M.C. –Temos ajudado e vamos continuar a ajudar e, por isso, temos muito gosto em estar presentes na MIF, porque também achamos que essa relação entre a China e Portugal pode passar por Macau. Temos como associados aproximadamente 300 empresas portuguesas e chinesas, por exemplo, os grandes bancos portugueses são sócios da Câmara de Comércio, bem como a EDP, a China Three Gorges, a Fosun, bancos chineses, a Estoril-Sol e também muitas pequenas empresas. Essas entidades todas desejam que a relação económica entre Portugal e a China se incentive cada vez mais.

 

Patrícia Neves

 

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