Paulo Rego - XI JINPING ABRE O JOGO NA ÍNDIA - Plataforma Media

Paulo Rego – XI JINPING ABRE O JOGO NA ÍNDIA

 

Durante as últimas duas décadas esgrimiram-se argumentos contrários sobre o potencial de crescimento económico e de influência planetária da China e da Índia. Durante muito tempo, políticos e analistas ocidentais tenderam a hipervalorizar na Índia questões como a democracia, o domínio da língua inglesa, a criatividade e a adaptabilidade tecnológica; embora sabendo que a magia de Mahatma Ghandi não havia eliminado ainda vários conflitos internos nem os bloqueios de uma organização social oligárquica, estratificada por castas. Do outro lado, a capacidade de organização do desenvolvimento, a ambição e o empreendedorismo chinês conduziram o “capitalismo comunista” a ritmos de afirmação internacional que terão surpreendido até os líderes chineses mais céticos. Curiosamente, passou ao lado desse debate a hipótese que tem maior potencial de alterar os atuais equilíbrios geoestratégicos: em vez de competirem por um lugar no clube das nações dominantes, Pequim e Nova Deli podem dar as mãos na construção de uma lógica alternativa global, com inspiração de base asiática.

“Se a China e a Índia falarem a uma só voz, o resto do mundo terá de ouvir”, disse Xi Jinping, na semana passada, em visita à capital indiana. O presidente chinês apontou a base comum budista, cruzou citações de Confúcio com as de Ghandi, sublinhou a dimensão dos mercados em causa – 2,5 mil milhões de pessoas, mais de metade da população mundial – e propôs uma parceria de base continental com influência global. Mais do que uma mera hipótese teórica, Xi Jinping mostra um trunfo que pode alterar significativamente o curso do jogo. No mesmo contexto, Pequim assume avultados investimentos na Índia, promete resolver conflitos fronteiriços e – pasme-se – anuncia um “corredor” de acesso dos indianos ao Tibete, desbravando terreno até no campo de um dos maiores tabus da política chinesa. No último fim de semana, a CCTV deu conta de movimentações diplomáticas norte-americanas no sentido de aproximar posições junto do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Washington sabe bem o que Xi Jinping está a propor: uma união de forças entre a “fábrica do mundo” e o “back office” tecnológico do capitalismo global.

A reação de Nova Deli é para já comedida. Tradicionalmente uma nação não-alinhada, a cultura política indiana aposta no recato e na discrição ao nível dos palcos internacionais, difundindo discursos mais focados nos seus problemas internos do que em qualquer ambição globalizante. Por vezes parece que prefere que o mundo não repare no seu crescimento, como quem receia que isso possa despertar forças de bloqueio. Ou seja, se a China sente necessidade de provar que a sua ambição é feita de paz e de desenvolvimento partilhado, a Índia tem conseguido evitar que as atenções recaiam sobre si. Contudo, a proposta chinesa é tentadora e a nova ordem mundial espera por novos players, capazes de lógicas alternativas e complementares às que são hoje dominantes. A aliança proposta por Xi Jinping é provavelmente a grande questão que dominará as relações internacionais na próxima década. Por que não é possível pensar que tudo continuará na mesma se as duas maiores nações do mundo, de facto, derem as mãos. A cartada é em certo sentido surpreendente, por ter sido enunciada de forma tão clara e inequívoca. Mas é sobretudo consequente, porque, a partir de agora, ou são, ou não são dados os passos necessários para que essa aliança se efetive. Se o caminho for real, mais cedo ou mais tarde moldará novas regras na diplomacia internacional. Se não acontecer, fica também claro que não será esse o caminho da China na sua estratégia de afirmação internacional. A verdade é que, vistas as coisas como Xi Jinping as coloca, a hipótese é bem real, faz todo sentido e é bem-vinda.

 

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