Catarina Domingues - A MORTE DO PROFESSOR - Plataforma Media

Catarina Domingues – A MORTE DO PROFESSOR

 

Pequim estipulou novas condições para os estrangeiros que quiserem candidatar-se a um trabalho como professor na capital chinesa. Além de uma série de novas regras burocráticas – e não são essas que são chamadas aqui à discussão ou que defendo – diz a televisão estatal chinesa que, a partir de agora, o candidato a professor terá de ter uma experiência de pelo menos cinco anos na área de ensino e, no caso das línguas, deverá ainda apresentar um certificado de qualificações para lecionar qualquer idioma. Clap clap! É uma pequena vitória para aqueles que dedicaram anos a aprender, a ensinar uma língua, e que olham de frente para a lenta morte da profissão, o desvirtuar do ensino de línguas, de um lugar que deveria pertencer a quem sabe e está apto para o fazer. Não se cresce pedagogo, aprende-se a sê-lo.

Claro está que estas novas regras vão ter um impacto mais significativo no universo do ensino do inglês. Há poucas décadas, quando o país começou a dar sinais de querer conhecer o mundo, a necessidade de aprender o idioma trouxe vagas de estrangeiros ao país. E era um emprego bem remunerado. Só na China, existem hoje cerca de 50 mil centros de línguas e 300 milhões de alunos de inglês.

E, quem fala de Shakespeare, pode perfeitamente estar a falar de Camões. Esta é uma discussão que já se vai fazendo velhinha (e que, aliás, também pertence a Macau). No continente, a aprendizagem do português cresce, abrem-se novos cursos em centros privados, novas licenciaturas universitárias. Conheço pessoas que vieram de fora, Brasil ou Portugal, de formação diferenciada e que, ao procurar uma nova aventura deste lado do mundo, começaram por lecionar português ao nível universitário. Na impossibilidade de ir além da licenciatura ou de sair do país para fazer um mestrado ou ganhar experiência, também muitos chineses recém-licenciados em Estudos Portugueses iniciaram uma carreira no país como professores. Sem bases, sem estudos continuados, e de português ainda torto.

Neste processo de vir para a China para ensinar uma língua, há detalhes que merecem ser relevados. Há bem pouco tempo, eu, Catarina, pele clara, inglês médio, ainda seria escolhida por uma série de instituições em Pequim para dar aulas de inglês se a concorrer ao meu lado estivesse um afro-americano. Sim, é norte-americano, o inglês é materno, e o meu não, mas ainda assim tem outra cor de pele. Na corrida a este lugar, eu seria ultrapassada apenas por uma loura, olhos claros, inglês língua mãe ou não, tanto faz.

Esta escala de prioridades – com algumas outras particularidades – ainda é importante para algumas, e sublinho, algumas, escolas privadas que pedem aos professores para esperar os alunos à porta e cumprimentar os pais. Nessa altura, é o professor caucasiano que lhes transmite maior confiança.

Mais do que a experiência e uma carreira dedicada ao ensino, a cor da nossa pele ainda define quem vai estar à frente do quadro numa sala de aulas. Mas, esperemos que não por muito mais tempo.

 

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