Catarina Domingues - UM PASSO ATRÁS - Plataforma Media

Catarina Domingues – UM PASSO ATRÁS

 

Às vezes volta-se atrás, mesmo quando já se andaram quilómetros para a frente. Volta-se atrás, e na China tem sido muitas vezes assim, o medo da mudança obriga a voltar atrás.

A direção de uma escola na cidade de Yanshi, na província de Henan, veio agora proibir os alunos de dar as mãos. A restrição junta-se a outras quantas, que estão expostas em cartaz no estabelecimento de ensino. Não fumarás, não beberás, não utilizarás o telemóvel no perímetro escolar, são algumas destas regras. Dar as mãos, ou outras demonstrações de puppy love, podem ser o suficiente para se ser expulso.

Yanshi não é caso singular. Nos últimos anos voltou-se atrás em outros cantos chineses. Numa escola em Hohhot, capital da Mongólia Interior, rapazes e raparigas não podem sentar-se lado a lado à hora do almoço; na escola de Changhe, em Zhejiang, os estudantes do sexo feminino e masculino devem manter uma distância de cinquenta centímetros. Meio metro, este é o caminho a percorrer para o insucesso escolar.

As redes sociais indignaram-se, já se esperava – e ainda bem – porque há quem tenha aprendido a andar para a frente e, claro, não esteja disposto a voltar atrás. Estes são aqueles que percebem o verdadeiro significado de participar num processo natural de interação e de crescimento; são aqueles que entendem que o papel da escola vai além da sala de aulas e do gaokao [exames de acesso à universidade]. E acredito que este não tenha sido sempre um entendimento fácil na China comunista. Lá atrás, falar sobre a intimidade não se fazia, não se queria, e era algo que não se aprendia.

Mao Zedong pode ter tido uma vida sexual ativa, mas trabalhou muito para manter a ignorância sexual entre o povo, a começar pela dessexualização na forma de se vestir e pela repressão de uma série de comportamentos, como oferecer uma simples rosa, que poderia ser mal interpretado. Era o próprio povo que se encarregava de denunciar estes pequenos desvios. São pequenos desvios como a partir de agora vai ser dar a mão na escola de Yanshi ou partilhar o almoço em Changhe, na província de Zhejiang.

Um gigante passo atrás.

 

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