Rosário da Luz * - A CRÓNICA DAS DÚVIDAS - Plataforma Media

Rosário da Luz * – A CRÓNICA DAS DÚVIDAS

 

Acordei esta madrugada para ir correr e deparei-me com dois sinais inequívocos de que o verão chegou à capital: chuva e um corte de energia. Já ontem – Domingo ao fim da tarde – fui dar um giro com a milha filha até ao parque da Cruz do Papa e encontrei-o na mais completa escuridão. Também ali havia sinais fartos da estação: crianças deliciadas por estarem na rua à noite; pais em busca de uma brisa marítima, na disposição de levar os putos a comer uma guloseima; e vendedeiras atarefadas com pipocas e algodão doce, enchendo a noite cálida com a melodia dos seus geradores. “Ka ten luz na parki”, suspirou resignadamente a minha miúda – criança da cidade, criada sub umbra da Electra. E assim começa a gestão deste verão.

No Estado da Nação há duas semanas, a Maioria anunciou vaidosa que lá se ia o tempo em que a Oposição iniciava todos os debates com a questão energética. Mas cá estamos nós de novo confrontados com a nossa incapacidade de gestão: Domingo á noite, período de férias, e as crianças vindas de todos os cantos da kapital para andar nos melhores baloiços da cidade tropeçam no sukuru enquanto os seus pais pagam uma taxa fraudulenta de iluminação pública.  Esta manhã tropecei dentro da minha casa quando acordei sem luz; rangi os dentes na perspetiva de mais um verão com roturas de água fresca, gelo e ventilação, e lamentei pela enésima vez a nossa incapacidade de gestão

Para que precisa o cidadão do Estado? Para coordenar as tarefas e gerir as ameaças que se apresentam à comunidade, quando esta é complexa em dimensão, estrutura, diversidade e ambição.

Apesar dos solavancos a que estão ocasionalmente sujeitos os donos do poder, estes conseguem normalmente sobreviver à guerra com uma certa classe, na pele de exilados em cortes e cidades estrangeiras. Com as suas reservas, as elites detêm os recursos necessários para escapar à perseguição e à miséria que acompanham o comum das crises; contudo, mesmo na vigência da medicina moderna, escapar a um vírus é muito menos linear. Desde a antiguidade mais remota até ao presente as epidemias são temidas por todos os extratos da sociedade; porque quando uma cidade se verga sob a peste, as classes privilegiadas fecham-se em cidadelas, fogem para o campo, resistem mais tempo, caem por último – mas caem.

As classes privilegiadas não estão habituadas à ausência de controle sobre os seus privilégios – condição que caracteriza quotidianamente a existência popular. Mas na epidemia, a ameaça do contágio misterioso e da maleita implacável nivela o privilégio e iguala de forma inusitada as perspetivas socialmente diferenciadas de sobrevivência a crises.

A epidemia de Ébola que eclodiu em Fevereiro na nossa região geográfica já ultrapassou a dimensão de todos os surtos que lhe precederam e adquiriu estatuto de emergência internacional. Já vi e ouvi na comunicação social nacional que o perigo para Cabo Verde é real mas moderado; já ouvi que foram tomadas as medidas necessárias para nos preparar para lidar com qualquer das contingências inerentes à nossa proximidade com os focos da epidemia. Mas não estou nada descansada. Digo exatamente porquê.

O meu sentimento não resulta de qualquer suspeita da genuinidade do compromisso do poder executivo com a nossa segurança nesta matéria; ou da desconfiança da intenção das autoridades nacionais em controlar rigorosamente o risco para a população. O meu sentimento de insegurança resulta da minha perceção da nossa ineficiência contemporânea no domínio da gestão de procedimentos e objetivos; uma ineficiência estrutural, sobre a qual não temos controle consciente e que nos pode trair amargamente em momentos onde o rigor é um imperativo.

Ao longo de 40 anos Cabo Verde tornou-se merecidamente numa referência regional no domínio da saúde pública. O resultado foi o nosso reconhecido sucesso no desaparecimento de um conjunto de doenças infecto-contagiosas, erradicadas do panorama Cabo-verdiano pela vacinação, pelo saneamento, pelo diagnóstico e pela contenção. Temos contudo que ter presente que, ao longo deste percurso, um dos suportes deste sucesso foi a relativa simplicidade dos cenários de gestão.

Qual será o custo de uma falha de gestão? Qual será o importe de um procedimento de despistagem mal conduzido? De uma decisão mal avaliada? Será que a cultura organizacional Cabo-verdiana ainda é suficientemente sólida para determinar com clareza a gravidade da situação e responder à altura com rigor e visão? Será que os decisores Cabo-verdianos tomariam a decisão de fechar as nossas fronteiras com as regiões afetadas, uma decisão baseada no dever para com a segurança imediata da população, sem a costumeira deferência para as sensibilidades de quem quer que seja, na comunidade internacional ou na região?

Nada disso. Temos antes o discurso débil da Sra. Ministra da Saúde, que “pede a todos os cidadãos de Serra Leoa, Libéria, Guiné Conacri e Nigéria que vivem em Cabo verde e que tiverem necessidade de visitar seus familiares” que antes de viajarem contactem as delegacias de saúde do país para controlo e orientação. “Quem não tiver urgência para viajar, o melhor é evitar. Nós estamos pedindo, interpelando a colaboração de todos para prevenirmos”. Não podemos esquecer que a infeção propagou-se na Nigéria quando um alto funcionário da Libéria, na sua chegada ao país, mentiu deliberadamente ás autoridades sanitárias sobre as circunstâncias da sua exposição. De alguma forma, os “pedidos” de colaboração e as “interpelações” da Ministra parecem ficar aquém das exigências da situação. E acredito que as dúvidas dos Cabo-verdianos sobre a firmeza dos nossos decisores e sobre a capacidade de gestão dos nossos serviços sejam – tal como as minhas – crónicas.

 

Expresso das Ilhas / Cabo Verde

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