Waldir Araújo - GUINÉ-BISSAU: COMEÇAR DE NOVO, OUTRA VEZ - Plataforma Media

Waldir Araújo – GUINÉ-BISSAU: COMEÇAR DE NOVO, OUTRA VEZ

O novo Governo guineense tem pela frente o grande desafio de reconstruir um país onde é preciso fazer praticamente tudo. Dois anos depois do Golpe de Estado que o isolara do convívio das Nações, a Guiné-Bissau volta à cena internacional depois de umas eleições gerais amplamente elogiadas. O homem do leme, Domingos Simões Pereira, fala de uma nova etapa e já começou os contactos com os parceiros internacionais. Mas a procissão ainda vai no adro.

O novo primeiro-ministro da Guiné-Bissau tem inúmeros desafios pela frente. Depois de uma vitória que deixou o PAIGC de certa forma fragilizada, com a ala do candidato derrotado no Congresso de Cacheu – Braima Camará- descontente, Domingos Simões Pereira terá, primeiro, que começar por arrumar a casa.

O que é mesmo que dizer que o presidente do PAIGC e futuro chefe de Governo guineense vai ter que fazer algumas cedências em nome da estabilidade interna do partido. Mas esta é apenas uma ação interna que decerto não roubará muitas energias a um líder que tem pela frente a grande e difícil tarefa de reconstruir todo um tecido social de um Estado fragilizado, que esteve praticamente isolado pela Comunidade Internacional durante estes dois últimos anos, desde o golpe de Estado de 12 de abril de 2012, que depôs Carlos Gomes Júnior.

Um golpe de Estado militar, liderado por António Indjai , que desde então assumiu a chefia do Estado Maior General das Forças Armadas, controlando, a pulso, a vida militar e civil do país. O mesmo António Indjai cujo nome consta na lista dos Estados Unidos de América como “um dos barões do narcotráfico na Costa Ocidental de África”.

Domingos Simões Pereira, que durante o referido golpe de Estado desempenhava as funções de secretário executivo da CPLP, foi frontalmente contra “a interrupção, por via da força, da ordem constitucional”, garantindo sempre que jamais coabitará com chefias militares golpistas.

A questão que se coloca agora é saber quanto tempo durará a coabitação de Simões Pereira com António Indjai, uma vez que tudo indica que a demissão do actual CEMFA, não está, pelo menos por agora, na lista das prioridades do novo primeiro-ministro guineense, que parece preferir ganhar tempo e reorganizar as estruturas do Estado. E só depois enfrentar as decisões mais polémicas.

E para reorganizar as estruturas do país, Domingos Simões Pereira precisa resgatar a confiança da comunidade internacional, apresentando-se como garante de estabilidade, mobilizando, assim, as tão necessárias ajudas económico-financeiras de que o país depende.

O primeiro passo desta ofensiva diplomática foi bem desenhada, com o novo primeiro-ministro guineense a optar, primeiro, por um périplo pelos países da sub-região, membros da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), a organização que assumiu o protagonismo durante o golpe de Estado e que geriu o país durante estes dois anos do período de transição. Aos países da sub-região, Simões Pereira foi garantir a continuidade de uma cooperação profícua e a intensificação de relações comercias e diplomáticas, desmistificando, assim, os rumores postos a circular pelos seus detratores de que, como um “lusófono”,  ao assumir o poder, relegaria para último plano a CEDEAO, privilegiando a CPLP, organização que já dirigira.

 

 

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De seguida, e da mesma forma discreta, Domingos Simões Pereira esteve numa visita relâmpago a Portugal, um parceiro “histórico e importante” com o qual é urgente retomar e reforçar as relações interrompidas com o golpe de 2012 e manchadas mais recentemente com o embarque forçado de dezenas de sírios num voo da TAP com destino a Lisboa, o que acabou, aliás, por ditar o cancelamento de todos os voos da transportadora aérea portuguesa para aquele país africano. Às autoridades portuguesas Simões Pereira levou a garantia da inauguração de uma nova etapa na vida do país e nas relações de cooperação com os seus aliados históricos.

É de uma nova etapa que fala o homem que durante a campanha eleitoral pediu aos guineenses “que tirassem as fotografias do estado do país” para comparar como o que irão constatar daqui a quatro anos, período da sua governação. O mesmo homem que prometeu não só pagar os salários atempadamente, “mas, pelo menos, duplicá-los” nos próximos meses.

Mas outros desafios espreitam o novo Governo guineense. É preciso fazer mais para mostrar ao mundo que as autoridades estão determinadas na luta contra a utilização do país como plataforma de entrada de droga para Europa, o que fez com que ganhasse o epíteto de “narco-Estado”. Simões Pereira garantiu recentemente que vai contar com um gabinete especializado para definir estratégias de combate contra este fenómeno e acabar com um estigma, que segundo defende, “constitui uma grande ofensa à honra dos guineenses”. Mas para tal o novo primeiro-ministro diz que a Guiné-Bissau terá que contar com os países que apontam o dedo e que têm mais condições para combater um fenómeno como o narcotráfico, leia-se os Estados Unidos de América.

Nos últimos anos, o abate desenfreado das árvores nas florestas guineenses tem vindo a crescer, a par da contestação das organizações ecologistas e das instituições ligadas ao mundo rural. Este fenómeno, que ameaça seriamente o ecossistema guineense é, nas palavras de Domingos Simões Pereira, “um caso de polícia” que promete combater energicamente “assim que formar Governo”. Será uma luta a travar contra interesses instalados ao mais alto nível da administração do país, num negócio em que as licenças de abate de árvores são atribuídas de forma nebulosa a obscuras empresas estrangeiras, com destaque para os comerciantes chineses que enchem os contentores com os toros das mais preciosas madeiras do mundo, como é o caso da madeira guineense pó di sangui.

A descontrolada atribuição de licenças de pescas é um outro assunto a rever na agenda do próximo Governo guineense. São várias as embarcações estrangeiras que pescam nas águas guineenses de forma ilegal, mas com a conivência de determinadas autoridades ligadas ao sector, contribuindo, assim, para a delapidação de um dos mais importantes recursos naturais do país. É também um sector onde a intervenção do próximo Executivo terá que ser profunda e capaz de enfrentar os lobbies há muito instalados.

A Guiné-Bissau é um país essencialmente agrícola, um sector que emprega a maior parte da população e que já rendeu ao país relevantes dividendos com exportações. Nos últimos anos, a agricultura foi relegada ao mais insignificante plano a ponto de hoje ser uma actividade apenas de subsistência, praticada por famílias como garante de sobrevivência. “É uma realidade que vamos inverter, temos que apostar no desenvolvimento da agricultura, um setor importante que deve resgatar o seu devido destaque”, garante o engenheiro de 50 anos que, a partir do próximo mês de julho, assumirá as rédeas governativas do país. E que terá como Presidente da República um homem do mesmo partido, José Mário Vaz, ex-ministro das Finanças e que, apesar de algumas “diferenças na forma de pensar”, trocaram promessas de fidelidade e de coabitação pacífica.O engenheiro que prometeu formar um Governo competente, constituído não apenas por militantes afectos ao PAIGC, “mas também por elementos de outra formação política e por independentes”.

De facto, o que a Guiné-Bissau precisa é de um Governo capaz de reconstruir um país onde é preciso fazer quase tudo. Um país onde o analfabetismo galopa, situando-se na ordem dos 90%, com professores em permanentes greves, exigindo salários em atraso e anos letivos em constantes riscos. Onde a saúde é um luxo para os poucos que têm recursos para recorrer aos países estrangeiros de cada vez que a doença lhes bata a porta. O mesmo país que vive agora mais um momento de esperança. Esperança num futuro que tem vindo a ser, sucessivamente, adiado.

 

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