Paulo Rego - HORIZONTE BILINGUE - Plataforma Media

Paulo Rego – HORIZONTE BILINGUE

Há distâncias naturais que é sempre preciso percorrer entre a teoria e a prática. Pelo caminho, por vezes perdem-se ideias, pervertem-se conceitos, desperdiçam-se oportunidades. Mas também são felizes os casos em que a flexibilidade e a capacidade de adaptação potenciam dinâmicas positivas: acolhem novas mentalidades, produzem inoção, promovem a criatividade, modernizam os métodos e multiplicam resultados. Faz parte do ADN dos processos, têm um valor em si mesmos, independentemente dos seus resultados. O ensino da língua portuguesa a cidadãos chineses, bem como o ensino da língua chinesa a quadros lusófonos, estão no meio de um caminho que tanto pode conduzir a um horizonte de oportunidades como a um beco sem grande saída.

O destino está traçado na teoria, mas tem de ser agarrado na prática.

O caminho faz-se caminhando, o implica a necessidade de gerir objetivos, escolher direções e adaptar circunstâncias. O horizonte não corre para nos abraçar; pelo contrário, há que encontrar formas de o conquistar. A consciência dessa dinâmica é o grande mérito do diretor da Escola de Línguas e Tradução do Instituto Politécnico de Macau, ao defender em Pequim – durante a visita do Presidente português, Cavaco Silva – que a Região deve afirmar-se como o grande centro do ensino do português na China. Choi Wai Hao percebe que não há direito histórico nem psicologia política que se movam só por si próprios. A oportunidade existe, mas anda sozinha.

A China tem há muito tempo em curso um projeto de internacionalização da economia, mas também de afirmação da sua cultura milenar e da sua influência política no mundo moderno. Nesse contexto, a promoção da língua portuguesa surge como instrumento relacional com os países lusófonos, mas também como componente estratégica que contraria a hegemonia do inglês. Esse é o quadro geral.

Não é um direito histórico pré-garantido por Macau, nem sequer uma missão que não possa ser cumprida em Pequim, Xangai ou Cantão. Mas é, isso sim, uma hipótese de afirmação da Região Administrativa Especial, no quadro da sua relevância nacional e da sua projeção internacional. Choi Wai Hao tem toda a razão. Mais: na tal dinâmica dos processos, multiplicam-se os exemplos em que a razão surge antes do tempo; mas, neste caso, este é o tempo certo para se debater a questão e assumir o caminho. Quer dizer: não tendo sido antes, melhor é que seja já. Mais vale tarde do que nunca mas, mas quando é tarde demais dá-se espaço a que vingue o nunca mais. No contexto do projeto lusófono chinês, perante a percepção crescente no mundo lusófono das portas que isso pode abrir, mas também no quadro da diversificação económica de Macau e da promoção das indústrias criativas – que passa necessessariamente pelo fomento de uma sociedade de serviços multilingue – a tese de atrair quadros lusófonos e chineses, de todas as origens e paragens, para a construção do bilinguismo, faz tanto sentido que é difícil contraargumentar. Mas a tese não chega. É urgente encontrar em Macau consensos para que ela se desenvolva e ganhe terreno.

O primeiro desafio que se coloca é o de assumir o debate, em público e em privado, visto como estratégia política de desenvolvimento, como modelo de negócio e empresarial, como impulso intelectual, escolar e académico. É preciso atrair professores, alunos, empresas e projetos que sirvam esse propósito e que acreditem nesse potencial. Há muitos subsídios governamentais, numa cidade com muitos negócios relacionais e um mercado mais condicionado do que saudável. Mas há vantagens geríveis nesse modelo. É possível – e vale muito a pena – orientar o grosso dos apoios oficiais para os setores com maior relevância estratégica. Como faz todo o sentido repensar a política de emigração, de forma a que ela sirva, na prática, a teoria política. Impedir chineses vindos do Continente de trabalharem em Macau, depois de aprenderem a língua portuguesa e de se tornarem bilingues, é uma pura contradição. Como é no mínimo estranho que seja cada vez mais difícil a quem domina a língua portuguesa conseguir emprego na Função Pública ou, até, direito de residência em Macau.

Por força de uma série de circunstâncias, o discurso do bilinguismo tem hoje mais mais valor político do que gestão prática. É importante inverter o sentido dessa dinâmica, para que o horizonte tenha mais cor e faça mais sentido.

Paulo Rego

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