Para muitas raparigas de São Tomé e Príncipe, entrar no mar significava enfrentar um território desconhecido. Para outras, significou descobrir um espaço onde as regras que condicionavam a vida em terra deixavam, por momentos, de existir. O projeto SOMA — Surfistas Orgulhosas na Mulher d’África — levou as primeiras jovens são-tomenses para cima de uma prancha em 2020 e usa atualmente o surf para combater a desigualdade de género e a exclusão social.
O ponto de partida ajuda a perceber a dimensão da mudança. Em São Tomé e Príncipe, metade das mulheres não sabe nadar ou tem medo do mar, segundo a reportagem publicada esta segunda-feira pela TSF.
O paradoxo é evidente num pequeno Estado insular rodeado pelo Atlântico. A relação com a água não é igual para homens e mulheres e reproduz algumas das diferenças de género existentes em terra.
Foi precisamente essa realidade que Francisca Sequeira encontrou quando criou a SOMA, em 2020. Até então, segundo a organização, não havia raparigas a praticar surf no país. A fundadora percorreu casas em Santana para pedir autorização às famílias e convidar as jovens para experimentarem a modalidade.
A primeira aula juntou cerca de 20 raparigas. O que começou como uma experiência acabaria por dar origem à primeira geração de surfistas femininas de São Tomé e Príncipe.
Na água encontraram regras diferentes
O objetivo nunca foi apenas ensinar surf. A modalidade tornou-se um instrumento para trabalhar confiança, autonomia e igualdade.
Em terra, muitas das jovens crescem com responsabilidades domésticas que não recaem da mesma forma sobre os rapazes. O próprio projeto descreve uma realidade em que surfar era visto como uma atividade masculina, enquanto as tarefas domésticas eram atribuídas sobretudo às raparigas.
As participantes são incentivadas a remar, enfrentar as ondas, cair, voltar à prancha e tomar decisões por si próprias. O oceano transforma-se, assim, num espaço onde podem experimentar uma autonomia que nem sempre encontram no quotidiano.
É essa ideia que atravessa a reportagem da TSF: para estas raparigas, o mar acabou por representar menos um perigo do que um refúgio face às regras existentes em terra.
“Quando estou no surf, todos os problemas ficam em casa”
O impacto dessa experiência já tinha sido descrito por algumas das participantes. Zézinha, uma das jovens ligadas ao projeto, explicou em 2023 que o surf lhe ensinou a acreditar que “tudo é possível”. Na água, contou, consegue concentrar-se em si própria e afastar temporariamente os problemas do quotidiano.
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A experiência é partilhada por outras participantes. Nos testemunhos divulgados pela SOMA, as jovens associam as atividades a maior liberdade, coragem, confiança e capacidade para perseguirem os próprios objetivos.
A organização trabalha atualmente sobretudo com raparigas entre os 10 e os 17 anos e combina a chamada terapia através do surf com outras formas de acompanhamento.
Surf é apenas uma parte do projeto
A intervenção não termina quando as jovens saem da água. A SOMA desenvolve apoio escolar, atividades de desenvolvimento pessoal e ações relacionadas com igualdade de género e bem-estar físico e emocional. Mantém também um espaço comunitário com biblioteca, computadores, sala de estudo e outras instalações destinadas aos jovens.
Os rapazes também são envolvidos em algumas atividades. Uma vez por semana, participam com as raparigas em sessões destinadas a discutir e transformar normas de género dentro da própria comunidade.
A organização resume a estratégia numa ideia: o surf funciona como meio para chegar a problemas sociais mais profundos. Desde a criação do projeto, mais de 200 raparigas concluíram os programas da SOMA. A organização contabiliza ainda mais de 3.250 horas de sessões de surf ou stand up paddle, 1.110 horas de atividades em sala e cerca de duas mil visitas domiciliárias.
Primeiras surfistas começaram a quebrar barreiras
Os resultados também começaram a tornar-se visíveis fora do projeto. São Tomé e Príncipe passou a ter participação feminina em campeonatos nacionais de surf, com prémios equivalentes nas categorias masculina e feminina. Uma surfista são-tomense chegou também a representar o país no estrangeiro, num campeonato realizado na Libéria.
Em 2023, fotografias e vídeos das jovens de Santana foram integrados num grande banco internacional de imagens para aumentar a representação de mulheres negras no surf. A iniciativa procurou contrariar uma ausência detetada nos bancos de imagens comerciais, onde praticamente não existiam fotografias deste perfil de atletas.
A mudança tem, por isso, uma dimensão que ultrapassa o desporto. As jovens que começaram por entrar num espaço tradicionalmente reservado aos rapazes passaram também a ocupar competições, imagens e lugares de representação que anteriormente não existiam.
Do medo do mar à liberdade dentro de água
A história das surfistas de Santana expõe um contraste: num país rodeado pelo oceano, uma parte significativa das mulheres cresceu afastada dele.
O projeto não elimina as desigualdades que continuam a existir quando as jovens regressam a casa. Mas oferece-lhes um espaço onde podem experimentar outras possibilidades e transportar essa confiança para a escola, para a família e para a comunidade.
Quase seis anos depois das primeiras aulas, o mar que muitas aprenderam a temer tornou-se, para uma nova geração de raparigas são-tomenses, um lugar onde as regras podem ser diferentes.