Os preços dos combustíveis sobem realmente mais depressa do que descem? A pergunta ganhou força durante a recente escalada dos preços em Portugal, mas os dados analisados pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) entre janeiro de 2023 e julho de 2026 não confirmam um padrão sistemático. Na gasolina 95 não foi identificada uma assimetria estatisticamente significativa e, no gasóleo, a diferença observada foi reduzida e temporária.
A ERSE analisou a evolução dos preços da gasolina 95 simples e do gasóleo simples em Portugal continental durante cerca de 43 meses, entre 1 de janeiro de 2023 e 27 de julho de 2026.
O objetivo era perceber se as variações das cotações internacionais eram transmitidas aos consumidores de forma diferente quando os custos subiam ou quando desciam. A análise procurou, em particular, identificar o chamado efeito “foguete e pluma”: preços que sobem rapidamente quando os custos aumentam, mas descem lentamente quando esses custos diminuem.
A conclusão do regulador é clara: não existe evidência de um comportamento persistente desse tipo. Na gasolina 95, a ERSE não encontrou uma diferença estatisticamente significativa entre a velocidade de transmissão das subidas e das descidas. No gasóleo foi identificada uma assimetria inicial, mas de reduzida dimensão e que desapareceu ao fim de cerca de quatro semanas.
O petróleo não é o único indicador
Uma das razões para a perceção de que os preços das bombas reagem de forma desfasada está na própria formação do preço. O valor pago pelos consumidores não acompanha diretamente a cotação do petróleo Brent. Os principais referenciais utilizados na formação dos preços são as cotações internacionais da gasolina e do gasóleo já refinados.
Essas cotações refletem não apenas o preço do petróleo bruto, mas também a oferta e a procura de produtos refinados, a capacidade das refinarias, os níveis de armazenamento, os custos de transporte e os riscos geopolíticos.
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Esta distinção é particularmente importante em períodos de crise. Uma descida do Brent não significa necessariamente uma descida imediata da gasolina ou do gasóleo nos mercados internacionais.
O que acontece quando os preços descem
Quando as cotações internacionais dos produtos refinados começam a cair, essa descida é incorporada nos custos de referência utilizados pelos operadores. Mas o preço final inclui outras componentes que não variam necessariamente ao mesmo ritmo.
Entre elas estão a logística, as reservas, a incorporação de biocombustíveis, as margens comerciais e a fiscalidade. Os impostos têm ainda uma característica particularmente relevante: uma parte significativa da carga fiscal é definida por valores específicos por litro e não acompanha diretamente cada oscilação da cotação internacional. Por isso, mesmo quando a componente internacional diminui, o preço final não cai na mesma proporção.
Então porque permanece a sensação de que “sobem num foguete”?
Há um fator psicológico e outro económico. Uma subida acentuada dos preços é imediatamente visível no orçamento das famílias. Uma descida posterior pode ocorrer em várias etapas, especialmente quando as cotações internacionais também evoluem de forma irregular.
Foi precisamente durante a recente crise energética que esta perceção ganhou força. A guerra no Médio Oriente provocou fortes oscilações nas cotações dos produtos petrolíferos, nos fretes marítimos e nos prémios de risco. A ERSE foi chamada a analisar se as descidas internacionais estavam a chegar aos consumidores com a mesma intensidade e rapidez que as subidas. Os dados não confirmaram, contudo, uma assimetria persistente.