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Marca de Macau, terra de Zhuhai

Sem espaço para cultivar em Macau, a Hao Ji Hui encontrou em Zhuhai a base agrícola de que precisava para produzir legumes biológicos, mantendo em Macau a força da marca e da estratégia comercial. A empresa, do residente local Benjamin Suen, mostra como a Grande Baía pode funcionar como extensão prática das limitações de Macau.

Inês Lei

A trajetória da empresa começa em 2011 e sublinha, desde o início, o papel de Macau na ligação entre a China e os Países de Língua Portuguesa. “Na altura, isso teve realmente muito a ver com a plataforma sino-portuguesa”, explica ao PLATAFORMA. Nessa fase, o grupo já tinha negócios em Heilongjiang, no nordeste da China, e aproveitou o enquadramento criado em torno de Macau para desenvolver contactos no setor agrícola em África.

Segundo Suen, “China, Portugal e África queriam usar Macau como plataforma e esperavam convidar empresas estatais de Heilongjiang a ajudá-los a desenvolver a agricultura através dos nossos canais”.

A experiência, que incluiu colaboração com o Beidahuang Group em projetos em Angola e Moçambique, ajudou-o a identificar uma oportunidade no mercado chinês. “Durante este processo, descobri que o mercado agrícola do nosso país é, na verdade, bastante grande” e “aprendi muito sobre os diferentes pormenores do mercado agrícola”.

A conclusão foi clara: “Com o crescimento económico do nosso país, existe procura por alguns vegetais de gama alta e média-alta.” Daí nasceu a ambição de apostar nos legumes biológicos: “Na verdade, posso estudar o mercado dos legumes de gama média-alta, e o nosso posicionamento é produzir legumes biológicos”.

Grande Baía mudou tudo

O projeto começou em Hong Kong, passou por Taiwan e por experiências no Interior da China, mas o momento decisivo chegou em 2017, com o anúncio do conceito da Grande Baía. Até então, a expansão estava a ser pensada para cidades como Pequim ou Xangai. “Na altura, nem sequer considerámos o mercado de Hong Kong e Macau”.

A nova geografia regional alterou os planos. “Como o meu sócio é de Hong Kong e eu sou de Macau, não precisávamos necessariamente de ir tão longe; a Grande Baía parecia uma boa opção”. A partir daí, Macau deixou de ser apenas origem para passar a ser eixo estratégico.

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“Depois de discutir com o meu sócio, decidimos finalmente tirar partido de Macau enquanto plataforma, porque Macau sempre foi um centro internacional de turismo e lazer”. O alvo imediato foram os grandes resorts integrados. “Na altura, contatámos seis grandes resorts para perceber se tinham necessidades nesta área.” A resposta validou o projeto: “Indicaram-nos que a procura era muito grande”.

Foi dessa lógica que nasceu a solução atual. “Escolhemos então Macau como base para estabelecer a nossa marca. Como a base está em Macau e não podemos fazer aí o cultivo, e como Macau está mais perto de Zhuhai do que qualquer outra cidade da Grande Baía, escolhemos Zhuhai como local para a nossa primeira exploração”, diz ao PLATAFORMA.

A empresa acabou por se fixar em Jinwan, Zhuhai, em 2019, depois de quase um ano à procura de um terreno compatível com as exigências regulatórias. “Na verdade, para quintas modernas como a nossa, a regulamentação chinesa é muito rigorosa e não temos muitos lugares à escolha”.

Hoje, a Hao Ji Hui fornece cinco dos seis grandes resorts integrados de Macau. Mas Suen entende que o mercado local ainda está longe de maturar. “A compreensão dos residentes de Macau sobre o conceito de ‘biológico’ não é abrangente”. E, perante o consumidor, o preço continua a pesar mais: “Se colocarmos dois legumes lado a lado, os consumidores vão olhar sobretudo para o preço”.

Hong Kong e Macau primeiro, China depois

A opção inicial por Hong Kong e Macau não foi apenas comercial, mas também regulatória. “Fomos os primeiros na Ásia a obter a certificação USDA 100% organic”. Ainda assim, essa certificação não permitia comercializar os produtos como orgânicos no Interior da China, que segue normas próprias.

“Não podemos usar o termo ‘orgânico’ para vender os nossos produtos no mercado interno, porque o país adopta as normas chinesas, e não as normas norte-americanas”, explica Suen.

Foi isso que levou a empresa a apostar primeiro em mercados como Macau e Hong Kong que reconhecem a certificação norte-americana. “Por isso tive de começar primeiro pelos ‘mercados externos’. Mas o mercado com maior potencial será sempre o do nosso próprio país”. Entretanto, a empresa obteve também certificação chinesa e começou a explorar o mercado interno.

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Se Macau surge como marca e Zhuhai como base produtiva, Hengqin aparece como a hipótese que não avançou. “A minha primeira escolha foi Hengqin, mas Hengqin não tem terras agrícolas, por isso não pude fazer lá”, disse Benjamin Suen.

A frase resume uma parte importante da equação regional: Macau oferece reputação, mercado e projeção; Zhuhai garante espaço para produzir; Hengqin, apesar da proximidade e da centralidade política no discurso da integração, não respondeu às necessidades concretas de um projeto agrícola.

Macau continua no centro da visão futura da empresa, incluindo para produtos transformados. “Outro exemplo é o nosso manjericão de alta qualidade; gostaríamos de encontrar um chef de renome que nos ajudasse a fazer um pesto de manjericão com marca de Macau”. O entrave, reconhece, está na falta de capacidade industrial local: “Macau tem mercado, mas não tem indústria de transformação alimentar”.

No fim, é a confiança associada a Macau que continua a justificar a aposta. “Macau é um centro internacional de turismo de classe mundial, e as pessoas de todo o mundo têm uma confiança particular nas marcas alimentares de Macau. Basta ver o sucesso que os produtos alimentares típicos de Macau têm tido ao longo de tantos anos. Escolhemos Macau para o nosso negócio alimentar precisamente por causa dessa confiança”, conclui Suen.

 

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