O Presidente chinês respondeu à carta de uma delegação norte-americana de intercâmbio juvenil – professores e alunos de Miami – congratulando-se com o interesse que demonstram pela cultura chinesa. Só nos últimos cinco anos, 50 mil almas das terras do Tio Sam foram convidadas a visitar a China; “ponte para levar adiante a amizade entre os dois povos”. A expressão é de Xi Jinping, que na mesma missiva vinca a “aspiração comum dos povos da China e dos Estados Unidos”. Há o tempo curto, dos homens com “h” pequeno, que passam pelo poder como se não houvesse amanhã; e há esta noção do tempo longo; do Homem grande, que sabe que o amanhã não é dele, mas de quem mais vier.
A mensagem sublime deste texto é a de que o mundo tenso, que hoje nos assusta, pode não estar cá amanhã. Contudo, o amanhã que canta não cai do céu aos trambolhões; é preciso lutar por ele – fazer por merecê-lo. Certamente não por acaso, a imprensa estatal chinesa deu enorme destaque a esta missiva que, noutros tempos, passaria por mera cortesia aos jovens visitantes. A questão é que, olhando hoje para Washington, é por cima da Casa Branca que paira o olho de um tufão político desvairado, que rabeia em todas as direções. Pequim assume aqui uma posição de força que é muito maior do que qualquer parada militar ou ameaça de guerras. Este discurso, pacifista e conciliador; trata o caos como mera circunstância; não confunde um líder com o seu povo; isola o presente, não hipoteca o futuro… e, sobretudo, pensa para além de si mesmo, na causa maior. A América e a China são – e serão – as duas potências dominantes; muito depois de Trump, e de Xi. Quanto menos cacos houver a varrer, mais fácil será para quem se segue reconstruir formas pacíficas e civilizadas de sermos cada um de nós aquilo que queremos ser: diferentes uns dos outros; unidos na partilha do espaço e do tempo que temos; com respeito mútuo pelas diferenças, e circunstâncias de cada um.
Porque estamos na China, quero sobretudo aplaudir a evidência de que contamos aqui com uma visão do mundo de quem quer vingar e impor-se, com o devido respeito pela diferença que sabe que o outro tem
Já o disse, vezes sem conta; mas repito. Sou contra a guerra; toda ela, por mais legítima que a queiram fazer crer os argumentos, que variam no tempo e no espaço; não sou fã de nenhuma ditadura; aliás, sou crítico de todas elas, seja qual for a cor e a narrativa que tenham. Mas é hoje muito claro o abismo entre a filosofia política do Palácio do Povo e a da Casa Branca. Vem do líder do dito mundo livre, das democracias liberais, a maior ameaça a todos os valores que supostamente representam; e vem do mundo que o Ocidente tão violentamente contesta a voz que, ainda assim, nos diz que é possível um mundo em que uns e outros defendam valores e interesses opostos, livres da fúria um do outro.
Escreve o Fernando, na página 2, que os Estados Unidos não são hoje uma aliança fiável; não só para a Europa, mas para todo o sistema internacional. É verdade. Contudo, quero eu acreditar que se trata de uma circunstância, que o tempo varrerá para longe; e, porque estamos na China, quero sobretudo aplaudir a evidência de que contamos aqui com uma visão do mundo de quem quer vingar e impor-se, com o devido respeito pela diferença que sabe que o outro tem.
Ainda é assim no discurso, que insistentemente se repete; e ainda é essa a prática. Podem acusar Pequim de tudo, mas não desta catadupa de trumpalhadas. Porque, simplesmente, não é verdade.
*Diretor Geral do PLATAFORMA