O ano de 2026 começou sob o signo da agitação global. Os Estados Unidos ‘prenderam’ o presidente da Venezuela sob acusações de narcotráfico, enquanto o Irão parece ter entrado em ebulição revolucionária. Dir-se-ia que se confirma a profecia da sabedoria chinesa, que encara 2026 e 2027 como anos fatídicos, pressagiando uma era de turbulência mundial. Cada uma destas crises tem raízes históricas profundas. No entanto, há também outra tendência a emergir e a redesenhar o panorama global: a contestação e resistência à ordem globalizadora.
Desde a política “America First” de Trump, passando pelo nacionalismo do primeiro-ministro húngaro Orbán, até à ascensão da extrema-direita em Itália, estes fenómenos – embora aparentemente isolados – partilham o mesmo impulso: proteger as indústrias nacionais, restringir a imigração e redefinir o significado das fronteiras. A força anti-globalização está a consolidar-se em várias partes do mundo.
Qual é a relevância disto para Macau? O certo é que, enquanto cidade que se apresenta como “plataforma” e “porta de entrada”, Macau sempre esteve na vanguarda da globalização.
Em meados do século XVI, os portugueses estabeleceram em Macau um entreposto comercial, inaugurando uma rede que ligava Lisboa, Goa, Macau, Nagasaki, Manila e o México. A seda chinesa passava por Macau a caminho do Japão; a prata japonesa circulava até à China através de Macau; a prata americana era transferida de Manila para o Leste Asiático. Pode dizer-se que Macau foi um dos nós essenciais da primeira globalização, e testemunhou o cruzamento de bens, culturas e religiões entre Oriente e Ocidente.
A história, contudo, também nos recorda que a globalização nunca foi um processo linear. Em 1639, o Japão implementou a política de isolamento (sakoku), proibiu oficialmente o comércio e o contato com o Ocidente, e impediu os japoneses de saírem do país, tudo para erradicar o cristianismo e consolidar o poder do xogunato. Isto significou o corte da rota comercial mais lucrativa de Macau. No século XVII, a ascensão dos holandeses abalou a supremacia marítima portuguesa. Macau conheceu períodos de prosperidade e de declínio, mas a sua sobrevivência baseou-se sempre na capacidade de ajustar as suas atividades económicas e o seu papel nas redes regionais.
Hoje, perante os novos desafios à globalização e o virar do mundo para dentro, para onde deve caminhar Macau? Talvez a resposta não passe por lutar contra a maré, mas, tal como fizeram os nossos antepassados, por refletir e procurar um novo lugar e papel num cenário em transformação.