Manuel Silvério, antigo presidente do Instituto do Desporto

Ao longo da minha vida profissional, acompanhei de perto a evolução do desporto em Macau – os seus avanços, os seus limites e as suas transições. Hoje estou profundamente convencido de que o desporto pode tornar-se um verdadeiro setor económico da RAEM. Mas isso só acontecerá se existir visão estratégica, liderança informada e uma abertura muito maior do sistema.

Nenhuma indústria nasce sem uma definição clara do seu propósito. Antes de qualquer plano, Macau precisa de responder a uma pergunta básica:

O desporto é apenas uma atividade social e recreativa, ou deve tornar-se também um motor económico, capaz de gerar emprego, inovação e valor internacional?

Sem esta resposta, não há política pública consistente. Com ela, tudo o resto se alinha.

Macau dispõe de um ativo estratégico que poucas cidades no mundo possuem:

as seis concessionárias de Jogo, com capacidade financeira, redes internacionais e experiência na operação de eventos de grande escala.

A indústria do desporto não pode crescer ignorando esta realidade. O modelo moderno deve assentar num triângulo funcional: o Governo – regula, planifica, garante padrões, protege o interesse público; as concessionárias – investem, co-operam, inovam, produzem eventos e conteúdos; as associações desportivas – fornecem o conteúdo técnico, formam atletas, asseguram legitimidade desportiva.

Não se trata de reduzir o papel do Estado ou das associações. Trata-se de criar uma engenharia institucional capaz de gerar valor, em vez de dispersão e redundância.

A experiência de Hong Kong demonstra que o setor privado pode desempenhar um papel estruturante. O Jockey Club, através dos seus fundos de apoio, e várias instituições privadas criaram um verdadeiro ecossistema desportivo: financiam infraestruturas, apoiam modalidades, investem em ciência desportiva, produzem programas de impacto comunitário e económico.

Esta combinação entre capital privado, governação pública e associações funciona.

E Macau tem condições para seguir um modelo semelhante, adaptado à sua escala e às suas características.

Uma indústria não se sustenta apenas com eventos pontuais. Requer estrutura, formação, tecnologia, gente qualificada e uma visão de ecossistema.

Macau deve focar-se em áreas estratégicas: formação e ciência, gestão desportiva, análise de dados, inteligência artificial aplicada ao rendimento, fisioterapia, reabilitação, produção audiovisual, comunicação digital. E novos setores: eSports, “smart sports”, turismo desportivo, conteúdos digitais, wellness e reabilitação.

Com o redesenho da indústria do Jogo e o encerramento de vários casinos-satélite, Macau dispõe agora de um grupo numeroso de trabalhadores com competências valiosas: atendimento, gestão operacional, segurança, comunicação com o público e cumprimento de padrões rigorosos.

O desporto pode – e deve – absorver esta mão-de-obra. Através de programas de reconversão e requalificação profissional, estes colaboradores podem integrar novas áreas. Isto estabiliza o emprego, fortalece a economia e cria uma base humana madura e qualificada para sustentar o sector.

Macau tem tudo o que muitas cidades desejam: segurança, infraestruturas, localização estratégica, marca internacional e ligação privilegiada à Grande Baía.

O que falta não é capacidade. É um modelo moderno, profissional, aberto e sustentável. Quando este modelo existir, o desporto deixará de ser apenas “atividade” ou “evento” e tornar-se-á: economia, inovação, emprego, ciência, impacto social, e uma nova marca de futuro.

Acredito profundamente que Macau pode fazer esta transição. E se há um momento certo para começar, esse momento é agora.

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