Início » Macau “é apenas apontamento” para o Brasil

Macau “é apenas apontamento” para o Brasil

Nuno Canas Mendes, investigador de Ciências Sociais, na Universidade de Lisboa, veio a Macau validar os dois volumes que Francisco Leandro se prepara para publicar sobre geopolítica do Brasil; cada vez menos virado para a Lusofonia; completamente focado na China. Para Brasília, Macau “é apenas um apontamento”; já no caso de Lisboa, “continua a fazer sentido”

Paulo Rego

– O que o trouxe concretamente a Macau?

Nuno Canas Mendes – Vim dar consultoria ao professor Francisco Leandro, num projeto que desenvolveu sobre a geopolítica do Brasil; um trabalho extraordinário em dois volumes que, em breve, serão publicados por uma editora académica de grande prestígio. O Brasil tem muito a agradecer-lhe, pois convidou várias dezenas de investigadores do Brasil, Portugal, e outros países, a pensarem sobre política externa, geopolítica, economia… Muito bem feito! No fundo, vim fazer a avaliação final a esse trabalho.

– Brasil, grande potência do Sul Global, que tem mais trocas comerciais com a China que com os Estados Unidos…

N.C.M. – É até absurdo… E é um dos grandes objetivos deste projeto, sobre o qual estou a conversar consigo quase como um analista; ou seja, aproveitando a circunstância de ter lido a obra feita. O livro tinha dois grandes objetivos: um, mais académico, trata a geopolítica numa perspetiva mais clássica – embora com novas correntes e abordagens – mostra que o Brasil tem escola, e pensamento próprio sobre geopolítica. Depois, aborda a relação cada vez mais importante entre Brasil e China. Já que fala no Sul Global, não podemos falar de Brasil e China sem falar dos BRICS+… nesta nova dinâmica; mudança que o mundo está a assistir.

O mundo inteiro já percebeu que tem que haver uma política externa para a China mais definida, menos ambígua; e não o reflexo de jogarmos sempre à defesa, comprometidos com a União Europeia e a NATO

– Portugal anda perdido entre a História lusófona e a circunstância atlântica?

N.C.M. – Não sei… estarmos meio perdidos é mau. Por um lado, temos compromissos assumidos com a União Europeia; independentemente das suas hesitações, que vamos acompanhando – às vezes, não da melhor maneira – e a relação com os Estados Unidos e a NATO. Por outro, temos o resto… o problema é que o resto é cada vez mais importante; daí essa espécie de dilema. O mundo inteiro já percebeu que tem que haver uma política externa para a China mais definida, menos ambígua; e não o reflexo de jogarmos sempre à defesa, comprometidos com a União Europeia e a NATO. Mas não temos autonomia suficiente; há esse constrangimento. E não sei se há Plano B; daí a questão de estarmos perdidos – ou não. Haverá uma estratégia que considere outras realidades, ainda para mais avassaladoras?

– É hoje possível estar com um pé no Atlântico; e o outro Sul Global?

N.C.M. – Acho que sim. Portugal tem uma certa tradição histórica de fazer essa ponte; tem alguns ativos disponíveis. Não sei é se na gestão corrente da política externa isso é suficientemente aproveitado.

– Macau pode ter nisso algum papel?

N.C.M. – Pode – ou não. Para sermos rigorosos, o Brasil não tem de recorrer a Macau para fazer a ponte; na relação bilateral fortíssima que tem com a China, Macau é apenas um apontamento. Não digo que não seja importante, mas não é o mais importante. Já para Portugal, continua a fazer sentido. Sem prejuízo da abordagem a Pequim, Macau tem um papel histórico – e atual – que continua em cima da mesa. Não é o fulcro das relações Portugal/China, mas é um dos seus aspetos importantes. Depois, há as relações da China com os Países de Língua Portuguesa… aí a gestão é mais complicada; não sei se Portugal pode fazer muito mais do que tem feito.

– Como olha o Brasil para esse triângulo?

N.C.M. – Temos de considerar duas coisas: uma é a liderança política… sai Bolsonaro, entra Lula, e há uma mudança importante na abordagem. A outra fala por si: o Brasil é uma grande potência; Portugal não é – são incomparáveis.

– Nem sequer o Brasil tem foco lusófono estratégico…

N.C.M. – A questão da Lusofonia e da CPLP pode levar-nos muito longe. Na minha leitura, que não é original – várias pessoas chegaram a essa conclusão – claramente é prioridade para a política externa brasileira. Não é dizer que não são importantes; provavelmente serão, mas nas relações bilaterais; sobretudo Angola, mesmo ali em frente… do outro lado do oceano.

– E Portugal?

N.C.M. – Não deixa de ser uma porta para a Europa; e há muitos brasileiros a viver em Portugal, onde se sentem bem. Mas isso é outra questão; a Lusofonia e a CPLP não são o mais importante para o Brasil; já a China, claramente, está no topo da lista das prioridades.

Portugal tem uma certa tradição histórica de fazer essa ponte; tem alguns ativos disponíveis. Não sei é se na gestão corrente da política externa isso é suficientemente aproveitado

– Mas não precisa Macau… resta aqui agarrar uma ou outra oportunidade nessa via direta entre Pequim e Brasília?

N.C.M. – Diria que sim, se se adequar. Tanto quanto conheço – não assim tão bem – Macau é uma História de entendimentos tácitos; coisas subliminares, subentendidos que sempre funcionaram – melhor ou pior. Mas não depende só de Macau, há valores mais altos que se levantam. Enfim… seria desejável que Macau pelo menos tivesse essa capacidade de continuar a funcionar como um facilitador de comunicação com a China. Historicamente, abriu portas, deixou passar a influência da China para fora – e vice-versa.

– As universidades podem alimentar esse canal, com troca de conhecimento?

N.C.M. – Sim. Aliás, independentemente do aspeto retórico da questão, é muito interessante que a China promova várias iniciativas com os Países de Língua Portuguesa. Acho até paradoxal, independentemente dos objetivos que a China tem. Ao promover esta retórica, a China acaba por reunir os Países de Língua Portuguesa que, individualmente, talvez não tenham um diálogo, essa visão de conjunto, esta ideia de podermos todos a conversar uns com os outros.

– Já quase não há uma lusofonia sem a China?

N.C.M. – Aquela que a China vê, não; independentemente das razões, que sabemos quais são: interesses políticos e económicos – legítimos e naturais. Acaba por ter efeito, com alguma eficiência, como grande promotora de um bloco, que em si é frágil.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website