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Juros descem mas alívio não chega

A terceira descida das taxas de juro em quatro meses, decidida pela Autoridade Monetária de Macau tem um impacto sobretudo “simbólico”. Com os bancos a manterem a taxa preferencial inalterada, famílias e pequenas e médias empresas continuam sem sentir um alívio concreto nos encargos financeiros - “a descida dos juros parece apenas anular o aumento anterior, sem trazer um verdadeiro alívio”, resume uma residente com crédito à habitação - num contexto marcado por riscos crescentes, crédito malparado em alta e uma recuperação económica ainda excessivamente dependente do turismo e do Jogo

Viviana Chan

Na sequência do anúncio da Reserva Federal dos Estados Unidos, na semana passada, de um corte das taxas de juro, a Autoridade Monetária de Macau (AMCM) procedeu a uma redução da taxa básica em 25 pontos base, fixando-a em 4%. No entanto, para os residentes que amortizam empréstimos à habitação, compradores e pequenas e médias empresas, os efeitos práticos da medida ficaram aquém das expectativas do mercado, revelando-se essencialmente indiretos.

A decisão da AMCM corresponde a um “procedimento normal no quadro do regime de ligação cambial de Macau”, explica Tong Ho Laam, vice-presidente da Associação dos Jovens do Povo e profissional do setor das finanças. Segundo a responsável, a tendência global de políticas monetárias mais flexíveis por parte dos principais bancos centrais “cria um ambiente externo relativamente estável para o sistema financeiro de Macau”. Ainda assim, a manutenção da taxa preferencial implica que os encargos com o crédito à habitação e os custos de financiamento das empresas não tenham sofrido uma redução visível.

A manutenção da taxa preferencial implica que os encargos com o crédito à habitação e os custos de financiamento das empresas não tenham sofrido uma redução visível

Tong Ho Laam, vice-presidente da Associação dos Jovens do Povo

A redução das taxas por parte da Reserva Federal tem como objetivo principal reforçar a liquidez do mercado, favorecendo, em geral, os ativos de risco globais, incluindo ações e metais preciosos, explica Tong ao PLATAFORMA. Para Macau, enquanto economia altamente aberta, o efeito poderá traduzir-se numa “melhoria gradual do sentimento do mercado e, de forma indireta, num impacto positivo sobre o ambiente de investimento local, embora esse processo seja progressivo”.

Encargos inalterados

Para os jovens que já suportam prestações de crédito à habitação ou que planeiam adquirir casa própria, a recente descida das taxas de juro não se traduz num alívio financeiro concreto. Na análise de Tong Ho Laam, o atual ciclo de cortes é de “dimensão limitada” e, como os bancos de Hong Kong e Macau mantiveram a taxa preferencial inalterada, “o valor mensal das prestações hipotecárias continua sem alterações”.

No que respeita aos jovens compradores, apesar de a expectativa de taxas de juro mais baixas poder contribuir para estabilizar as perspetivas quanto ao esforço financeiro futuro, as decisões de compra permanecem fortemente condicionadas por fatores fundamentais, como os preços dos imóveis, a evolução esperada dos rendimentos e a capacidade de entrada inicial.

Fong, uma residente com crédito à habitação, conta ao PLATAFORMA que adquiriu a sua casa em 2018, pagando então cerca de 16.000 patacas por mês. Com a subida das taxas de juro, a prestação aumentou para mais de 18.000 patacas. Embora o valor tenha recentemente regressado ao nível inicial, considera que o peso financeiro continua elevado.

A prestação da casa absorve sempre uma parte significativa do rendimento mensal”, afirma, acrescentando que “a descida dos juros parece apenas anular o aumento anterior, sem trazer um verdadeiro alívio”. A residente reconheceu ainda que a descida das taxas pode “reduzir o custo da dívida”, mas também pode refletir “fragilidade económica”, o que a deixa cautelosa quanto ao futuro.

Dados da Autoridade Monetária de Macau revelam que, em setembro, o rácio de crédito malparado do setor bancário subiu para 5.4%, enquanto o segmento dos particulares registou 4.6%, o valor mais elevado desde novembro de 2004. A evolução da economia local e o impacto acumulado da subida das taxas são apontados como fatores determinantes.

Peso do imobiliário

Quanto à evolução do mercado imobiliário, o presidente do Instituto de Gestão de Macau, Samuel Tong, explica que a compra de habitação é uma “decisão de longo prazo”. Na sua perspetiva, “o atual corte das taxas tem sobretudo um efeito psicológico, mas a trajetória do mercado dependerá essencialmente da relação entre oferta e procura, das expectativas de custos e da criação de nova procura”. Defende, por isso, que “os compradores devem agir com prudência e realismo financeiro”.

Para Mark Wong, diretor sénior da imobiliária JLL Macau, a descida das taxas nos Estados Unidos reforça a tendência global de política monetária acomodatícia, ajudando a aliviar alguma pressão e a “estabilizar o sentimento do mercado imobiliário local”. No entanto, alerta que a “recuperação a curto prazo continua limitada, devido à reduzida dimensão do mercado, à sua estrutura pouco diversificada e à forte dependência da economia do Jogo, bem como à baixa participação de investidores externos”.

O atual corte das taxas tem sobretudo um efeito psicológico, mas a trajetória do mercado dependerá essencialmente da relação entre oferta e procura, das expectativas de custos e da criação de nova procura

Samuel Tong, presidente do Instituto de Gestão de Macau

A saída gradual dos casinos-satélite afeta o emprego e o consumo em determinadas zonas, com impacto na procura imobiliária local. “Mesmo com taxas de juro mais baixas e eventuais medidas de estímulo, a inversão clara da tendência do mercado dependerá da recuperação económica global e da melhoria sustentada do emprego”, diz ao PLATAFORMA, considerando que o atual corte dos juros funciona sobretudo como um fator de suporte.

Do ponto de vista do empreendedorismo jovem e das pequenas e médias empresas, a recente descida das taxas de juro contribuiu para criar um clima de mercado mais favorável, mas teve efeitos limitados na melhoria concreta das condições de financiamento.

Segundo Tong Ho Laam, a manutenção da taxa preferencial significa que os custos diretos dos juros pagos pelas empresas nos empréstimos bancários permanecem inalterados, demonstrando que os bancos continuam cautelosos na política de concessão de crédito. “A decisão de ajustar as taxas aplicadas aos empréstimos depende não só das orientações da AMCM, mas também da situação financeira de cada instituição e do contexto económico externo”, explica.

Face a um cenário global marcado por tensões geopolíticas, avanços tecnológicos acelerados, mudanças estruturais na sociedade e uma reorganização da economia mundial, a incerteza aumentou de forma significativa. Para Tong Ho Laam, a prudência no preço do crédito reflete a necessidade do setor bancário controlar riscos e assegurar estabilidade financeira.

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