Início » Uma reforma ainda por completar: turismo, cultura e desporto

Uma reforma ainda por completar: turismo, cultura e desporto

Manuel Silvério, antigo presidente do Instituto do DesportoManuel Silvério, antigo presidente do Instituto do Desporto

A fusão entre o Instituto Cultural e o Instituto do Desporto motivou uma ampla reflexão pública sobre o futuro da governação cultural e desportiva da RAEM. Porém, para além do debate administrativo, existe uma questão mais profunda: deverá o Turismo também integrar esta nova estrutura?

Esta não é uma mera decisão de organização interna, mas um passo estratégico que influenciará a competitividade de Macau na Grande Baía, no Interior do País e no cenário internacional. A história mostra que os grandes avanços de Macau ocorreram quando a cidade ousou ultrapassar as suas próprias limitações e enfrentou, com pragmatismo e visão, os seus constrangimentos estruturais.

Com base na minha experiência acumulada ao longo de décadas no Governo e em organismos desportivos internacionais, afirmo que Cultura, Desporto e Turismo nunca foram setores paralelos ou independentes: formam um ecossistema interligado. Quando atuam em conjunto, têm força suficiente para impulsionar a economia, atualizar indústrias e reforçar a imagem internacional da cidade. Quando permanecem separados, o potencial fica bloqueado e as sinergias perdem-se.

A Macau de hoje enfrenta simultaneamente três dimensões: a local, a regional e a internacional. O Turismo dispõe de redes internacionais, plataformas de promoção e grande capacidade de comunicação, mas continua desligado dos conteúdos mais valiosos da RAEM – cultura, património, artes performativas, criatividade e desporto.

Esta desconexão entre “promoção” e “conteúdo” faz com que o impacto mediático, cultural e económico de muitos eventos seja significativamente inferior ao seu verdadeiro potencial.

Os projetos culturais e desportivos têm enorme capacidade de internacionalização, mas carecem de mecanismos estruturados que os levem ao exterior. Além disso, os modelos globais de gestão cultural e desportiva estão a mudar rapidamente. : curadoria baseada em IA, domínio das plataformas de ‘streaming’, expansão da arte digital e híbrida e crescimento dos ‘e-sports’ e dos conteúdos transmedia. Sem atualizações tecnológicas rápidas, Macau corre o risco de ficar limitada ao mercado interno.

O Grande Prémio de Macau é um dos símbolos internacionais da cidade, mas a sua operação técnica depende quase totalmente de especialistas estrangeiros. A equipa local coordena e organiza, mas não assume, por si só, a totalidade das certificações e padrões técnicos internacionais. Isto revela a ausência de uma equipa técnica estável, moderna e com padrões internacionais – algo que será ainda mais crítico com o futuro desenvolvimento da Zona Internacional de Turismo e Cultura Integrados de Macau.

O futebol revela um problema semelhante: formação pouco estruturada, falta de técnicos qualificados e dependência excessiva do voluntariado impedem a profissionalização.

Estes não são casos isolados – são sintomas de um modelo de funcionamento ainda centrado em “atividades” e não em “indústrias”.

A verdadeira integração entre Cultura, Desporto e Turismo permitiria a Macau criar um novo dinamismo económico. Cultura e desporto deixariam de ser apenas eventos, passando a constituir setores industriais capazes de gerar valor e exportação. O Turismo deixaria de ser mera promoção, passando a trabalhar com conteúdos reais, estruturados e de alto valor acrescentado.

Contudo, muitos jovens formados em cultura e desporto – quer no Interior do País, quer no estrangeiro – regressam a Macau sem encontrar oportunidades que correspondam à sua qualificação. Este desperdício de talento é grave para uma cidade com recursos humanos limitados.

Muito se discute sobre quem liderará o novo organismo, mas a questão essencial é outra: que modelo de governação deve Macau adotar? O atual modelo da função pública não consegue responder às exigências internacionais de cultura, desporto e turismo.

E quando os grandes eventos são entregues às concessionárias, sem que o modelo de recrutamento e talento acompanhe essa transferência, surge um desequilíbrio estrutural.

A solução não está em regressar ao centralismo administrativo, mas sim em criar um modelo semi-público, onde o Governo define objetivos, fiscalização e direção estratégica; as concessionárias contribuem com técnicos, plataformas e experiência de mercado; o sistema ganha flexibilidade, profissionalismo e capacidade internacional.

Os Conselhos de Cultura, Juventude e Desporto deveriam ser motores de reflexão estratégica, mas no desporto, em particular, raramente contribuem para debates estruturais. A ausência de membros com experiência técnica e visão internacional limita a capacidade do Governo em planear reformas profundas. Este é mais um argumento para a urgência de modernização.

O desafio de Macau não é apenas como integrar Cultura e Desporto, mas decidir se o Turismo deve fazer parte desta nova estrutura. A resposta envolve economia, talento, tecnologia e posicionamento internacional.

A fusão não produz reforma por si só. Reforma exige: visão, liderança, sistema flexível e capacidade de acompanhar as tendências globais. Esta mudança pode representar um momento histórico para Macau – ou transformar-se numa mera formalidade administrativa. Tudo dependerá da lidera

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website